Muito além de um alimento típico do Nordeste, o queijo de manteiga é considerado um dos símbolos da cultura alimentar do Rio Grande do Norte. Em sua obra História da Alimentação no Brasil, o folclorista Luís da Câmara Cascudo já relacionava o chamado "Queijo do Seridó" às antigas fazendas de criação de gado do sertão potiguar, evidenciando uma tradição que atravessa quase três séculos.
A fabricação preserva um saber artesanal bastante particular. O leite é inicialmente coagulado para formar a coalhada, que passa por um período de dessoragem antes de voltar ao tacho, onde recebe leite fresco e, posteriormente, manteiga da terra (ou manteiga de garrafa). O processo exige experiência do queijeiro para definir o momento exato da adição do sal, da manteiga e o ponto final da massa, responsável pela textura elástica e pelo sabor característico do produto. Esse método tradicional é justamente um dos principais diferenciais do queijo de manteiga em relação a outros queijos brasileiros.
O produto, inclusive, possui um Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade estabelecido pelo Ministério da Agricultura desde 2001. Pela legislação, o queijo de manteiga deve ser elaborado exclusivamente a partir da coagulação do leite, seguida de fusão da massa com adição de manteiga da terra ou manteiga de garrafa, conferindo sua característica untuosa e sabor marcante.
Fonte: Globo Rural
Nos últimos anos, o Rio Grande do Norte também avançou na valorização dessa cadeia produtiva. A legislação estadual passou a reconhecer e regulamentar a produção artesanal, enquanto iniciativas envolvendo governo, Sebrae, universidades e instituições financeiras contribuíram para a estruturação de dezenas de queijarias, ampliando a qualidade, a regularização sanitária e a competitividade do setor.
O próximo grande passo é a obtenção da Indicação Geográfica (IG) para o queijo de manteiga do Seridó, processo que está em andamento e pode agregar ainda mais valor ao produto, fortalecendo sua identidade territorial e ampliando sua visibilidade no mercado nacional e internacional. A expectativa é que o reconhecimento impulsione não apenas as vendas, mas também o turismo gastronômico na região.
A reportagem exibida pelo Globo Rural reforça uma tendência observada nos últimos anos: o crescente interesse dos consumidores por alimentos com identidade regional, história e modo de produção artesanal. Em um momento em que os queijos brasileiros conquistam cada vez mais espaço dentro e fora do país, o queijo de manteiga mostra que tradição, cultura e qualidade podem caminhar juntas — e transformar um produto típico em patrimônio da gastronomia nacional.
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Fontes consultadas:
- BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa nº 30, de 26 de junho de 2001. Aprova o Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade de Queijo de Manteiga. Brasília, DF, 2001. Disponível em: https://www.defesa.agricultura.sp.gov.br/legislacoes/instrucao-normativa-30-de-26-06-2001%2C1039.html. Acesso em: 19 jul. 2026.
- BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Cadastro Nacional de Produtos Artesanais (CNPA). Brasília, DF. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/producao-animal/selo-arte-selo-queijo-artesanal/cadastro-nacional-de-produtos-artesanais-cnpa. Acesso em: 19 jul. 2026.
- GLOBO RURAL. Produção de queijo de manteiga no Rio Grande do Norte. Programa exibido em 12 jul. 2026. Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/14770978/. Acesso em: 19 jul. 2026.
- QUEIROZ, A. S. et al. Caracterização da produção de queijo de manteiga artesanal: contribuições para a proteção da tradição e indicação geográfica no Seridó. ARACÊ – Revista Acadêmica, 2025. Disponível em: https://periodicos.newsciencepubl.com/arace/article/view/5376. Acesso em: 19 jul. 2026.
- TRIBUNA DO NORTE. O queijo de manteiga é um Feito Potiguar. Natal, 2026. Disponível em: Tribuna do Norte. Acesso em: 19 jul. 2026.