Leite no Japão - situação atual, tendências futuras e oportunidades

Leite no Japão - situação atual, tendências futuras e oportunidades

Publicado em: - 11 minutos de leitura

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Fabiano Amaro escreve a seção Volta ao Mundo para o MilkPoint a partir das experiências e do conhecimento adquirido como diretor mundial de marketing da DeLaval, na Suécia, cargo que lhe permite acompanhar de perto as movimentações do setor em todo mundo.

O Negócio leite - Produtor de leite

O Japão é uma das nações líderes na importação de produtos agrícolas. A grande indústria láctea Japonesa, segunda em tamanho no leste-sudeste asiático e também uma das mais protegidas, contribui com o fornecimento de leite fluido destinado ao consumo e leite para a produção de derivados lácteos, além de animais jovens que são destinados para a produção de carne.

A produção de leite no pais vem se reduzindo nos últimos anos (8,36 bilhões de litros em 2004), ao passo que a importação vem crescendo. Este fato é inusitado principalmente se considerarmos o alto nível de proteção agrícola e dos produtos lácteos. A alta barreira alfandegária do país confere ao sistema, anualmente, a transferência de aproximadamente 1,4 bilhão de dólares para os produtores japoneses, pois os possibilita vender os produtos, no mercado interno, a preços mais elevados que os do mercado mundial.

Em adição, outros 400 milhões de dólares saem anualmente dos cofres do governo através de seu programa de subsidio direto, coordenado pelo "Japan Dairy Council (JDC)". Esta entidade, pública, monitora o sistema de quotas e tem como meta básica determinar o volume a ser produzido a partir da demanda, mantendo assim a estabilidade dos preços no mercado consumidor.

Assim sendo, o sistema de controle da produção fica centralizado no JDC, que delega para as associações regionais o controle e limite da produção de leite. Caso em uma região seja produzido mais leite que o permitido, o JDC está autorizado a emitir uma penalidade para a associação regional, que pode variar desde uma redução nos limites para o fornecimento no ano seguinte como também uma multa de R$ 0,073/kg extra-cota de leite produzido.

O programa de subsídio, em 2004, garantiu aos produtores, sob a forma de pagamento direto, R$ 0,193 centavos por kg de leite produzido, desde que o volume estivesse dentro da quota.

A produção de leite é oriunda principalmente de vacas holandesas, que produzem a uma média de 8800 kg/vaca/ano, uma das maiores médias nacionais da atualidade. De acordo com as últimas estatísticas oficiais do Ministério da Agricultura, publicadas em 2005 e referentes ao ano anterior, existem 27.719 propriedades de leite, sendo que nos últimos 5 anos aproximadamente 4500 propriedades de leite fecharam, totalizando uma redução média de 3,5% ao ano. Do total das fazendas existentes, 32% estão localizadas na ilha norte, de Hokkaido, a qual também conta com mais de 46% do número total de vacas. Existem, basicamente, dois sistemas distintos de produção de leite:

  • grandes fazendas, de forma geral, se estabelecendo em Hokkaido, onde a média atual já é de 96 vacas por fazenda, modelo de produção industrial, trabalhadores chineses, gerente japonês, silagem de milho, alfafa e concentrados em grande parte importados, por via aérea, de outros paises e EUA, genética de ponta, fertilização in vitro, e automação muito elevada na operação.

  • Pequenas e médias propriedades, principalmente nas províncias de Kanto, Tohoku e Kyusyu onde a média de vacas por fazenda é de 42 animais e o sistema de produção está totalmente voltado para a operação familiar, similar a muitos países europeus, sem mão de obra externa, gerenciamento dos animais individualizado e produtividade por animal inferior.
O preço do leite, em termos gerais, é R$ 1,65/kg de leite. Em recente visita ao país e após conversar com alguns produtores, gostaria de dividir uma conversa que tive com um produtor que, de certa forma, ilustra o pensamento de um segmento, crescente, dos produtores de leite japoneses, diríamos de espírito empreendedor, e com visão clara e definida para os próximos 5 anos:

  • Inicialmente, conforme você verá na foto a seguir, o produtor está ampliando seu negócio, de 197 para 300 vacas em lactação e continuará com os atuais 5 trabalhadores contratados e com o sistema de produção e alojamento das vacas em free stall. O custo de alimentação e mão de obra, juntos, perfazem R$ 0,91 centavos/kg e a relação alimentação + mão de obra devem seguir dentro dos níveis de 50 a 60% do valor recebido pelo preço do litro de leite. O retorno líquido sobre o capital investido deve subir dos atuais 10,37 para 13,5% aa em 2010.
Um outro fato interessante em relação à indústria láctea japonesa se refere aos rótulos das embalagens lácteas, tema que vem assumindo grande importância na historia recente do Japão. Uma ampla publicação dos fatos relacionados a uma contaminação de leite fluido por E.coli no ano 2000, revelaram que uma grande empresa processadora de leite estava comercializando como "leite" um produto que continha leite fluido fresco e leite reconstituído de leite em pó misturados. Como resultado, em julho de 2002, novas regulamentações do governo em relação aos rótulos e classes de produtos foram implementadas, conforme descrição abaixo:

  • Leite, é definido como leite, pasteurizado-esterilizado pelo calor, sem qualquer adição ou subtração de componentes. O ministério da saúde, trabalho e bem estar requer que o leite tenha mais que 3% de gordura e mais que 8% de sólidos não gordurosos.

  • Leite de baixa gordura: leite com teor de gordura entre 0.5-1.5% e mais que 8% de sólidos não gordurosos

  • Leite magro: leite com menos que 0.5% de gordura e mais que 8% de sólidos não gordurosos

  • Leite composto-ajustado: leite com gordura ou sólidos não gorduros que não atenda nenhum dos critérios descritos anteriormente. Por exemplo, teor de gordura entre 1.5% e 3% e/ou teor de sólidos não gordurosos inferior a 8%.

  • Leite processado: mistura de leite cru e derivados lácteos, como manteiga, creme e leite em po desnatado. A mistura deve ter mais que 8% de sólidos não gordurosos

  • Bebidas lácteas: contem ingredientes de origem diferente da do leite, tais como extrato de café, sucos de frutas, vitaminas, minerais como ferro ou cálcio, adicionados separadamente do leite ou produtos lácteos como manteiga, creme e leite em pó desnatado.
Esta mudança nos rótulos e definições acerca dos produtos lácteos reduziram o consumo total de leite em pó integral no Japão e criou uma sobra de leite em pó desnatado que persiste até os dias de hoje. Como resultado, a importação de leite em pó desnatado pelo Japão caiu drasticamente, mas ao contrário, aumentou significativamente a demanda por leite fluido.

Como conseqüência, em função do leite em pó ser mais fácil de ser transportado e comercializado, o aumento na demanda por leite fluido decorrente da alteração na legislação favoreceu o mercado interno e os produtores passaram a temer em menor intensidade a competição por produtos importados.

Enfim, uma nação onde os conceitos de serviço, qualidade, intensificação, verticalização e optimização da cadeia, traduzidos pelo "just in time" , Keiretsu, etc, o controle e trabalho estão muito fortemente enraizados, e praticados, no dia-a-dia. O negócio leite segue, assim como em outros países, uma intensa busca por parte do governo de ser auto-suficiente na produção de alimentos. Resta-nos questionar a sustentabilidade deste modelo frente a uma nova geração, mais aberta e com valores focados em outras direções.

Por fim, gostaria de dividir com vocês alguns pontos que considero importantes de serem ressaltados, ilustrando fatos e tendências sobre o mercado lácteo japonês:

1.A importação de produtos lácteos vem aumentando e, ainda que em valores reais não represente muito, já pode ser encarada como uma oportunidade a ser investigada. Seria este um mercado a ser mais explorado pelo Brasil?

2.Em resposta à concorrência por produtos importados, produtores e indústria japoneses estão focados em aumentar ainda mais a eficiência na produção, levando-se sempre em consideração o respeito ao meio ambiente e o desenvolvimento social. Mas até que ponto esta melhoria na eficiência é capaz de tornar o produtor japonês competitivo o suficiente uma vez que, por exemplo, o custo médio dos concentrados fornecidos às vacas é de 0,45 centavos de dólar por kg?

3.Em Hokkaido observa-se cada vez a utilização de pastagens durante a primavera e verão, buscando-se reduzir a utilização de silagem e concentrados e, por conseqüência, os custos de produção. Como conseqüência, já se observa a queda na produção total de leite em algumas áreas. Como e quais seriam as oportunidades caso o Japão vir a se tornar um grande importador de derivados lácteos?

4.O crescimento da economia, para "apimentar um pouco mais a discussão", vem se concretizando, conforme observado no ultimo resumo do Banco Central Japonês divulgado em 06 de abril último. Como conseqüência, o consumo de lácteos de maior valor agregado também vem aumentando e as importações de derivados lácteos seguem a tendência de alta.

5.O déficit do governo Japonês projetado pelo "Economist Intelligence Unit" é de 165% do PIB para 2006 e 172% do PIB para 2007. Dentro desta situação de elevado déficit, o governo continuará com os atuais níveis de subsídio direto para algo que, como os derivados lácteos, pode ter qualidade, preço e "zero risco" para a população caso venha a ser importado?

6.Em resumo, o Brasil pode se beneficiar caso venha a estreitar as relações do setor lácteo com este país, consumidor ávido de valor agregado e produtos de qualidade. As tendências mostram alterações no setor lácteo que sabidamente traduzem novas oportunidades para países que, assim como o Brasil, possam se beneficiar com o aumento da participação do mercado externo no total de leite produzido.

7.Se o futuro ao Brasil pertence, talvez possamos nos beneficiar de mais ações no mercado lácteo japonês.


Figura 1

Figura 2

Foto: Ichinose farm, desde 1977, em plena ampliação, aspirando 1000 vacas em lactação em 2010. Ao fundo, o monte Fuji, local mais alto do Japão, com 3776 metros de altitude.

Breve Histórico: - Japão

Em 1603, "Tokugawa shogunate" (ditador militar) estabeleceu no Japão um longo período de isolamento de influência externa com o objetivo de manter sua forca militar. Durante 250 anos, esta política permitiu ao Japão desfrutar de sólida estabilidade e de sua cultura indígena. Entretanto, logo após a assinatura do tratado de Kanagawa com os Estados Unidos, em 1854, o país definitivamente abriu suas portas e iniciou um período de intensa modernização e industrialização, tornando-o ao final do século dezenove e início do século vinte uma potência militar capaz de derrotar as forcas da China e Rússia. Neste sentido, ocupou a Coréia, Formosa (Taiwan) e a ilha de Sakhalin e em 1933, ocupou a Manchúria, seguido por um ousado plano, em 1937, para invadir em larga escala a China. A ousadia persistiu até que em 1941, após atacar as forcas americanas e determinar a entrada dos EUA na segunda guerra mundial, foram derrotados fortemente durante os conflitos. Este fato trouxe então, no período pós segunda guerra, enormes aprendizados a toda população, que passou então a cultivar pacificamente o desenvolvimento e comércio entre as nações, tornando-se assim nos uma grande potência econômica.

Mais recentemente, durante três décadas o crescimento foi espetacular: media de 10% nos anos 60, 5% nos anos 70, e 4% nos anos 1980s. Entretanto, na década de 1990, o crescimento foi de apenas 1,7%, resultante do super investimento na indústria nos anos 80 e políticas domésticas contraditórias no sentido de enxugar o excesso de capital especulativo existente nas bolsas e no mercado imobiliário. De 2000 a 2004, os esforços governamentais no sentido de reerguer a economia foram negativamente influenciados pela redução da atividade econômica nos EUA e Europa, principalmente. A partir de 2005, a economia passou a dar sinais de reação a ponto de, em fevereiro deste ano, 2006, o Banco Central Japonês ter decretado o fim da política de empréstimos monetários a juros zero, vigente no país desde os últimos anos, decretando assim o término de um dos mais longos períodos de suporte à economia da história recente e, concomitantemente, fim "do paraíso do dinheiro a custo zero", que teve como um dos fatores a elevada participação do capital japonês nas letras do tesouro americano.

Dados do pais:

A área total do país é de 377.835 quilômetros quadrados (um pouco menor que o estado da Califórnia) e a população é de cerca de 127 milhões de pessoas, que vivem sob uma média de 1500 ocorrências sísmicas por ano (tremores de terra) e taxa de crescimento populacional próxima de zero (0,05% para o ano de 2005). Como pode se observar, são poucos metros quadrados por habitante, o que faz com que os valores imobiliários sejam extremamente elevados (aprox. R$ 17000/metro quadrado em área próxima ao centro de Tokyo) e o endividamento pessoal e do governo também. Juntamente com a crescente idade média da população, que atualmente conta com uma expectativa de vida de 81 anos, o endividamento de 170% do PIB pelo governo são os principais desafios, no longo prazo, que necessitam ser equacionados. Por um outro lado, os 57 milhões de usuários da internet usufruem de uma das melhores infra-estruturas de comunicação do globo: atualmente são 5 intelsat (4 no Oceano Pacífico e 1 no Oceano Índico), 1 Intersputinik (regiao do Oceano Índico) e 1 Inmarsat (regiões do Oceano Pacífico e Ïndico), além de cabos submarinos, banda larga, diretamente conectados com a China, Filipinas, Rússia e Estados Unidos.



Fontes de Informação:

- Cox, Tohmas L., Jonathan R. Coleman, Jena-Paul Chavas, and Young Zhu, 1999 "An Economic Analysis of the Effects of the world dairy sector of extending Uruguay Round Agreement to 2005"
- Food and Agriculture Organization of the United Nations
- World Bank, world development indicator
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Airton Batista de Andrade
AIRTON BATISTA DE ANDRADE

GOIÂNIA - GOIÁS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 14/04/2010

Ótima reportagem. As abordagens são boas para uma reflexão mundial na atividade leiteira e mostrar aos brasileiros as diferenças em termos mercadológicos, tecnológicos e de gestão. Você poderia escrever sôbre o leite na UE, EUA, Austrália e Nova Zelãndia com a mesma riqueza de dados? Agradeceria muitìssimo. Parabéns pela qualidade das informações.
Ederson Marciano Dutra
EDERSON MARCIANO DUTRA

MUTUM - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 06/03/2010

Parabens a MILK e ao Fabiano pela belissima reportagem....
Percys Oscar Batista
PERCYS OSCAR BATISTA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 29/09/2008


Parabens pela reportagem.

Gostaria de receber reportagens sobre indústrias de leite em pó na América do Sul .

Abraços ,
Alexandre Crivellaro de Pinho Tavares
ALEXANDRE CRIVELLARO DE PINHO TAVARES

TEIXEIRAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 31/01/2008

Gostei muito do artigo e indiquei-o aos amigos. Temas importantes, reflexivos, devem ser publicados para sairmos da zona de conforto. A produtividade leiteira no Brasil é muito baixa e só teremos condições de aumentá-la com a conscientização do uso das técnicas produtivas.

Acredito que só com educação teremos condições de expandir a produção de leite no Brasil. Educação se aprende também fora das escolas, ou seja, na divulgação de artigos em sites especializados, em encontros técnicos, em revistas e jornais.
Ricardo Niero de Sousa
RICARDO NIERO DE SOUSA

POUSO ALEGRE - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 16/04/2006

Queria parabenizar o MilkPoint por essa seção. O Fabiano tem muito a contribuir com a atividade. Seu texto preciso e objetivo aliada a posição que ocupa na DeLaval, nos dará uma visão ampla da produção de leite no mundo. É a globalização do conhecimento!



Parabéns a MilkPoint e ao Fabiano: seja bem vindo!
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