Como uma fazenda de 20 mil vacas nos EUA transforma passivo ambiental em lucro

Conheça o modelo de negócios da Fair Oaks Farms que transforma dejetos em biofertilizantes, energia e água de reúso.

Publicado por: MilkPoint

Publicado em: - 5 minutos de leitura

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A pecuária leiteira nos EUA cresceu em eficiência nas últimas três décadas, com a produção anual de leite saltando de 68 bilhões para 102 bilhões de litros, apesar da estabilidade no número de vacas. Fazendas maiores e mais profissionais, como a Fair Oaks Farms, inovam ao transformar esterco em energia, fertilizantes e água. Este modelo, que melhora a sustentabilidade e reduz custos, é viável para grandes propriedades. A tecnologia é financiada por empresas especializadas, permitindo que os produtores não precisem investir capital próprio.
A pecuária leiteira dos Estados Unidos vem ganhando escala há três décadas. Entre 1995 e 2025, o rebanho praticamente não mudou e continua em torno de 9,5 milhões de vacas, mas cada animal produz quase 50% mais leite: a média nacional passou de aproximadamente 20 para mais de 29 litros por dia. Assim, os Estados Unidos produzem hoje cerca de 102 bilhões de litros por ano, contra 68 bilhões há 30 anos, com um número cada vez menor de fazendas leiteiras.

As propriedades que permaneceram em atividade são maiores e mais profissionalizadas. Existem grupos que ordenham dezenas de milhares de vacas, e muitos já não se limitam a vender leite fluido para a indústria: associam-se a outros produtores para integrar verticalmente suas operações e chegar ao consumidor com produtos de maior valor agregado.

Como uma fazenda de 20 Mil vacas nos EUA transforma passivo ambiental em lucro

A organização interna também mudou. Empresas que antes tinham quatro ou cinco unidades leiteiras completas, cada uma com sua estrutura de criação de bezerras, vacas secas, pré-parto e vacas recém-paridas, hoje centralizam essas áreas para concentrar especialistas e melhorar os indicadores de desempenho.

A Fair Oaks Farms foi uma das primeiras a entrar nessa corrida e continua sendo uma das mais inovadoras. Nessa fazenda leiteira com 20 mil vacas holandesas, localizada aproximadamente a meio caminho entre Chicago e Indianápolis, o esterco não termina em uma lagoa de armazenamento: ele é transformado em energia, fertilizantes e água. Sim, água.

O efluente de uma fazenda com vacas confinadas apresenta cerca de 4% de matéria seca. Ou seja, o que se transporta é, essencialmente, água. Esse material se acumula durante meses em lagoas, onde parte do nitrogênio se perde na forma de amônia. Depois, é distribuído por caminhões-tanque pesados que circulam pelas áreas agrícolas, muitas vezes com o solo úmido.

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Devido às regulamentações ambientais do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), e para evitar perdas ainda maiores de nitrogênio durante a aplicação, é necessário injetar o efluente no solo ou incorporá-lo por meio do preparo da terra. Segundo pesquisadores do USDA, esse é o motivo pelo qual o plantio direto não avançou em muitas fazendas leiteiras americanas.

Do esterco à água

Na Fair Oaks, as vacas ficam alojadas em galpões do tipo free stall, com camas feitas de esterco seco, e são ordenhadas três vezes ao dia. O esterco é transportado por tubulações com bombeamento, sendo que a mais longa tem quase cinco quilômetros, até um biodigestor, onde é utilizado para gerar biogás.

Como uma fazenda de 20 Mil vacas nos EUA transforma passivo ambiental em lucro

Inicialmente, o biogás era utilizado para produzir eletricidade, que era vendida à rede elétrica local, até que o contrato foi encerrado. Depois disso, seu dono, Mike McCloskey, adaptou o sistema para produzir gás natural comprimido (GNC), utilizado como combustível para caminhões. Hoje, ele pode escolher entre gerar eletricidade, gás renovável ou combustível, dependendo de qual alternativa oferece a maior margem de lucro.

Do efluente que sai do biodigestor, primeiro é separada a fibra longa, que é seca e retorna aos galpões como material de cama para as vacas. O restante passa pela Varcor, uma unidade desenvolvida pela empresa Sedron Technologies na Fair Oaks. O sistema funciona por meio de recompressão mecânica de vapor, utilizando o mesmo princípio empregado nas fábricas de leite em pó: evapora o líquido e separa seus componentes.

Ao final do processo na Varcor, são obtidos três produtos: um fertilizante orgânico sólido, sem odor e sem sementes de plantas daninhas; nitrato de amônio líquido a 10%; e água, que retorna para a irrigação ou para os bebedouros dos animais.

O que muda na lavoura

Com essa tecnologia, os nutrientes podem ser aplicados na lavoura quando a cultura precisa deles, e não quando chega a hora de esvaziar a lagoa de armazenamento. O nitrato de amônio é utilizado como qualquer fertilizante líquido, equivalente ao UAN, por exemplo. Pode ser aplicado com a semeadora ou distribuído em superfície, sem necessidade de incorporação ao solo. Além disso, como os caminhões-tanque deixam de circular pelas áreas agrícolas, elimina-se uma das principais causas de compactação do solo. É justamente nesse ponto que surge uma oportunidade para o plantio direto.

Todo o sistema agrícola da propriedade gira em torno da produção de milho para silagem, que representa 55% dos custos da atividade leiteira. Com essa mudança, seria possível cultivar o milho em sistema de plantio direto sem maiores dificuldades.

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Os benefícios vão além da agricultura. Sem as lagoas de armazenamento, diminuem os odores, as emissões de metano e amônia e o risco de infiltrações no solo, um aspecto fundamental para a aceitação de grandes fazendas leiteiras pelas comunidades próximas. Além disso, os fertilizantes de origem orgânica podem ser comercializados em todo o país, com preços diferenciados, para culturas intensivas de alto valor.

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Quem paga a conta?

A tecnologia é cara e, por isso, o modelo de negócios é fundamental. A fazenda leiteira não compra a unidade de tratamento. A Sedron financia, constrói e opera a instalação, recebendo por duas fontes: uma tarifa pelo tratamento do esterco e a receita obtida com a venda dos biofertilizantes. Dessa forma, o produtor deixa de se preocupar com o manejo dos dejetos líquidos sem precisar imobilizar capital na estrutura.

Atualmente, nos Estados Unidos, a escala mínima para viabilizar o sistema gira em torno de 4 mil vacas. Por enquanto, portanto, trata-se de uma solução para propriedades leiteiras de grande porte. Na Argentina, a situação é inversa: o plantio direto já é a prática predominante na agricultura, enquanto o manejo dos dejetos líquidos ainda está atrasado. Embora tenham ocorrido avanços importantes, o país ainda está longe de uma utilização agronômica generalizada dos efluentes.

As fazendas leiteiras argentinas estão distantes da escala da Fair Oaks, mas a lógica pode ser aplicada: separar os sólidos antes de transportar o efluente e realizar a aplicação conforme as necessidades da cultura. A pecuária leiteira americana busca diariamente aumentar sua eficiência, e a Fair Oaks Farms mostra como essa corrida acontece: transformando problemas em novas fontes de receita. O esterco, que na maioria das fazendas leiteiras representa um custo e um passivo ambiental, ali gera energia, material de cama para as vacas, fertilizantes e água.

Por trás desse modelo está McCloskey, um empreendedor em série. Ele fundou a cooperativa Select Milk Producers, impulsionou a Fairlife — marca de leite ultrafiltrado que acabou sendo adquirida pela Coca-Cola —, abriu a fazenda ao turismo, chegando a receber um milhão de visitantes por ano, e atualmente planeja um sistema integrado de produção de carne em Porto Rico.

Sua regra para qualquer inovação é simples: ela precisa reduzir custos, melhorar a eficiência ou diminuir o capital necessário. Para ele, a sustentabilidade só é possível quando gera maior rentabilidade para a empresa. E a Fair Oaks Farms conseguiu alcançar esse objetivo.

As informações são do La Nación, traduzidas pela equipe MilkPoint.

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