Gráfico 1. Série de preços médios recebidos pelo produtor (líquido), em valores reais (deflacionados pelo IPCA de fevereiro/2026). Fonte: Cepea-Esalq/USP.
A alta foi impulsionada pelo aumento da competição entre laticínios pela compra de matéria-prima, em um cenário de oferta mais restrita. O ICAP-L (Índice de Captação de Leite) recuou 3,6% de janeiro para fevereiro, refletindo principalmente a queda na produção em estados relevantes como Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Goiás.
Do lado da oferta, a redução já reflete a entressafra, combinada aos efeitos de um longo período de margens pressionadas ao produtor em 2025, que limitou investimentos e expansão da produção. Ao mesmo tempo, os custos seguem no radar: o COE (custo operacional efetivo) avançou 0,32% em fevereiro, e, mais recentemente, milho e soja voltaram a apresentar viés de alta em março, adicionando atenção ao cenário.
Pelo lado da demanda, o mercado mostra sinais mais claros de reação. Em fevereiro, os preços no atacado continuaram a responder, movimento que ganhou força ao longo de março. Levantamentos do MilkPoint Mercado indicam que o leite spot seguiu em trajetória de alta na segunda quinzena do mês, atingindo R$ 3,172/litro na média Brasil, com valorização generalizada entre os estados — um indicativo claro de maior disputa por matéria-prima.
Na indústria, o movimento também se consolidou. O leite UHT registrou forte avanço em março, chegando a R$ 4,68/litro em São Paulo, enquanto a muçarela atingiu R$ 31,6/kg, sustentada pela menor disponibilidade de leite e pela demanda aquecida. O segmento de leite em pó também começa a dar sinais de reação, acompanhando o melhor escoamento no mercado.
No cenário internacional, os preços mostraram estabilidade recente nos leilões da Global Dairy Trade (GDT), após uma sequência de altas, ainda sustentados por uma oferta global mais ajustada, especialmente com a desaceleração sazonal da produção na Oceania. No consumo interno, a segunda quinzena de março trouxe sinais de retomada da demanda, com maior fluidez no escoamento dos produtos lácteos, após um fevereiro mais fraco.
Diante desse conjunto de fatores — oferta em retração, demanda em recuperação e preços em reação ao longo da cadeia — o mercado lácteo brasileiro consolida, ao fim do primeiro trimestre, um movimento mais consistente de virada. A expectativa é de continuidade desse ajuste nos próximos meses, com tendência de valorização gradual do leite ao produtor à medida que oferta e demanda buscam um novo ponto de equilíbrio.
As informações são do Cepea e MilkPoint Mercado.