Efeito Ozempic impulsiona corrida por proteínas e abre espaço para os lácteos

A ascensão dos medicamentos à base de GLP-1 acelerou uma tendência que já vinha ganhando força: a busca por proteínas de qualidade - e o leite está na linha de frente.

Publicado por: MilkPoint

Publicado em: - 5 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 1

Sem tempo? Leia o resumo gerado pela MilkIA
A carne e o leite passaram a ser o foco na alimentação brasileira, com o aumento do consumo de proteínas impulsionado por medicamentos análogos de GLP-1, que reduzem o apetite. Essa mudança na dieta levou a indústria alimentícia a lançar produtos ricos em proteínas, como refeições congeladas e lácteos enriquecidos. O mercado de GLP-1 no Brasil deve crescer, e a demanda por alimentos saudáveis e práticos tem aumentado. Lácteos, ricos em proteínas, estão se destacando nessa tendência, com empresas se preparando para atender a novos hábitos alimentares.

No prato do brasileiro, a carne deixou de ser coadjuvante e passou a ser o ponto de partida. A “mistura” que antes acompanhava o arroz e o feijão agora dita o cardápio — e a estratégia da indústria de alimentos. Essa mudança impulsionou uma nova lógica de consumo de proteínas. De iogurtes com promessa de recuperação muscular a marmitas congeladas com 30 gramas de proteína, a comida passou a girar em torno de um nutriente.

Parte desse efeito vem da popularização dos medicamentos análogos de GLP-1, como a semaglutida (Ozempic e Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro). Esses fármacos, que imitam um hormônio natural do intestino, reduzem o apetite ao retardar o esvaziamento do estômago e prolongar a sensação de saciedade. Assim, os pacientes comem menos — e de forma diferente.

Sem acompanhamento adequado, porém, a perda rápida de peso pode vir acompanhada da perda de massa muscular. Por isso, médicos e nutricionistas recomendam reforçar o consumo de proteínas, essenciais para preservar a massa magra durante o processo de emagrecimento.

Mas não é só quem usa medicamentos antiobesidade que busca mais proteína. A tendência de reduzir carboidratos vem se consolidando há décadas e agora se intensifica. Wesley Batista, um dos controladores da JBS, afirmou que os Estados Unidos já não produzem carne suficiente para atender à demanda crescente, impulsionada por consumidores que aumentaram a ingestão de proteínas. “Ninguém sabe exatamente qual é o impacto desses novos medicamentos, Ozempic ou Mounjaro… mas algo está acontecendo, porque a proteína virou uma tendência”, disse em entrevista ao Financial Times.

A tendência que chegou ao Brasil

O apetite global por proteína vem moldando hábitos de consumo e estratégias empresariais em toda a cadeia alimentar e o Brasil segue a mesma direção. O uso de medicamentos à base de GLP-1 ainda é incipiente no país, mas o potencial é bilionário: o mercado já movimenta cerca de R$ 5 bilhões por ano e deve crescer com o fim da patente da semaglutida, previsto para o primeiro trimestre do próximo ano.

Estima-se que até 6% da população brasileira possa usar algum análogo de GLP-1 nos próximos anos, percentual que tende a aumentar caso os medicamentos sejam incorporados ao SUS, segundo o Global Burden of Disease 2024 e a Associação Médica Brasileira.

Continua depois da publicidade

Nesse cenário, a indústria alimentícia se prepara. O Brasil, um dos três maiores consumidores de carne bovina do mundo e entre os dez principais de carne de frango, agora vê crescer também a busca por alimentos proteicos prontos e saudáveis, entre eles, os lácteos.

Indústria de olho

A Seara, da JBS, lançou em agosto a linha Protein, uma coleção de refeições congeladas com até 30 gramas de proteína, voltada ao público que busca alimentação funcional, incluindo usuários de GLP-1. Antes de chegar aos supermercados, o produto foi testado com 200 consumidores. 

“O brasileiro aprendeu a olhar o rótulo. Hoje, a proteína é atributo de destaque — e a categoria vai além do público fitness”, afirma Rafael Palmer, diretor de marketing da Seara. A linha foi lançada em São Paulo e deve chegar a todo o país em 2026. “O consumidor que come menos está mais seletivo. Ele quer o alimento certo e que tenha funcionalidade”, diz Palmer. Segundo ele, o projeto começou a ser desenvolvido há mais de um ano, quando a companhia passou a mapear a transição do consumo de volume para o consumo de valor.

Outra gigante que lançou sua linha proteica foi a MBRF, dona da Sadia e da Perdigão.  “O consumidor quer refeições menores, mas mais equilibradas e com alto valor proteico”, reforça Luiz Franco, diretor executivo de marketing e inovação da companhia. Um levantamento feito pela MBRF aponta que 19,7% dos brasileiros priorizam uma dieta saudável, 19,6% valorizam a economia de tempo e 11,9% buscam soluções prontas. 

Na Danone, o movimento é semelhante. A empresa enxerga a ascensão dos medicamentos à base de GLP-1 como parte de um fenômeno mais amplo de gestão de peso e saúde. “Essas pessoas vão, em algum momento, buscar mudar seus hábitos, e nós queremos estar prontos para acompanhá-las”, afirma Marcelo Bronze, vice-presidente de marketing da Danone no Brasil.

Segundo ele, a empresa redesenha seu portfólio para atender o brasileiro que quer comer melhor, esteja ou não em tratamento com medicamentos antiobesidade. A estratégia aposta em produtos multifuncionais que combinam proteína, fibras, probióticos e baixo teor de açúcar.

O movimento global

Nos Estados Unidos, onde 12% dos adultos já usaram algum medicamento à base de GLP-1, os efeitos sobre o consumo são nítidos. Segundo a PwC, os lares com usuários dessas canetas reduziram os gastos com alimentos entre 6% e 11%, mas aumentaram a compra de produtos com proteína, fibras e baixo teor de açúcar.

A Nestlé lançou a linha Vital Pursuit, no EUA, voltada especificamente para esse público, com refeições congeladas pequenas, ricas em proteínas e fibras. Já a marca de iogurtes gregos Oikos, da Danone, registrou alta de cerca de 40% nas vendas no último ano, impulsionada por consumidores que buscam produtos com alto teor proteico e baixa caloria.

Efeitos no corpo e na alimentação

Os medicamentos à base de GLP-1 reprogramam o apetite: o estômago esvazia mais devagar e o cérebro entende que já comeu o suficiente. “É como se o corpo esquecesse de pedir comida com a mesma frequência”, explica o cardiologista Pedro Farsky. Segundo ele, os análogos de GLP-1 podem reduzir o apetite em até 47%, levando à perda média de 17% do peso corporal nas primeiras 20 semanas.

Para evitar perda de massa muscular, a nutricionista Lara Natacci recomenda o consumo de 1,2 a 1,6 grama de proteína por quilo de peso corporal, distribuídas ao longo do dia. “Sem essa reposição, a pessoa pode emagrecer rápido, mas perde força, disposição e imunidade. A prioridade deve ser preservar massa magra”, diz.

A nutricionista Bianca Naves, autora do livro A Dieta das Canetas, destaca que a mudança é também comportamental. “Esses medicamentos diminuem o prazer imediato da comida. A pessoa come porque sabe que precisa, não porque quer”, afirma. Segundo ela, muitos pacientes acabam substituindo refeições completas por frutas ou snacks leves, o que pode levar a carências nutricionais se não houver orientação.

Nesse novo cenário alimentar, o leite e seus derivados, ricos em proteína de alto valor biológico, voltam a ocupar um papel central. Seja na forma de iogurtes, bebidas proteicas ou queijos com apelo funcional, os lácteos se consolidam como aliados de quem busca saciedade, praticidade e nutrição.

Para a indústria de lácteos brasileira, este movimento representa a chance de migrar valor agregado através de inovação focada em proteína, seja em novos produtos, reformulações ou estratégias de comunicação que evidenciem atributos proteicos já existentes. 

O Dairy Vision 2025 se posiciona como o fórum essencial para navegar essa transformação. O evento reunirá dados concretos, cases práticos e expertise setorial para responder às questões críticas que definem o futuro dos lácteos. Palestras como  "A onda GLP-1: que consequências podem ter no mercado de lácteos?" além da Mesa Redonda "Oportunidades e desafios no mercado de lácteos com alta proteína" prometem abordar diretamente os desafios mapeados nesta análise. A programação oferecerá às lideranças do setor caminhos tangíveis para capturar as oportunidades da revolução proteica. (Clique, confira a programação do evento e faça sua inscrição.)


As informações são do InvestNews adaptadas pela equipe MilkPoint.

 

QUER ACESSAR O CONTEÚDO? É GRATUITO!

Para continuar lendo o conteúdo entre com sua conta ou cadastre-se no MilkPoint.

Tenha acesso a conteúdos exclusivos gratuitamente!

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 1

Publicado por:

Foto MilkPoint

MilkPoint

O MilkPoint é maior portal sobre mercado lácteo do Brasil. Especialista em informações do agronegócio, cadeia leiteira, indústria de laticínios e outros.

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Qual a sua dúvida hoje?