As propriedades que permaneceram em atividade são maiores e mais profissionalizadas. Existem grupos que ordenham dezenas de milhares de vacas, e muitos já não se limitam a vender leite fluido para a indústria: associam-se a outros produtores para integrar verticalmente suas operações e chegar ao consumidor com produtos de maior valor agregado.
A organização interna também mudou. Empresas que antes tinham quatro ou cinco unidades leiteiras completas, cada uma com sua estrutura de criação de bezerras, vacas secas, pré-parto e vacas recém-paridas, hoje centralizam essas áreas para concentrar especialistas e melhorar os indicadores de desempenho.
A Fair Oaks Farms foi uma das primeiras a entrar nessa corrida e continua sendo uma das mais inovadoras. Nessa fazenda leiteira com 20 mil vacas holandesas, localizada aproximadamente a meio caminho entre Chicago e Indianápolis, o esterco não termina em uma lagoa de armazenamento: ele é transformado em energia, fertilizantes e água. Sim, água.
O efluente de uma fazenda com vacas confinadas apresenta cerca de 4% de matéria seca. Ou seja, o que se transporta é, essencialmente, água. Esse material se acumula durante meses em lagoas, onde parte do nitrogênio se perde na forma de amônia. Depois, é distribuído por caminhões-tanque pesados que circulam pelas áreas agrícolas, muitas vezes com o solo úmido.
Devido às regulamentações ambientais do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), e para evitar perdas ainda maiores de nitrogênio durante a aplicação, é necessário injetar o efluente no solo ou incorporá-lo por meio do preparo da terra. Segundo pesquisadores do USDA, esse é o motivo pelo qual o plantio direto não avançou em muitas fazendas leiteiras americanas.
Do esterco à água
Na Fair Oaks, as vacas ficam alojadas em galpões do tipo free stall, com camas feitas de esterco seco, e são ordenhadas três vezes ao dia. O esterco é transportado por tubulações com bombeamento, sendo que a mais longa tem quase cinco quilômetros, até um biodigestor, onde é utilizado para gerar biogás.
Inicialmente, o biogás era utilizado para produzir eletricidade, que era vendida à rede elétrica local, até que o contrato foi encerrado. Depois disso, seu dono, Mike McCloskey, adaptou o sistema para produzir gás natural comprimido (GNC), utilizado como combustível para caminhões. Hoje, ele pode escolher entre gerar eletricidade, gás renovável ou combustível, dependendo de qual alternativa oferece a maior margem de lucro.
Do efluente que sai do biodigestor, primeiro é separada a fibra longa, que é seca e retorna aos galpões como material de cama para as vacas. O restante passa pela Varcor, uma unidade desenvolvida pela empresa Sedron Technologies na Fair Oaks. O sistema funciona por meio de recompressão mecânica de vapor, utilizando o mesmo princípio empregado nas fábricas de leite em pó: evapora o líquido e separa seus componentes.
Ao final do processo na Varcor, são obtidos três produtos: um fertilizante orgânico sólido, sem odor e sem sementes de plantas daninhas; nitrato de amônio líquido a 10%; e água, que retorna para a irrigação ou para os bebedouros dos animais.
O que muda na lavoura
Com essa tecnologia, os nutrientes podem ser aplicados na lavoura quando a cultura precisa deles, e não quando chega a hora de esvaziar a lagoa de armazenamento. O nitrato de amônio é utilizado como qualquer fertilizante líquido, equivalente ao UAN, por exemplo. Pode ser aplicado com a semeadora ou distribuído em superfície, sem necessidade de incorporação ao solo. Além disso, como os caminhões-tanque deixam de circular pelas áreas agrícolas, elimina-se uma das principais causas de compactação do solo. É justamente nesse ponto que surge uma oportunidade para o plantio direto.
Todo o sistema agrícola da propriedade gira em torno da produção de milho para silagem, que representa 55% dos custos da atividade leiteira. Com essa mudança, seria possível cultivar o milho em sistema de plantio direto sem maiores dificuldades.
Os benefícios vão além da agricultura. Sem as lagoas de armazenamento, diminuem os odores, as emissões de metano e amônia e o risco de infiltrações no solo, um aspecto fundamental para a aceitação de grandes fazendas leiteiras pelas comunidades próximas. Além disso, os fertilizantes de origem orgânica podem ser comercializados em todo o país, com preços diferenciados, para culturas intensivas de alto valor.
Quem paga a conta?
A tecnologia é cara e, por isso, o modelo de negócios é fundamental. A fazenda leiteira não compra a unidade de tratamento. A Sedron financia, constrói e opera a instalação, recebendo por duas fontes: uma tarifa pelo tratamento do esterco e a receita obtida com a venda dos biofertilizantes. Dessa forma, o produtor deixa de se preocupar com o manejo dos dejetos líquidos sem precisar imobilizar capital na estrutura.
Atualmente, nos Estados Unidos, a escala mínima para viabilizar o sistema gira em torno de 4 mil vacas. Por enquanto, portanto, trata-se de uma solução para propriedades leiteiras de grande porte. Na Argentina, a situação é inversa: o plantio direto já é a prática predominante na agricultura, enquanto o manejo dos dejetos líquidos ainda está atrasado. Embora tenham ocorrido avanços importantes, o país ainda está longe de uma utilização agronômica generalizada dos efluentes.
As fazendas leiteiras argentinas estão distantes da escala da Fair Oaks, mas a lógica pode ser aplicada: separar os sólidos antes de transportar o efluente e realizar a aplicação conforme as necessidades da cultura. A pecuária leiteira americana busca diariamente aumentar sua eficiência, e a Fair Oaks Farms mostra como essa corrida acontece: transformando problemas em novas fontes de receita. O esterco, que na maioria das fazendas leiteiras representa um custo e um passivo ambiental, ali gera energia, material de cama para as vacas, fertilizantes e água.
Por trás desse modelo está McCloskey, um empreendedor em série. Ele fundou a cooperativa Select Milk Producers, impulsionou a Fairlife — marca de leite ultrafiltrado que acabou sendo adquirida pela Coca-Cola —, abriu a fazenda ao turismo, chegando a receber um milhão de visitantes por ano, e atualmente planeja um sistema integrado de produção de carne em Porto Rico.
Sua regra para qualquer inovação é simples: ela precisa reduzir custos, melhorar a eficiência ou diminuir o capital necessário. Para ele, a sustentabilidade só é possível quando gera maior rentabilidade para a empresa. E a Fair Oaks Farms conseguiu alcançar esse objetivo.
As informações são do La Nación, traduzidas pela equipe MilkPoint.
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