A febre das canetas emagrecedoras não afeta só o corpo dos brasileiros. A mais nova tendência também está mudando o que parte significativa da população põe no carrinho de compras e no prato. Com o recuo no consumo de ultraprocessados e o alerta médico sobre a perda de massa magra durante o tratamento com os injetáveis, cresce a procura por alimentos in natura, ricos em proteína de alta qualidade e valor nutricional.
Esse cenário está atestado na recente pesquisa realizada pela Pluxee, empresa especializada em cartões de benefícios coorporativos. Segundo o levantamento com 1,2 mil usuários, 84% que utilizam as canetas emagrecedoras reduziram o consumo de industrializados, enquanto 83% diminuíram a ingestão de ultraprocessados e 57% passaram a priorizar fontes de proteína na alimentação.
Essa mudança de hábito vai gerar oportunidades para a agropecuária paranaense, que já sente (e acompanha) o movimento. “De queijarias a aviários, de pastagens a lavouras de cereais, as canetas emagrecedoras aceleram a transformação e a busca por uma alimentação saudável, que já vinha se desenhando nos últimos anos”, comenta o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette.
Para a endocrinologista Bruna Cavalheiro, as canetas para emagrecimento modificam a relação da pessoa com o alimento. Isso porque os medicamentos atuam em regiões do cérebro responsáveis pelo controle da fome e mecanismos de recompensa relacionados à alimentação. “Após iniciar o tratamento, o desejo por alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar, gordura e sal diminui significativamente, facilitando escolhas alimentares mais saudáveis”, explica Bruna.
A médica ainda afirma que toda perda de peso promovida pelo uso das canetas envolve redução de gordura e também de alguma massa muscular, já que o músculo é reserva de energia. “Essa perda pode ser reduzida com estratégias como a ingestão adequada de proteínas ao longo do dia. Carnes magras, peixes, ovos, leite e derivados, leguminosas, são excelentes fontes, além de oferecerem outros nutrientes importantes. Se o medicamento muda o apetite de milhões de brasileiros, o campo vai seguir se organizando para transformar esse movimento em um prato cheio de oportunidades. Os produtores rurais precisam estar preparados para aproveitar essa tendência, que é mundial e veio para ficar e agregar cada vez mais valor à produção”, reforça Meneguette.
Leite: soro que vale ouro
Na pecuária leiteira, o reflexo do novo padrão de consumo já reconfigura a cadeia. Nesse cenário, o soro do leite, até recentemente considerado um subproduto de baixo valor no processo de fabricação de queijo, ganhou status de produto nobre. “Antes era um subproduto, depois virou um coproduto e hoje já é um produto mesmo. O soro (whey) praticamente triplicou de preço nos últimos dois anos”, diz Roger van der Vinne, produtor em Carambeí, nos Campos Gerais, e vice-presidente da Comissão Técnica (CT) de Bovinocultura de Leite do Sistema FAEP. O pecuarista mantém cerca de 450 vacas em lactação, com produção diária de 18 mil litros de leite.
Apesar das boas expectativas, segundo Vinne, os ganhos, principalmente financeiros, ainda devem demorar a chegar dentro das porteiras. “Essa mudança do consumo atinge primeiro a indústria para, só depois, chegar ao nível do produtor”, explica. “Depende da maturidade, tanto de o produtor entender que tem um produto na mão que vale ouro quanto de a indústria reconhecer que esse produto precisa ser valorizado. Precisamos amadurecer essa conversa”, avalia.
Em outros países o movimento já é mais visível nesta outra ponta. O Canadá e os Estados Unidos alteraram os índices genéticos usados para selecionar touros — o LPI canadense e o TPI americano —, dando hoje mais peso à proteína do que à gordura na avaliação. “Antigamente, o peso da gordura e da proteína transmitido pelo touro para as filhas era praticamente o mesmo, ou até a gordura valia mais. Hoje já houve essa inversão”, afirma Vinne. Como boa parte dos touros usados no Brasil é selecionada com base nesses índices internacionais, o impacto já chega também à genética do rebanho nacional.
As informações são do Sistema Faep.
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