Aumento de custos praticamente anula recuperação de preços

Publicado por: MilkPoint

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De acordo com dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA-ESALQ/ USP), os preços do leite vêm acumulando alta nos últimos meses e boa parte da justificativa para isso é o fato de não haver leite sobrando no mercado. Como explica Leandro Augusto Ponchio, engenheiro agrônomo do CEPEA, "houve uma crise muito forte em 2001 e, de lá para cá, não houve uma reestruturação do setor para que aumentasse a produção".

Comparando-se abril de 2003 ao mesmo período do ano passado, a variação nominal de preços teve um aumento de 25%. No entanto, Leandro afirma que, por mais que os preços estejam altos, o produtor ainda continua enforcado no custo de produção. Em valores reais ele calcula que o aumento foi de apenas 2%.

Geide Figueiredo Jr. , engenheiro agrônomo do Departamento Técnico da FNP concorda: "O preço do leite continua em alta, em valores nominais, desde a forte crise em 2001. Mas, colocando-se a inflação, ele subiu muito pouco em comparação aos custos de produção". Por isso tem-se visto grandes produtores liquidando plantéis.

Segundo Leandro, estão ficando na atividade produtores com custo de produção muito bem elaborados, com um planejamento da propriedade bem feito e escala de produção. "Boa parte do custo da atividade de leite é dado em mão-de-obra e custo fixo. Na média, de 30 a 35% do custo de produção é fixo, ou seja, independentemente do quanto ele produzir, terá que pagar. Assim, quanto mais ele produzir, mais barato vai ficar por unidade".

Insumos

Além do custo com mão-de-obra contratada, os preços dos insumos têm contribuído para a menor rentabilidade do produtor. O CEPEA, que vem acompanhando o custo de produção da silagem de milho, por exemplo, calcula que o produto teve cerca de 15% a 16% de aumento real de custo, de setembro de 2002 até fevereiro/março de 2003.

De acordo com Gustavo Beduschi, engenheiro agrônomo e analista de mercado da Scot Consultoria, o farelo de soja subiu 36% em relação a abril do ano passado, mas caiu 23% em São Paulo, em comparação a março. O milho está 75% mais caro, comparando-se os meses de abril de 2003 e 2002. Porém, já houve uma queda de 15% em relação ao início do ano. A uréia está em ascenção, acumulando ainda as altas do dólar: 107% mais cara que em abril de 2002. O cloreto de potássio está 51,8% mais caro e o adubo 20 00 20 subiu 66%.

Importações

Para Geide Figueiredo Jr., o que tem mantido os preços nessas alturas é a queda das importações. "Dependendo do produto, há uma oscilação muito forte mês a mês. Tem meses em que as importações de manteiga, por exemplo, caem 50% ou 60%. No mês seguinte sobem 100% ou mais. Porém, no geral, as importações têm caído pela questão do câmbio. Mesmo com o dólar mais baixo, ainda não está compensando trazer o produto de fora", diz ele.

Gustavo concorda que a tendência atual não seja de aumento nas importações, além do que já se costuma importar normalmente. "O setor tem reclamado que o consumo de leite não está bom, então não haveria motivo para aumentar demais a importação de leite com o dólar num patamar de R$ 2,90", afirma ele.

Com a diminuição das importações, a competição principalmente em São Paulo, Goiás e Minas Gerais é muito grande, contribuindo para que o preço ao produtor continue em alta. "As grandes empresas de laticínios provavelmente não vão importar com o dólar a esse preço. A concorrência entre eles, os outros laticínios e as cooperativas para comprar matéria-prima nacional vai continuar, puxando o preço para cima", diz ele. Além disso, Geide acredita que o dólar voltará a subir no segundo semestre e a matéria-prima ficará ainda mais concorrida considerando que muitos produtores saíram da atividade nos últimos tempos.

Preços ao consumidor

A entrada da entressafra é mais um fator a contribuir para que os preços pagos ao produtor não sofram recuos e continuem em alta. No entanto, alguns laticínios podem não ter como sustentar esses preços. De acordo com Geide, os grandes laticínios têm maior poder de compra pelo fato de possuírem unidades em pontos estratégicos. "Além disso, por mais que os preços estejam altos para o comprador, eles vão tentar alocar esse leite num produto de maior valor agregado, para poder compensar".

Os preços dos lácteos ao consumidor também aumentaram no atacado e no varejo. De março para abril o leite UHT subiu 2,9% no atacado e 12,2% no varejo. Os iogurtes ficaram 3,4% (atacado) e 13% (varejo) mais caros. "Por enquanto a população está absorvendo, mas se aumentar muito, vai começar a cortar", afirma Gustavo.

Algumas empresas de laticínios estão acumulando prejuízos desde setembro do ano passado. Para Leandro, a curto prazo os laticínios podem ficar a toque de caixa, mas a longo prazo, será necessário financiamento. "E quando o laticinista precisar começar a pagar esse financiamento, vai haver repasse ao consumidor. Então é possível que isso se traduza, no final da entressafra, que é o pico dos preços, numa pressão de aumento de leite e derivados na gôndola do supermercado", conclui.



Fonte: Thais de Alckmin Lisbôa, para MilkPoint
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