Isso apesar da pesquisa publicada em maio pela Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA que concluiu, após analisar mais de mil estudos, que os organismos geneticamente modificados, existentes desde a década de 1970, não só não trazem riscos à saúde como, se usados corretamente, propiciam benefícios para agricultores e ambiente. Os pesquisadores não encontraram qualquer evidência de que esses organismos tiveram impacto sobre as prevalências de câncer, obesidade, diabetes, autismo, doença celíaca ou alergias. Não é claro, no entanto, se a tecnologia realmente aumenta a produtividade da agricultura.
Para Adriana Brondani, diretora-executiva do CIB, "houve uma falha de comunicação do agronegócio, dos cientista e da sociedade". "A propaganda contrária ganha aderência porque há um hiato de conhecimento da população, por causa da falta de informação", diz. A pesquisa mostra que as pessoas nem sabem quais são as plantas transgênicos cultivadas no país – soja, algodão e milho, principalmente. Só 11% acertaram a combinação.
O motivo de tão poucas espécies é a rentabilidade de cada uma delas, explica a professora Maria Lúcia Vieira, professora titular da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP. "É igual à indústria automobilística. Se não tiver lucro, não vende. Por isso há poucos e a área plantada é tão grande. Também há uma vantagem para o agricultor, que planta a semente da planta transgênica e depois passa o herbicida – o mato morre e a planta de lavoura, não", diz.
Resistência
A inserção ou substituição de um gene em uma espécie pode fazer com que ela, por exemplo, seja mais resistente a intempéries, herbicidas ou pragas – ou fazer com que ela própria produza um larvicida, caso do milho Bt (abreviação do organismo doador Bacillus thuringiensis, que produz naturalmente uma proteína larvicida).
Talvez a raiz do problema dessa relutância popular esteja na primeira variante transgênica de soja, hipotetiza Maria Lúcia. "A Monsanto tinha tanto a semente quanto a molécula para a qual a planta era resistente [o agrotóxico glifosato]. Foi um erro vender as duas coisas. Não houve um trabalho de conscientização, de que a tecnologia dos transgênicos não tem necessariamente a ver com herbicidas."
Segundo a professora, apesar de haver alarde, as pessoas não deveriam se preocupar por ingerir transgênicos. "Os produtos comercializados são absolutamente seguros." A principal destinação de milho, soja e algodão (além de tecido, no caso do último), é a alimentação de porcos, galinhas e gado bovino, explica. "O frango nosso de cada dia é alimentado com o milho transgênico. O susto também não faz sentido porque quem consome a maior parte dos transgênicos são os animais."
Na pesquisa, muita gente reagiu mal ao ser informada que ingere DNA – 73% se disseram preocupadas. Mesmo entre as que gostam de ciência, o número não foi muito mais baixo, 57%. A molécula de DNA está presente em todo tipo de alimento que um dia foi vivo. Ao ser digerido, esse DNA é "reciclado" para formar o DNA de nossas próprias células. E o DNA transgênico é tão DNA quanto o "original". O risco carregado pelos transgênicos não está no "excesso" de DNA (apenas mais um gene entre milhares), e sim no metabolismo da planta.
Em uma trama complexa de reações químicas, não dá para ter certeza que, ao mexer em uma reação química aqui, o resultado não será o acúmulo de um metabólito tóxico para humanos acolá. Por isso, são necessários os testes em animais para aferir a eventual toxicidade desses alimentos. "Por ser muito dinheiro investido, dificilmente a indústria pede aprovação de um produto com falhas", diz Maria Lúcia.
Um dos problemas, diz, é quando há um parente silvestre que pode ser ameaçado pela planta transgênica, caso em que a licença de comercialização pode ser negada.
As informações são do jornal Folha de São Paulo.