A produção leiteira é algo que merece destaque. A partir de meados da década de 1990, intensificou-se a redução nos valores destinados aos fundos econômicos garantidores (EAGGF) do setor agrícola, também conhecidos como subsídios. Em decorrência deste fato, a velocidade das transformações observadas em todo setor lácteo aumentou consideravelmente, caracterizando uma intensa consolidação da cadeia leiteira.
Diante deste cenário, a Dinamarca vem liderando o que vem sendo descrito na Europa como o maior fenômeno do setor agrícola na era pós-revolução industrial. A consolidação da cadeia vem ocorrendo em velocidade superior ao anteriormente descrito por todos os especialistas. Os produtores, atentos a estas alterações, estão adquirindo propriedades vizinhas dia após dia, focados nos benefícios da economia de escala da atividade e em busca de maior competitividade.
Economia de escala, palavras que agora fazem parte do sono do produtor europeu. Os que já estão observando os benefícios da intensificação da produção, já apresentam custo de produção do litro de leite ao redor de 0,16 centavos de Euro, fato considerado praticamente impossível há 5 anos.
O presente artigo abordará, de forma direta e sucinta, as principais tendências observadas no setor leiteiro da Dinamarca, conforme tópicos descritos a seguir.
- Consumo de lácteos
- Indústria Láctea
- Produtores de Leite e Qualidade da matéria prima
O consumo de produtos lácteos cresce no segmento de produtos com maior valor agregado, reduzido teor de gordura e, sobretudo, itens que tenham novidades como fator diferenciador. Inovar, neste campo, é a bola da vez.
A tabela abaixo mostra um crescimento de 8,8% no consumo de produtos lácteos nos últimos 10 anos, com taxa de crescimento maior dos produtos que não o leite fluido. Sobre este último, o consumo cresceu apenas 3,3%, e o leite integral teve participação reduzida em 44%, enquanto o leite desnatado subiu 293%, evidenciando uma alteração e tendência em se consumir leite desnatado ao invés de leite integral. Associada a este comportamento está a queda no consumo de manteiga, que sofreu em igual período uma redução de consumo de 42%.
Em contrapartida, os produtos fermentados e o leite achocolatado tiveram um crescimento superior a 40% em igual período, mostrando claramente o fator inovação como um dos grandes diferenciais da indústria nesta fase.

Em relação ao consumo per capita, o leite fluido desnatado, leite semi desnatado e os produtos fermentados lideram o ranking das preferências do consumidor, com destaque para o forte crescimento do leite desnatado, seguido de perto pelos produtos fermentados e leite achocolatado, conforme detalhes descrito a seguir.

2.Indústria Láctea
A indústria Láctea dinamarquesa emprega nos dias de hoje um pouco mais de 9400 pessoas e se apresenta com uma das mais modernas da atualidade devido ao seu elevadíssimo nível de automação. Associando-se a isso, tem foco, desde os primórdios de sua existência, no mercado externo, fazendo parte do sistema de quotas da comunidade econômica européia.
No ano de 2004, do total de 55,9 bilhões de coroas dinamarquesas exportados pelo setor agrícola dinamarquês (1 Euro = 7,5 coroas DKK), a participação dos produtos lácteos foi de 23%, setor de forte representatividade nas exportações agrícolas do pais.
Em relação ao total de leite produzido, o sistema de quotas limita a produção total em 4,455 bilhões de litros de leite por ano e, deste total, é interessante ressaltar que apenas 17% são consumidos internamente, sendo o restante destinado à exportação pela comunidade econômica européia.
O sistema é regulado através de todas as empresas processadoras que, através das quotas pertencentes aos produtores, monitoram o total produzido. Em 2004, houve um excesso de 0,004% em relação à quota total, evidenciando claramente a eficiência do sistema. Os teores médios de gordura e proteína do leite no país foram, respectivamente, 4,31 e 3,43%.
Um dos focos de atuação da indústria concentra-se na área de desenvolvimento de novos produtos, antecipando tendências demonstradas pelos consumidores. As marcas estão cada vez mais voltadas para a demonstração do bem estar social e a importância da saúde, fatos atrelados à comercialização de produtos de maior valor agregado.
Em relação ao numero total de empresas processadoras de lácteos, este vem reduzindo fortemente desde a década de 30, com destaque para a forte consolidação ocorrida entre as décadas de 1960 e 1970, conforme números descritos na tabela a seguir.
Clique aqui para ver a tabela.
Um episódio recente chamou a atenção da mídia internacional. Um jornal dinamarquês publicou cartoons do profeta Muhamed considerados, por grande parte da população muçulmana, uma blasfêmia. Em conseqüência, grande parte da população do Oriente Médio boicotou os produtos da cooperativa Arla Foods, com sede na Dinamarca, resultando em perdas diárias de 1,5 milhão de dólares, uma vez que os principais supermercados removeram os produtos da prateleiras.
O resultado imediato foi o fechamento de uma fábrica na Arábia Saudita, país responsável por 2/3 do total de 515 milhões de dólares vendidos em 2005 pela Arla no Oriente Médio. Seguindo-se a isto, a cooperativa passou um longo período industrializando o leite recebido e o vendendo em outros países com grandes perdas. Todos os outros mercados nos quais a Arla Foods atua foram afetados, principalmente a Dinamarca.
Atualmente, os produtos já voltaram às prateleiras após passarem a ser novamente recomendados pela comunidade muçulmana, durante a assembléia mundial realizada recentemente (WAMY). Se estão sendo comprados ou não, é uma questão que veremos posteriormente. Um fato é certo: o preço médio pago aos produtores dinamarqueses cairá 2 centavos neste ano de 2006 somente em decorrência deste fato.
3.Produtores de Leite e qualidade da matéria prima:
Na grande maioria das vezes, quando o assunto se refere à produção de Leite na Europa, o tema subsídios é abordado. O valor total destinado ao setor de lácteos vem reduzindo drasticamente, conforme dados oficiais da comunidade européia, seguidos de uma redução nos preços do litro de leite pagos ao produtor, conforme demonstrado abaixo:
Clique aqui para ver a tabela.
Em resposta às sinalizações do mercado sobre o término dos subsídios, vários produtores vêm saindo da atividade. Para se ter uma idéia do que acontece atualmente, em 1997, eram 12253 produtores na Dinamarca e, ao final de 2005, 5938 produtores, uma queda de 53% em apenas 8 anos.
A maior parcela dos produtores apresenta idade média entre 40 e 49 anos, chamando a atenção para o crescente número de produtores em idade inferior aos 40 anos, parcela que já atinge 30% do total dos produtores e que vem crescendo continuamente.
Este novo produtor apresenta perfil bastante diferenciado do que podemos dizer do "tradicional produtor europeu" e caracteriza-se por ter um estilo bastante agressivo e inovador, apresentando refinado grau de gerenciamento, visão de longo prazo e entendimento superior em relação a "fazer parte da indústria de alimentos".
Sobre inovação, um fato interessante para pensar. O número de produtores no segmento "leite orgânico' vem reduzindo desde o seu apogeu, no ano de 1999, fato também observado na produção total de leite orgânico, em queda crescente desde o ano de 2001.
Em relação à produtividade média por vaca, a média na Dinamarca no ano de 2005 foi de 8663kg/vaca/ano, crescendo a uma taxa de 3,5% ao ano nos últimos 5 anos. Fiquei impressionado com as últimas 6 propriedades visitadas recentemente. Todas com médias de produção superior a 13000kg/vaca/ano, índice de descarte ao redor de 41%, intenso programa de melhoramento genético, informações e consultoria oferecidos pela "Danish Cattle Federation", entidade que presta serviço aos produtores dinamarqueses e exploração animal.
Em relação à qualidade da matéria prima, os dois fatores primordiais apresentam dados interessantes. A contagem bacteriana total tem a grande maioria dos produtores classificada no grupo que fornece leite com menos de 30.000 ufc/ml, enquanto que em relação à células somáticas, a distribuição é diferente e mais uniforme entre o que se caracteriza limite I e limite II, conforme a análise da tabela abaixo.

Em última análise, as transformações são rápidas e estão acontecendo cada vez mais com maior intensidade. Neste cenário, crescer não é mais um fator diferenciador e de destaque, mas sim, questão de sustentabilidade em longo prazo. Nesta última hora, enquanto escrevia este artigo, 2 propriedades leiteiras foram fechadas na Dinamarca e uma outra cresceu 23% o número de animais. Vale a pena conferir.


Foto: Hanninggaard, propriedade de Bente Tanw e Jens Tylvad, 130 vacas, sala de ordenha 2x8, dieta total, media de 13589 kg/vaca/ano, situado em Hanning, Hanninggaardsvej 1, 10 km ao norte de Skjern.
Fontes de Informação:
- EU dairy and Agricultural policies and EGGF
- Danish Dairy Cattle Federation
- Food and Agriculture Organization of the United Nations
World Bank, world development indicator