Da tecnologia ao "boi China": como a Fazenda São José virou a nº 1 em produção de leite

Com foco em conforto térmico e eficiência reprodutiva, Fazenda Bela Vista retoma o topo do Top 100 do leite e diversifica receitas com gado de corte.

Publicado por: MilkPoint

Publicado em: - 6 minutos de leitura

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A Fazenda São José, em Tapiratiba (SP), cuida de 2.750 vacas em lactação, adotando práticas de bem-estar animal que contribuíram para dobrar a produção de leite, alcançando 102 mil litros/dia em 2025. A propriedade investe R$ 15 milhões na ampliação do laticínio para atingir 150 mil litros/dia em três anos. A produção de iogurtes também será expandida. Além disso, a fazenda destina machos para o mercado de carne, especialmente para a China, aumentando a rentabilidade.

O banho antes e pós-ordenha é sagrado para as 2.750 vacas em lactação da Fazenda São José, em Tapiratiba (SP), dona da marca Fazenda Bela Vista. Alguns animais chegam a passar até seis vezes por dia pela sala de banho, inspirada em modelos pesquisados fora do país. Além de lavar o úbere, a preocupação é com o conforto térmico dos animais — no verão, a temperatura ultrapassa os 35 graus na propriedade. “O gado holandês é muito sensível ao estresse calórico”, justifica o diretor-geral, Sérgio Ferraz Ribeiro Filho.

Figura 1

Foto: Gabriel Reis/Valor

Conhecida pelas tradicionais garrafinhas, espécie de marca registrada da empresa, a Fazenda Bela Vista mais que dobrou a sua produção de leite nos últimos oito anos, passando de 47 mil para 102 mil litros por dia em 2025. O desempenho fez com que a propriedade voltasse ao primeiro lugar do ranking Top 100 da MilkPoint/Abraleite em 2026, desbancando a Fazenda Colorado, de Araras (SP). A adoção de práticas de bem-estar animal, com especial atenção ao conforto térmico do rebanho, foi um dos pilares desse avanço.

A meta, agora, é alcançar um novo salto, para 150 mil litros por dia, em três anos. Para acompanhar o crescimento da oferta de matéria-prima, a propriedade investe R$ 15 milhões na ampliação do laticínio, localizado na mesma propriedade, a cerca de 300 km de São Paulo. O investimento contempla pasteurizador, homogeneizador, nova linha de envase, empacotamento, rotulagem, ampliação das instalações, estocagem e câmara fria. “Tem que vender mais porque a produção está subindo”, diz o empresário.

A fábrica de lácteos, que tem 1.480 metros quadrados, foi feita inicialmente para processar 630 mil litros por mês. Hoje a empresa processa mais de 2 milhões de litros/mês na unidade. Por isso, os novos investimentos visam a dobrar essa estrutura. Só a ampliação tem 2.050 metros quadrados. A nova linha deve começar a operar no dia 5 de novembro.

Já a capacidade de processamento, segundo Sérgio, pode chegar a 6 milhões de litros por mês. A ideia é ampliar também a produção de iogurte, que passará de 74 para 156 toneladas por semana. Ainda em iogurtes, está sendo instalada uma máquina para embalagens de 250 ml e 500 ml.

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A estratégia é usar esses produtos para ampliar a distribuição dentro do estado de São Paulo, inclusive em regiões mais distantes da fábrica. Por isso, o plano de crescimento prevê aumentar a capacidade de produção de iogurtes que tenham até 60 dias de validade.

O portfólio da Fazenda Bela Vista inclui leite tipo A, integral, semidesnatado e desnatado, creme de leite, queijo parmesão, Minas Padrão, frescal, ricota e iogurtes em garrafa e em copo. Uma nova linha de iogurtes com whey protein deve ser lançada ainda neste ano, aproveitando o momento de demanda aquecida na categoria.

Parte da Fazenda São José encontra-se em território mineiro, mas foi do lado paulista que a família fundadora decidiu construir o laticínio, de olho no principal mercado consumidor de leite do país. Sérgio é neto de Orostrato Olavo Silva Barbosa, conhecido como “rei do leite”, falecido em 2012, que deu início à produção na fazenda em 1960.

Na época, o gado ainda era criado a pasto, e a ordenha feita de forma manual. A fazenda produzia, no início, cerca de 70 litros por dia. A raça que predominava era o dinamarquês cruzado com o holandês. Posteriormente, a propriedade chegou a trabalhar com o gir — raça leiteira zebu — , até adotar de vez o holandês, raça que hoje representa 100% do plantel.

Os primeiros confinamentos no modelo free stall — no qual as vacas ficam soltas em galpões e têm camas individuais — no Brasil foram adotados pela Fazenda São José em 1987. A medida se deu depois que Olavo visitou Estados Unidos, México e Europa à procura do melhor modelo de verticalização da produção. Parte da recria continuou sendo feita a pasto, até que, em 2019, teve início a adoção do modelo compost barn, no qual as vacas ficam em espaço coberto para descanso, revestido com serragem e esterco compostado. “Com isso, fizemos o gado passar uma recria muito mais tranquila, muito mais suave, com menos doenças, com menos desafios, possibilitando ao gado que está chegando agora na produção de leite ter uma capacidade de expressar todo o seu potencial genético”, resume Sérgio.

Assim, a produção média por vaca saltou de 28 litros/dia para 42 litros/dia. Atualmente, em mais da metade dos animais, a média diária já é de 49 litros por dia. Além do cuidado com o bem-estar animal, a grande mudança na Fazenda São José foi colocar a reprodução no centro da operação, fazendo com que as vacas emprenhassem mais cedo.

O veterinário Tiago Carneiro conta que, quando chegou à fazenda, em 2019, o intervalo entre partos era de 17 meses, com taxas de serviço (relação entre número de vacas inseminadas e de vacas aptas a reproduzir) de aproximadamente 40% e de concepção de 25%, resultando em taxas de prenhez de 10%. Com a melhoria da eficiência reprodutiva, combinando aumento da taxa de serviço, ressincronização mais rápida e maior taxa de concepção, o intervalo entre os partos caiu para 13 meses. Já a idade no primeiro parto passou de 28 para 22 meses. Esse aumento na eficiência reprodutiva colaborou para que o rebanho alcançasse uma taxa de prenhez próxima a 38%, no caso das novilhas.  

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Ao emprenhar as vacas mais rapidamente, a fazenda passou a ter mais animais no início da lactação, fase em que a produção de leite é maior. “Essa evolução, que resulta na redução do intervalo entre partos, é o que faz a fazenda aumentar a produção de leite também, porque a vaca precisa parir para dar leite”, afirma Carlos Consentini, gerente técnico da GlobalGen, empresa de biotecnologia aplicada à reprodução animal, que atuou no projeto.

Propriedade também comercializa ‘boi China’

Assim como a maior parte das grandes propriedades produtoras de leite, o percentual de bezerros machos diminuiu na Fazenda São José, nas últimas décadas, graças ao avanço na área da genética animal. As novilhas são inseminadas 100% com sêmen sexado, porém nas multíparas (que já tiveram duas ou mais crias) é utilizado o sêmen convencional. Hoje, do total de nascimentos, 72% são de fêmeas. Antigamente, eram 50% fêmeas e 50% machos.

Com o aumento da proporção de fêmeas nos nascimentos, a propriedade passou a destinar os machos para a produção de gado de corte cuja carne é destinada à exportação. Hoje, esses animais são vendidos a frigoríficos da região próxima à Fazenda São José como “boi China”. “São animais abatidos em torno de 18 meses de idade, superprecoces. Virou um outro business”, diz Sérgio Ferraz Ribeiro Filho, diretor-geral da empresa.

A comercialização de gado leiteiro direcionado à exportação de carne tem sido cada vez mais comum na pecuária. Segundo o zootecnista Felipe Fabbri, consultor de mercado, a raça do animal não é um fator determinante para atender ao mercado chinês. “No final, tudo é carne. A única exigência que a China faz com relação a essa carne é que o boi abatido, independentemente de ele ser holandês, girolando, senepol ou angus, tenha um padrão com até 30 meses”, afirma.

Antigamente, esses animais também eram destinados ao abate, mas não havia uma bonificação como ocorre com o “boi China”. Esse animal destinado a atender ao mercado chinês tem valor de mercado levemente acima do gado comum — cerca de R$ 2 a R$ 3 por arroba, segundo Fabbri. “É um aspecto produtivo que traz renda para a propriedade e também acaba agregando valor ao sistema operacional dele”, avalia o especialista.

As informações são do Globo Rural.

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