A Índia contava com 192,5 milhões de cabeças de gado bovino em 2019; e também dispunha de 148,9 milhões de cabras, 109,9 milhões de búfalos, 74,3 milhões de ovelhas e 9,1 milhões de porcos.
Da mesma forma, tinha uma produção de leite de 230,58 milhões de toneladas, o que implicava em um produto diário per capita de 459 gramas; e tudo isso acompanhado por uma produção de 138,38 bilhões de ovos.
Dois elementos estratégicos definem a Índia no momento atual:
- É o país mais populoso do planeta, com mais de 1,5 bilhão de habitantes;
- E metade dessa população (700 milhões de pessoas) constitui a força de trabalho da produção agroalimentar, o que implica que sua produtividade é nula ou negativa, sendo incapaz de competir internacionalmente.
A produção de leite da Índia fornece emprego suplementar e uma fonte adicional de renda para os pequenos e até mesmo marginais produtores.
Nesse contexto, foi criada no estado de Gujarat, em 1965, uma Agência Nacional de Desenvolvimento Lácteo para promover, planejar e organizar o desenvolvimento da atividade por meio de grandes cooperativas, e o resultado foi a criação de mais de 63.000 cooperativas lácteas com 7,5 milhões de integrantes, o que ocorreu no início da década de 1990.
O leite produzido por essas cooperativas teve um valor de US$ 3,8 milhões diários, ou US$ 118,3 bilhões anuais. Por isso, a Índia terminou há mais de 20 anos com as importações de leite e derivados e fechou estritamente seu mercado interno a qualquer tipo de concorrência estrangeira.
A Índia tem hoje o maior rebanho leiteiro do mundo, com vacas e búfalos que somam 304 milhões de cabeças, e uma produção total de 112,5 milhões de toneladas de leite no período 2009/2010.
O programa que impulsionou essa autêntica revolução láctea foi a chamada “Onda Branca”, lançada pelo governo de Nova Délhi em janeiro de 1970; e em 20 anos transformou a Índia, de um país deficitário em leite, no maior produtor lácteo do mundo, acima dos Estados Unidos, e com mais de 24% da produção global.
Nesse ritmo, em 30 anos duplicaria o leite consumido por seus 1,5 bilhão de habitantes, o que transformaria o setor lácteo no maior empregador do mundo rural composto por 700 milhões de agricultores.
A Índia é o 5º produtor mundial de carne bovina, com 195 milhões de cabeças de gado, mas os hindus, que representam três quartos da população, não consomem carne de vaca porque a consideram um animal sagrado, um símbolo de vida e fertilidade, intensamente venerado. Por isso, as carnes mais consumidas são as aves.
É a esse sistema que Donald Trump impôs uma tarifa especial de 50% devido à impossibilidade de exportar produtos agroalimentares norte-americanos em qualquer escala. Em suma, afirmou o líder norte-americano, a produção agroalimentar do subcontinente está excluída da concorrência internacional pela política mais protecionista do mundo.
A contrapartida dessa política hiperprotetora é uma produtividade nula ou negativa; e é esse mercado, nessas condições, que excluiu as exportações agroalimentares do Meio-Oeste norte-americano, que são as mais produtivas do sistema global.
Isso criou uma diferença fundamental entre Donald Trump e o governo de Narendra Modi, que se traduz no fato de que o mandatário norte-americano exige que Modi abra o setor agroalimentar da Índia mediante um sistema de incentivos à produção e à inovação, que reduza drasticamente seus custos; e dessa maneira deixe de lado os controles burocráticos e estatistas estabelecidos pela Índia desde sua independência do Reino Unido em 1947.
O fundamental a destacar é que, mesmo nessas condições, a Índia seria a terceira economia do mundo nos próximos dois anos; e que, se conseguir transformar seu setor agroalimentar, pode ser um dos países mais produtivos do sistema global, com exceção, claro, dos Estados Unidos e da China.
A Índia, em definitivo, não tem outra alternativa senão mudar, sob pena de total irrelevância nos próximos 10 a 15 anos. Essa é a regra rigorosa e absolutamente primordial do capitalismo do século XXI.
As informações são do Clarín, traduzidas e adaptadas pela equipe MilkPoint.