s.f. Tendência ou aptidão para ser efetivo; capacidade de realizar ou desenvolver alguma coisa demonstrando eficácia; efetividade. Particularidade demonstrada por pessoas que conseguem produzir um ótimo rendimento, quando realizam qualquer coisa; característica do que é eficaz. (Etm. do latim: efficientia.ae)
Há aproximadamente 6 anos, escrevi uma série de artigos sobre as 10 dicas infalíveis para perder dinheiro com Leite (links de acesso no final do artigo) e desde esta época venho pensando em como abordar o tema da lucratividade da atividade sem tentar impingir uma “receita de bolo”, ou seja, um manual certinho e quadradinho que se não for executado exatamente igual ao proposto, desanda.
Ao pensar nos produtores bem sucedidos que tive a oportunidade de conhecer, e com alguns trabalhar, vejo que o elo comum que liga a todos, independente da forma de como escolheram atuar, é o da busca constante da eficiência. Mas além da definição do dicionário que encontra-se acima, o que realmente é eficiência? Como ela influencia e afeta as atividades diárias de uma propriedade leiteira? Que custo e benefícios a mesma traz e consequentemente acarreta para o negócio?
Para tentar exemplificar o uso deste conceito no dia-a-dia de uma propriedade leiteira e seu impacto na lucratividade da atividade, procurarei abordar alguns conceitos simples da atividade, muitas vezes esquecido por alguns produtores, mas que são vitais para permanência com sucesso na atividade.
Apesar de muitos insistirem em complicar a atividade, penso na mesma como a composição de três triângulos que necessitam ser entendidos e bem utilizados de forma igualitária e proporcional. O primeiro destes triângulos é o que trata do uso dos recursos necessários para a atividade, onde o Trabalho, o Capital e a Terra estão locados para que a atividade seja produtiva. Apesar desta forma aparentemente simples, é a combinação consciente desses recursos que permite que alguém permaneça com sucesso na produção de leite ou mesmo ingresse na atividade.
Como esta composição pode ser extremamente variável, de acordo com a forma de exploração ou a região do país em que a mesma se desenvolve, e até mesmo devido à variabilidade entre propriedades, tentar trabalhar com comparações entre desiguais pode ser extremamente complicado e danoso.
Um exemplo disto é o do uso consciente do recurso Terra. Produtividades ao redor de 15.000 litros de Leite com lucro líquido de aproximadamente 15 % ao ano (esta é a média histórica em propriedades eficientes desde o fim do tabelamento de preços) em locais onde o custo oportunidade do solo é baixo podem ser aceitáveis, mas a mesma produtividade em terras com custo oportunidade muito alto podem apressar a saída da atividade. Além disso, a conta de litros de leite por hectare não envolve apenas a área alocada para as vacas em produção, mas as áreas necessárias para recria e para os animais em transição.
Sendo assim não dá para ter visão de futuro em locais de intenso uso agrícola, com custos oportunidades de Terra já beirando 1.000 a 1.200 Kg de soja por hectare, com explorações produzindo menos de 30.000 litros por hectare e lucro líquido anual de 15%. Em uma situação de baixa produtividade (15.000 Litros/ Hectare) somente a remuneração do custo oportunidade Terra representaria no Custo Total do leite algo ao redor de R$ 0,10 por litro, ou aproximadamente 13% do Custo Total de produção, o que de certa forma acaba por consumir o Lucro líquido gerado pela atividade.
Esta realidade de certa forma foi escancarada a todos os produtores quando da entrada da Cana de Açúcar como competidor por áreas agrícolas em todo o sudeste do Brasil. Aonde a topografia permitiu a exploração mecanizada e os valores de arrendamento beiraram R$ 1.200,00 por hectare simplesmente a pecuária leiteira tradicional desapareceu ou teve que se adequar a maiores produtividades.
Outro fator, que cada vez mais vem afetando a rentabilidade da atividade é o uso eficiente do recurso Trabalho. É bastante comum quando em conversa entre produtores a referência a Litros de Leite/homem/dia. De forma simplista é um parâmetro que a princípio diz muita coisa, mas que ao analisarmos mais detidamente pouco informa sobre o uso eficiente ou não do recurso. Se quisermos entender o impacto deste recurso na atividade, temos que trabalhar com indicadores diferentes. Como jornadas de trabalhadores entre propriedades variam imensamente, em alguns pontos até de forma incorreta (precisamos sempre lembrar que jornada excessiva de trabalho é caracterizada como situação análoga à escravidão) procuro analisar o impacto deste recurso, que ao mesmo tempo é custo de duas formas. A primeira é uma relação de Litros de Leite/hora/homem considerando todos os trabalhadores envolvidos na atividade, aí incluídos a produção de Leite propriamente dita mais a recria, e manejo de dejetos. Nesta conta está incluso o trabalho familiar. Apenas como referência, temos buscado alcançar valores superiores a 80 litros/hora/homem como referencial de eficiência produtiva, mas o que realmente importa é, ao gerar o seu número, procurar obter ganhos de eficiência gradativos que minimizem os impactos dos ganhos salariais futuros de seus funcionários em seu Custo Total.
O segundo indicador e o mais importante é o impacto deste custo no Custo Total de Produção. Nesta conta estão inclusas todas as despesas geradas para executar o Trabalho em uma propriedade leiteira, tais como salários, encargos, pro labore, indenizações, adicionais noturnos, DSR, etc . Um bom patamar, que permite uma boa gestão é manter o custo do Trabalho ao redor de 15 a 17% dentro do seu Custo total.
Muitas vezes, vejo produtores familiares incorporando seu custo do trabalho como resultado da atividade. Mesmo não remunerado como a um funcionário, o custo do trabalho deve ser considerado e devidamente apropriado. Sendo assim uma família no Sul do Brasil com pai, mãe e filho envolvidos na atividade Leiteira tem um custo a ser apropriado ao redor de R$ 5.000,00 que é a remuneração com os encargos de um casal de funcionários na mesma realidade. Este dinheiro não é Lucro e sim pagamento pelo trabalho. Não estou dizendo que produtores com resultados inferiores a este devam sair da atividade, o que não posso entender é a apuração de Custos reais de produção ignorando esta realidade.
O terceiro e mais importante fator a ser considerado é o uso do Capital para produzir Leite. A forma mais simples de entender e comparar realidades distintas é apurar quanto de Capital é necessário para produzir um litro de Leite. Nem sempre sistemas mais simples de exploração são mais eficientes, e quase sempre o uso abusivo de capital não representa garantia de sucesso.
Como comparativo sobre estas realidades, vemos duas propriedades absolutamente distintas, uma no sudoeste da Bahia com exploração a pasto com irrigação por pivô e outra na região dos Campos Gerais do Paraná com exploração intensiva com uso de fertirrigação, que são extremamente eficientes no uso do capital quando comparados com um dos países referenciais na produção de Leite, que é a Nova Zelândia. Ou seja, não importa o sistema escolhido e sim o bom uso do capital disponibilizado.
Apenas como referência, o valor médio na Nova Zelândia girava a 4 anos atrás ao redor de R$ 4,16 por litro de Leite comercializado sem considerar a área de recria, sendo que um dos fatores que mais impactava era o da aquisição da Terra. Essa realidade foi e é um dos motivadores a migração de produtores neozelandeses para o Brasil.
Rebanho ( incluso Recria ) R$ 5.000.000,00
Capital de Giro + Silagens R$ 750.000,00
Tratores e Carretas R$ 600.000,00
Casas R$ 400.000,00
Instalações R$ 2.000.000,00
Ordenha R$ 700.000,00
Biodigestor e Fertirrigação R$ 700.000,00
Terra ( 126 Hectares ) R$ 4.410.000,00
TOTAL R$ 14.560.000,00
PRODUÇÃO ANUAL COMERCIALIZADA 6.857.000
CUSTO POR LITRO R$ 2,12
Só que infelizmente não basta somente apropriar o capital para iniciar a atividade, é necessário remunerar o mesmo anualmente. Para remunerar este capital disponibilizado para a atividade em geral, excetuando a Terra, consideramos a taxa de juros vigente para a atividade agropecuária que nos últimos anos tem variado entre 5 a 6% ao ano.
Somente como referência e considerando a propriedade paranaense citada acima, este valor do uso do capital representa atualmente um custo adicional ao litro de Leite de R$ 0,0685, ou 8,6% do custo total de produção.
Como forma de avaliar a eficiência na produção de Leite, independente da eficiência agrícola, temos apropriado a remuneração do Capital Terra pelo custo oportunidade da mesma, mensurado pelo valor de arrendamento vigente na região para atividade agrícola ou florestal. Este valor é adicionado no custo das forrageiras, tais como Silagens e pré-secados e tem por objetivo mensurar a viabilidade da produção própria ou da terceirização das forrageiras.
Espero ter de forma bastante simplista ter iniciado esta série que objetiva fornecer ao produtor formas de entender um pouco mais da Gestão da atividade e os possíveis gargalos que possam dificultar a condução de um negócio eficiente, lucrativo e com sucesso.
Artigos citados no texto:
Dez dicas infalíveis para perder dinheiro com Leite (Parte 1)
Dez dicas infalíveis para perder dinheiro com Leite (Parte 2)
Dez dicas infalíveis para perder dinheiro com Leite (Parte 3)