A tendência de queda se estabeleceu principalmente após a reforma econômica ocorrida em 1998, que impactou negativamente no desenvolvimento do setor lácteo. Para se ter uma idéia, em 1995 a produção total de leite no país era de 38,7 bilhões de litros.
Entretanto, o ano de 2005 pode ser encarado como um marco na história da produção de leite na Rússia. O governo, preocupado com o desempenho da atividade, lançou um amplo programa de subsídio à exploração láctea com o objetivo de retomar o desenvolvimento do setor.
Os resultados vieram logo em seguida, com crescimento de até 15% da produção de leite em algumas regiões, dentre as quais destaca-se a região de Privolzhskiy. Entretanto, ainda assim o fornecimento de leite não é capaz de atender ao forte crescimento da demanda do mercado consumidor interno, atualmente na casa dos 143 milhões de habitantes.
Interessante dizer que desde o ano de 1999, a economia russa cresce a uma média de 6,4% ao ano, impulsionada pelas exportações de petróleo e gás natural. E este fato deve continuar. Cerca de 40% das riquezas naturais existentes no mundo concentram-se em território russo.
Diante deste cenário, de forte demanda de produtos lácteos pelo mercado consumidor e suporte do governo para se aumentar a produção, produzir leite na Rússia se tornou um "negócio da China" nos últimos dois anos. O preço médio do litro de leite pago aos produtores que entregam volumes superiores a 1000 litros/dia, na região da grande Moscou, foi de R$0,63/litro durante o último mês de janeiro, representando um aumento real de 28% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Em relação à demanda de alimentos e, sobretudo produtos lácteos, o fortalecimento da economia trouxe conseqüências positivas para o setor. A tabela abaixo ilustra o rápido crescimento do mercado consumidor de alimentos, que saltou de 80 bilhões de dólares em 2003 para 123 bilhões em 2006, um crescimento de 52% nos últimos 4 anos.
Tabela 1: Evolução dos gastos do mercado consumidor russo no setor de alimentos

Fonte: Russian Federation report Jan2007 / Euromonitor factfile Feb2007
Este crescimento do mercado consumidor vem determinando uma grande modernização das plantas processadoras de leite no país. Em novembro último, a Campina Lácteos, cooperativa holandesa com forte participação no mercado europeu, anunciou um novo investimento em sua planta de Stupino, próxima a Moscou, que aumentará o investimento total do grupo holandês na Rússia para valores superiores a 100 milhões de dólares.
A sua marca de iogurtes, "Fruttis fruit", é a que mais cresce em toda a Rússia. "Iogurtes e bebidas lácteas vendem como bolos quentes", dizia o group chief executive da Campina, Tiny Sanders, declarando que o grupo já triplicou suas operações no país desde o ano 2000. E, ainda assim, desde fevereiro último todas as plantas do grupo operam com capacidade máxima, 24 horas por dia.
Em relação ao futuro, a Campina acredita que seguirá tendo na Rússia uma de suas principais bases de crescimento. Desde o seu primeiro investimento no país, em 1992, o grupo vem crescendo a taxas muito superiores ao que foi planejado devido, principalmente, ao elevado retorno sobre o capital investido.
De maneira geral, o papel da indústria láctea merece destaque perante os demais setores da indústria de alimentos. Sem sombra de dúvidas, o setor é considerado o que mais traz inovações para o consumidor e, como tal, tem sido determinante sua influência no surgimento de uma cadeia de produtos funcionais e de alto valor agregado, e não meramente focada nos aspectos nutricionais, como fornecedora de alimentos básicos.
Diante de tal cenário, a produção de leite de qualidade em volume significativo é um dos principais desafios da atualidade russa. A grande maioria das empresas modernizou os sistemas de coleta do leite, com caminhões de transporte apresentando analisadores de leite acoplados ao sistema de sucção do leite, conforme figura apresentada a seguir. Este sistema possibilita não somente a medição do volume do leite na propriedade, mas também analisa a presença de antibióticos, teor de células somáticas e presença de inibidores, dentre outros. O ganho de eficiência, a transparência nas informações e a segurança alimentar são maximizados, além de possibilitar uma maior satisfação dos produtores e enriquecimento da relação produtor - indústria.

Foto ilustrando sistema de análise do leite, no caminhão de coleta.
Um dos maiores obstáculos do momento é a inexistência de mão de obra treinada em número suficiente para atender as demandas das propriedades leiteiras. Inicia-se pela carência de técnicos e consultores qualificados, passando-se por gerentes de propriedades leiteiras e, finalmente, trabalhadores na operação.
Neste sentido, uma das formas encontradas para suprir tal demanda é a utilização de consultores internacionais, sobretudos americanos, que estão se deslocando cada vez para o território russo para dar assessoria às propriedades leiteiras. A remuneração é atraente (cerca de 1100 USD/dia, considerando-se a data de partida do país de origem e ainda todas as despesas de deslocamento e hospedagem pagas).
Em uma de minhas ultimas visitas, estive visitando um novo investimento realizado na região próxima a Moscou e toda a equipe gerencial, chefes setoriais e consultores eram americanos. Em outra ocasião, os consultores eram dinamarqueses e do Reino Unido. De forma geral, esta transferência de tecnologia acontece de forma rápida, ainda que a absorção da mesma por pessoas locais esteja acontecendo mais lentamente.

Foto ilustrando ordenhadoras sendo treinadas por consultores americanos.
A maioria das novas propriedades estabelecidas no momento é do tipo free-stall, dieta total única, 3 ordenhas/dia, utilizando transferência de embriões, volumoso à base de silagem de milho (com produtividade ainda muito baixa: 30-40 ton de matéria verde/hectare), concentrados com elevada participação de aveia e cevada (a Rússia é o maior produtor mundial destes 2 ingredientes), leite em pó para os bezerros em sistema automático de fornecimento, sem casinhas individuais, novilhas criadas para parição aos 26-28 meses de media, sêmen europeu (Holanda), e norte americano (Estados Unidos e Canadá), período seco variando de 50-70 dias e forte sistema de controle sanitário, com programa de vacinação seguindo, praticamente, o calendário americano.

Foto ilustrando sistema de produção que mais cresce na atualidade Russa.
Investindo na produção de leite na Rússia:
Afinal, vale a pena tirar leite na Rússia? Os dados a seguir são reais e representam um investimento em uma fazenda com 2500 vacas em lactação. Os números estão descritos em linhas que agregam as despesas operacionais e, ao final, demonstram o retorno sobre o investimento. Neste caso, 5 anos para se obter o retorno sobre o capital investido, em condições de juros de 8% ao ano, de acordo com os cálculos do investidor, um russo cujo negócio principal é a exploração de minas de carvão mineral na Sibéria.
a) Investimento anual:

b) Custos Operacionais - 2500 vacas (valores anuais):


Enfim, Falta leite de qualidade na Rússia. As oportunidades relacionadas a este fato são imensas e merecem ser estudas em detalhes. Sem sombra dúvidas, a Vodka não é um dos únicos itens que chama a atenção quando o assunto é Rússia. Vale a pena conferir.

Foto: Anaipa farm
Fontes de Informação:
Dairy Production in Rússia, 2005
Euroeconomic fact file, Fev. 2007
Food and Agriculture Organization of the United Nations
Russian Dairy Business - Consumers - Oct 2006
USDA - countries ranking - per commodity