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Parece simples, mas não é

ESPAÇO ABERTO

EM 03/09/2020

2 MIN DE LEITURA

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Por Coriolano Xavier, membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e Professor da ESPM.

A cada dia o Brasil desempenha um papel mais e mais importante no sistema alimentar global. Construiu essa posição nas últimas décadas e agora, durante a pandemia, manteve o ritmo das cadeias produtivas do agro, fortalecendo ainda mais o seu conceito como fornecedor de alimentos estratégico e de confiança. Mas o mercado mostra-se hoje muito mais dinâmico, com uma evolução rápida dos valores e expectativas que os consumidores associam ao consumo alimentar, o que tem gerado pressão sobre os países produtores, principalmente com relação a demandas sobre meio ambiente, sustentabilidade e segurança dos alimentos.

Essas pressões chegam à agricultura por meio de clientes, mídia, investidores, diplomacia e outros atores das cadeias produtivas. Nada muito diferente, na sua essência, do jogo comercial clássico de pressão entre vendedores e compradores, só que hoje bastante amplificado pelo poder midiático e pela complexidade dos mercados e dos valores de consumo. E o Brasil, assim como desenvolveu uma solução tecnológica agrícola própria, tropical, provavelmente terá que aprimorar uma expertise geopolítica e de marketing para navegar nesses cenários mutantes e elevar ainda mais a posição brasileira no mercado mundial.           

Muito se fala que o pós-pandemia será marcado por enorme valorização da saúde no consumo alimentar e tudo indica que de fato isso tende a acontecer, em graus diversos e dependendo o produto, mercado, consumidor etc. E o que isso implica para quem está dentro do agro, fazendo e vendendo a produção? Começa pela consciência de que o setor responderá, cada vez mais, a um sistema ampliado de valores de saúde na compra dos alimentos, valores que serão estabelecidos pelas percepções dos consumidores e seus influenciadores, espraiando-se por outros elos do ambiente de negócios e engajando, principalmente, os mais jovens.

Nesse cenário, a venda do produto agropecuário talvez tenha que abrir o seu leque de públicos. Para vender carne suína, por exemplo, seria agregador “vender” seus benefícios e neutralizar objeções entre médicos, nutricionistas e chefs, além de explorar novas proposições de oferta nos canais distribuidores. O setor de carne suína, em particular, até já faz isso, e bem, mas este tipo de estratégia ainda não é comum no agro. Outro exemplo: na venda de uma nova genética hortifruti, mirar além do agricultor e também envolver seus elos de integração na cadeia produtiva, como agroindústrias e serviços de abastecimento.

Na hipótese de mercados com alta sensibilidade aos fatores nutricionais e sanitários de saúde, a credibilidade e reputação serão dois pilares essenciais para o sucesso dos negócios – sejam eles de uma empresa, cooperativa ou até mesmo país. E saúde, no século 21, inclui também bem-estar animal e preservação ambiental, quando o assunto é alimento. É um mundo em transformação e o desafio, para o agro, será entender em pormenores o que a sociedade quer do sistema alimentar, o que as pessoas esperam que o agro forneça para elas. Parece simples, mas não é, embora passe por aí o caminho do futuro.

As informações são do CCAS.

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