Análise da conjuntura do setor leiteiro da Argentina

Publicado por: MilkPoint

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2003

Após 26 meses de quedas ininterruptas, a entrada de matéria-prima nas fábricas da Argentina registrou em dezembro passado seu segundo aumento interanual consecutivo, neste caso, de 4,5%. Este valor adquire relevância como indicador da provável mudança da tendência após uma persistente etapa de baixa iniciada em setembro de 2001 (ver gráfico 1). Desta forma, estima-se que o volume acumulado em 2003 foi 7,5% menor do que o correspondente em 2002.


Segundo o Estimador Mensal Industrial (EMI) elaborado pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (INDEC), a indústria de lácteos da Argentina foi o único setor - de um total de 30 - que, no acumulado até dezembro de 2003, registrou um nível menor de atividade do que no mesmo período do ano anterior, com uma retração de 9%. A queda observada na recepção total de leite pode ser explicada, em grande parte, pela diminuição no número de propriedades leiteiras mais do que pela redução na produção diária por propriedade (ver gráfico 2). De fato, entre janeiro e dezembro de 2003, a quantidade de propriedades leiteiras mostrou reduções interanuais permanentes que ficaram em média em 13% neste período; enquanto que a produção diária por propriedade, embora tenha mostrado altos e baixos, acabou ficando com uma média 4% superior à do ano anterior.


Como referência da situação do setor primário, pode-se apontar que, em dezembro de 2003, as indústrias "indicadoras" (15 companhias usadas de base para a estimativa da tendência da produção primária nacional), receberam em média cerca de 14,5 milhões de litros diários, provenientes de 6,5 mil produtores, enquanto que, um ano antes, a captação era de 13,8 milhões de litros diários, enviados por aproximadamente 7,070 mil produtores.

É fundamental deixar claro que esta redução no número de propriedades leiteiras da amostra - pouco mais de 560 - pode ser devida a uma combinação de duas causas: o fechamento definitivo de estabelecimentos e os "passes" (transferência) às indústrias menores, com preços ou prazos de pagamentos mais convenientes para o produtor, ou ainda, com menores exigências quanto à qualidade do leite. Os representantes das indústrias maiores argumentam que a intensidade destas transferências tem aumentado de forma significativa nos últimos dois anos.

Na comparação interanual (dezembro de 2003 contra dezembro de 2002), o volume diário entregue por propriedade teve um aumento de 14%, passando de uma média de 1960 para 2225 litros por estabelecimento. Esta variação de sinal positivo parece consolidar uma promissora tendência de alta, já insinuada a partir de março de 2003 e interrompida duas vezes em maio e em agosto deste ano, como conseqüência das difíceis condições agro-climáticas desenvolvidas nas bacias leiteiras mais importantes (inundações e fortes geadas, respectivamente).

Como informação complementar, vale agregar alguns dados elaborados pelo Centro da Indústria Leiteira (CIL) sobre a base de dados fornecida pelas 16 indústrias. A comparação acumulada (janeiro-dezembro de 2003 versus janeiro-dezembro de 2002) mostra uma queda de 8,4% na recepção de matéria-prima (entrada total de leite, que também considera as entradas e saídas de propriedades leiteiras); variação que fica nula quando se mede em termos de produção a propriedade constante (que se calcula comparando a produção das propriedades que entregaram em um determinado período e que também o fizeram no período base, ou seja, que exclui do cálculo os ingressos e egressos de propriedades leiteiras).

Com base nestes dados, poderia se estimar que a redução "real" da produção leiteira argentina - questão discutida nos últimos tempos - ficaria em um ponto intermediário entre ambas as situações extremas. De fato, a queda de 8,4% poderia estar ligada a um cenário pessimista no qual todas propriedades que "saíram" da amostra de indústrias do CIL são, na realidade, propriedades que abandonaram a atividade. No pólo oposto poderia estar um panorama extremamente otimista no qual, apesar de não ter havido ingresso de propriedades, pelo menos não se registraram saídas da amostra, o que levaria a concluir - erroneamente - que a produção de 2003 teria se igualado à do ciclo anterior.

Com relação à evolução do número de propriedades leiteiras da amostra, vale destacar a reedição em 2003 de uma tendência que - excepcionalmente - não foi registrada em 2002, isto é, a interrupção do processo de êxodo de produtores de leite durante a segunda metade do ano.

As observações anteriores são sintomáticas de uma lenta, mas sustentada, melhoria das condições gerais nas quais a atividade leiteira da Argentina se desenvolve atualmente e que se constata também na crescente demanda de novilhas e a conseqüente recuperação de seus preços, assim como na realização de melhorias e ampliações das instalações de ordenha.

No que se refere ao preço da matéria-prima, vale destacar que o preço médio pago pelas indústrias líderes em dezembro de 2003 - expresso em valores atuais - foi 24% superior ao valor do mesmo mês de 2002 e ficou em torno de 45,2 centavos de peso (centavos de dólar) por litro (ver gráfico 4). Na relação com o mês anterior, o preço de dezembro representa uma pequena recuperação, de 0,1%, que interrompe um período de cinco meses consecutivos de valores declinantes.


Vale destacar que, em um contexto de escassez de oferta, entre dezembro de 2002 e dezembro de 2003, a magnitude da alta do preço ao produtor praticamente duplicou à registrada pelos valores atacadistas e varejistas (24% versus 17,5% e 11,5%, respectivamente), de forma que a participação daquele nos preços dos produtos finais se recuperou rapidamente (ver gráfico 4). Com relação a isso é necessário fazer um esclarecimento de ordem metodológica. Como o INDEC efetua o seguimento dos preços de um grupo de produtos de marcas líderes, que são as que menos flutuaram em termos relativos, é provável que os índices atacadistas e varejistas "subestimem" os aumentos dos lácteos em seu conjunto.

Como era previsível, após a forte recuperação dos preços ao produtor primário, a baixa estacional acumulada dos valores ao produtor foi muito superior à acusada em nível atacadista e varejista (da ordem de 12,5% entre junho e novembro, contra quedas de 4,7$ e 4,6%, respectivamente).

2004

No primeiro mês deste ano, as entregas de matéria-prima às fábricas da Argentina registraram uma alta interanual da ordem de 10%. Esta recuperação pode ser explicada, exclusivamente, pela forte expansão de 19% na produção diária por propriedade leiteira, que mais do que compensou a diminuição de 7,5% observada no número de propriedades.

Mais concretamente, em janeiro de 2004, as indústrias "indicadoras" receberam em média 13,6 milhões de litros diários, provenientes de cerca de 6.565 propriedades, enquanto no ano anterior a captação média foi de 12,4 milhões de litros diários, enviados por aproximadamente 7110 propriedades leiteiras.

As estimativas para as principais usinas no mês de fevereiro indicavam entradas de matéria-prima aproximadamente 2,5% inferiores à do mês anterior, mas cerca de 19,5% maior do que em fevereiro de 2003. Este último dado tem grande importância, já que constituiu a terceira variação interanual positiva realmente significativa em termos quantitativos, que consolida a tendência de alta iniciada em dezembro de 2003.

Deve-se deixar claro, entretanto, que a base utilizada na comparação já previa um forte aumento, considerando que fevereiro foi o mês de pior desempenho ao longo de 2003, com uma redução interanual de 19% com relação a fevereiro de 2002. A validez desta consideração provavelmente se estenda durante grande parte do primeiro semestre deste ano, de forma que a magnitude dos aumentos acumulados será importante neste período e irá se reduzindo conforme transcorra a segunda metade do ano.

Com relação aos preços, o preço médio pago pelas indústrias líderes em janeiro de 2004 foi 17% superior ao valor do mesmo mês de 2003, e ficou em cerca de 45,35 centavos de peso (16,05 centavos de dólar, na cotação de 20/04/2004) por litro. Com relação ao mês anterior, o preço de janeiro representa uma pequena recuperação de 0,3%, a segunda consecutiva após um período de 5 meses ininterruptos de valores declinantes.

Algumas consultas efetuadas a indústrias de ponta referenciais permitiriam afirmar que o preço pago em fevereiro de 2004 tenha sido, em valores atuais, entre 3-4% superior ao do mês anterior e cerca de 13% maior do que em fevereiro de 2003.

Com relação às perspectivas de preços ao produtor para o outono-inverno, as principais variáveis parecem confluir para a estabilização dos valores atuais ou ainda, para algum aumento, certamente moderado. Entre os principais motivos desta provável evolução pode ser citada a persistência do ajustado balanço entre oferta e demanda agregadas (ver gráfico 3), ao que se deve somar, referente à demanda, uma incipiente reativação do consumo interno que se espera que seja consolidada nos próximos meses e o ressurgimento da exportação como uma interessante alternativa de colocação dos produtos, considerando a firmeza dos preços internacionais.

A demanda externa merece uma consideração à parte. Após o boom exportador ocorrido em 2002, quando cerca de 20% da produção da Argentina foi destinada ao mercado externo, a posterior apreciação do tipo de câmbio nominal, somado à escassez de oferta exportável e ao fortalecimento dos preços na saída da fábrica durante a primeira metade de 2003, confluiu em uma reversão deste processo. De fato, em 2003, observou-se uma diminuição das colocações no exterior, não somente em termos absolutos, mas também, em sua expressão como porcentagem da produção doméstica, que ficou três pontos percentuais abaixo do registrado no período de janeiro-dezembro de 2002 (16% versus 19%). No entanto, vale destacar que uma análise mais detalhada dos dados permite distinguir claramente dois sub-períodos de comportamentos bem diferentes: um primeiro semestre caracterizado pelo permanente declínio da tendência exportadora, que culminou com um mínimo de 8% da produção nacional exportada em junho; e um segundo semestre marcado pela forte recuperação deste indicador, que alcançou 22% em dezembro passado.

Em janeiro de 2004, apesar de o volume exportado ter tido um leve aumento com relação ao mesmo mês de 2003, a marcada expansão da produção derivou em uma menor proporção exportada, que alcançou 15,5%.

B - SITUAÇÃO DO MERCADO INTERNO

2003

Comparando-se o balanço entre oferta e demanda agregadas [1] Ofe (em litros equivalentes de leite) de 2003, com o do ano anterior, observa-se o seguinte:

*A persistência de um excesso de oferta agregada e um processo de forte redução da diferença entre esta e a demanda com relação à registrada em 2002 (ver gráfico 4);

*Com relação à oferta, apesar das importações terem se multiplicado várias vezes, as quedas de 7,5% na produção - seu principal componente - e de 60% nos estoques iniciais resultaram em uma redução de cerca de 9% na oferta agregada do período;

*No entanto, a demanda agregada foi 8,5% inferior, devido á retração de 5% no consumo interno que se combinou com uma forte queda de 24% nas exportações;

* Em conseqüência, os estoques finais de dezembro de 2003 foram 35% menores do que os de dezembro de 2002 e aos níveis iniciais de 2003.


Estima-se que as quantidades consumidas no mercado interno registraram em dezembro de 2003 uma alta interanual de 9,5%. Apesar deste aumento, o consumo acumulado nos doze meses de 2003 teria ficado 5% abaixo do registrado em 2002. Expressa em termos per capita, esta última comparação levaria a uma redução ainda maior, de 6,5%, ao passar de 192 litros por habitante por ano para um volume estimado de 180 litros em 2003.

Com relação ao mês anterior, o consumo total de dezembro de 2003 aumentou 6,5%, uma recuperação que é significativa se comparada com a redução estacional de 9% e o aumento de 1% registrados entre novembro e dezembro de 2002 e 2001, respectivamente.

Notas ao gráfico:
* Entre 1999 e fim de 2001, as curvas de preços atacadistas e varejistas dos produtos processados possivelmente se situam abaixo das apresentadas aqui, já que o INDEC não incorpora à sua cesta de produtos as 2a e as 3a marcas, de preços inferiores. Estima-se que, desde janeiro de 2002, esta tendência tem se revertido.

2004

Com relação ao balanço entre oferta e demanda para o primeiro mês deste ano, vale destacar o seguinte:

* Com relação à oferta, apesar de os estoques iniciais terem sido 35% menores do que os de janeiro de 2003, o aumento de 10% na produção - seu principal componente - resultou em um aumento de cerca de 2,5% na oferta agregada do período;

* No entanto, a demanda agregada foi 14% superior, devido à forte recuperação de 16% no consumo interno, que se combinou com um queda de 3% nas exportações;

* Em conseqüência, os estoques finais de janeiro de 2004 foram 62% menores do que os do ano anterior.

Com relação ao mês anterior, o consumo total de janeiro de 2004 aumentou 20%, sendo necessário retornar ao ano de 2000 para chegar a um primeiro mês do ano com um nível de consumo semelhante.

Preços

Durante o ano de 2003 - até dezembro - a alta dos preços ao consumidor dos produtos lácteos alcançou 11,5% e ficou quase 8% acima da inflação no varejo em nível geral.

Como reflexo de uma etapa de maior ajuste entre a oferta e a demanda, a comparação interanual (dezembro de 2003 versus dezembro de 2002) leva a uma maior recuperação dos valores na saída da fábrica em relação aos preços no varejo, com altas de 17,5% e 11,5%, respectivamente. Com relação a este último dado, o gráfico 5 mostra que a inflação varejista registrada entre dezembro de 2002 e dezembro de 2003 para o setor de "Produtos Lácteos e Ovos" superou em oito pontos percentuais tanto à correspondente ao "Nível Geral", como à do segmento "Alimentos para Consumir em Casa". No detalhe por grupo de produtos se destacam os aumentos nos queijos semi-duros (+25,5%), leite em pó (+23%), queijos duros e queijos macios e cremosos (+19,5%).


Em nível varejista, o fenômeno inflacionário específico dos produtos lácteos, que já mostrava sinais de desaceleração nos meses anteriores, transformou-se em deflação a partir de julho de 2003. Segundo dados do INDEC, o IPC GBA (Índice de Preços ao Consumidor da Grande Buenos Aires) dos "Produtos Lácteos e Ovos" acumulou uma queda de 5,5%, desde então até dezembro (incluindo este mês), dado que contrasta com a inflação da ordem de 1,5% registrada no Nível Geral.

Um contraste ainda maior se observa ao comparar os índices de preços à saída da fábrica, já que, de acordo com a mesma fonte, o IPIM (Índice de Preços por Atacado) de "Produtos Lácteos" acumulou uma queda de 4,5% entre julho e dezembro de 2003, enquanto que o Nível Geral mostrou uma inflação de magnitude similar.

2004

Em janeiro deste ano, provavelmente estimulados pela recuperação do consumo, os índices de preços atacadistas e ao consumidor dos produtos lácteos refletiram um pequeno aumento, com altas de 0,2% e 0,5%, respectivamente, com relação aos de dezembro de 2003, após um semestre de variações negativas em ambos os níveis. No entanto, estes aumentos estacionais podem ser considerados "normais" e são, inclusive, bem menores do que os observados nos dois anos anteriores.

Vendas da indústria

Com base na pesquisa efetuada a uma amostra representativa de empresas industriais, estima-se que em dezembro de 2003, as vendas no mercado interno (em toneladas) foram 9,5% superiores às de um ano atrás (ver gráficos 6 e 7).


A recuperação de 8,5% registrada nas vendas de "leites fluidos" - explicada principalmente por um aumento de 11% nos leites pasteurizados - combinou-se com o aumento de 14% observado nas vendas correspondentes ao grupo de "produtos". Na comparação interanual, seis das 10 categorias analisadas conseguiram superar os níveis de vendas do ano anterior. Em termos percentuais, os crescimentos mais significativos ocorreram no leite em pó integral (+51%), no doce de leite (+29%) e nos iogurtes (+25%), ainda que, por sua contribuição às vendas globais, vale destacar os leites pasteurizados e a de 2% nas vendas de leites esterilizados.

Com alguns altos e baixos - o mais significativo foi a forte queda produzida em junho de 2003 - a evolução mensal das vendas refletiu desde fevereiro deste ano uma interessante tendência de desaceleração das taxas negativas que resultou, no bimestre de setembro e outubro, em altas em torno de 10%, registradas após quase dois anos de retrações consecutivas. Após a breve interrupção registrada em novembro, no último mês do ano, observou-se um rápido retorno à trajetória positiva, com um aumento de 9,5%.

Este panorama mais favorável não é exclusivo dos produtos lácteos, mas sim, estende- se ao desempenho das vendas totais nos supermercados que, em 2003, registraram uma expansão, medida a preços correntes, de 9,6% com relação ao ano anterior.

A situação exposta se correlaciona com o progresso de alguns indicadores macroeconômicos. Como exemplos, vale mencionar:

* Segundo o INDEC, o Estimador Mensal de Atividade Econômica mostrou desde janeiro de 2003 variações interanuais positivas e quase sempre crescentes e acumulou no ano um aumento de 8,4% com relação ao mesmo período de 2002. Pontualmente, em dezembro passado se registrou um aumento interanual de 10,9% que, junto com o de setembro, foram os mais significativos do ano;

* A mesma fonte indica que, nos doze meses de 2003, o Consumo privado - o principal componente da demanda global, com uma participação de cerca de 60% - tinha crescido a valores constantes cerca de 8,1%, frente a 2002;

* O Índice de Salários, elaborado pelo INDEC, que inclui os valores pagos aos trabalhadores em virtude do aumento para o setor privado disposto pelo Governo, mostrou um crescimento de cerca de 12% entre janeiro e dezembro de 2003.

Estima-se que o volume acumulado de vendas nos doze meses de 2003 foi 4,5% inferior ao do ano anterior. Nesta análise, verifica-se um melhor desempenho relativo dos "leites fluidos" na comparação com os "produtos" (-4,3% e -7%, respectivamente). Como pode ser observado no gráfico 7, somente quatro itens apresentaram em 2003 uma performance superior à registrada no ciclo anterior: o iogurte (+21%), o doce de leite (+12%), o leite em pó desnatado (+10%) e os leites pasteurizados (+8%). Os produtos que sofreram as retrações mais importantes foram aqueles que, durante 2002, tiveram um desempenho excepcionalmente positivo, tais como os leites esterilizados, os queijos macios e a manteiga, cujas vendas acumuladas retrocederam em 2003 na ordem de 25% com relação ao ano anterior.


Se o volume dos produtos selecionados fosse expresso sob equivalente em litros de leite ao invés de em toneladas, poderia se observar que as vendas acumuladas sofreram uma queda global de aproximadamente 8% até dezembro, superior à indicada em termos de toneladas para o mesmo período de comparação .

Com relação ao mês anterior, as vendas totais das indústrias líderes cresceram em dezembro cerca de 1% em toneladas, valor que decompõe em altas de cerca de 0,5% e 3% para "leites fluidos" e "produtos", respectivamente.

2004

Estima-se que em janeiro de 2004 as vendas no mercado interno (em toneladas) foram 8% superiores às do ano anterior (ver gráficos 6 e 7).

A recuperação de 9,5% registrada nas vendas de "leites fluidos" - e explicada exclusivamente por um aumento de 16% nos leites pasteurizados - somou-se ao aumento de 1,4% observado em "produtos". Na comparação interanual, apesar de somente quatro das 10 categorias analisadas terem conseguido superar os níveis de vendas do ano anterior, a magnitude dos aumentos conseguiu atingir uma variação positiva no nível geral. Em termos percentuais, os aumentos mais significativos ocorreram em doce de leite (+35%), iogurtes (+27%) e o já consignado para leites pasteurizados.

C - SETOR EXTERNO

Em dezembro de 2003 foram exportadas cerca de 23,1 mil toneladas de produtos lácteos, por um valor de US$ 42,3 milhões. Estes dados representaram aumentos de 14% no volume e de 10% no valor, com relação ao mês anterior (ver gráfico 8). Em termos de volume, foram significativos os fortes aumentos nas vendas médias diárias de leite em pó integral (+36%), derivados do soro (+65%) e lactosoro (+33%), que, em seu conjunto, mais do que compensaram as quedas registradas pela maioria das demais categorias de importância no comércio argentino.


A redução de 14% no volume de vendas ao Brasil - a segunda consecutiva após quatro meses de aumentos - conseguiu ser compensada pela expansão de 19% registrada nas exportações aos demais destinos, sempre comparando as médias diárias de dezembro com as de novembro.

Comparando-se com o mesmo mês de 2002, no entanto, as exportações de dezembro de 2003 mostraram um aumento de 7% em volume que, por efeito do fortalecimento do preço médio obtido, conseguiram um aumento de 41% medido em volume, até alcançar um valor total sem antecedentes nos últimos 24 meses. Neste caso, o notável decréscimo interanual de 55% em volume das exportações ao principal sócio comercial da Argentina foi compensado pela expansão observada nos demais destinos (+29% em volume). No transcurso de 2003, as toneladas mensais das transações com o Brasil alcançaram os registros mínimos dos últimos oito anos e, em conseqüência, o acumulado dos doze meses de 2003 apresenta o valor mais baixo desde então.

Em um 2003 caracterizado pela trajetória declinante das exportações de lácteos, o aumento interanual dos totais de dezembro constituiu a segunda exceção, após a alta registrada em outubro.

Em termos gerais, poder-se-ia dizer que a partir de fevereiro de 2003, a melhoria das cotações médias obtidas contribuiu para atenuar as retrações no volume e, inclusive, desde setembro último conseguiu compensá-las e revertê-las a variações positivas em quantidade.

Segundo dados provisórios, as vendas externas acumuladas em 2003 alcançaram 163,5 mil toneladas e US$ 288 milhões, dados que são 23,5% e 7,5% menores do que os correspondentes a janeiro-dezembro de 2002.

O volume acumulado comercializado com o Brasil em 2003 (apenas 20% do total) retrocedeu 63% com relação ao ano anterior, enquanto que o correspondente aos demais destino foi 4,5% superior. Neste último grupo se destacam as altas das operações com Argélia (em 2003 o segundo mercado da Argentina depois do Brasil, +4% com relação a 2002), México (3o, +43%), Chile (4o, +98%), Estados Unidos (5o, +9%) e Venezuela (6o, +39%).

O forte impulso ocorrido nas exportações argentinas durante grande parte de 2002 sofreu uma progressiva aceleração devido a um conjunto dos seguintes fatores:

* A persistente redução da oferta doméstica que levou à alta do custo da principal matéria-prima da indústria, o leite cru;

* A forte recuperação dos preços atacadistas;

* A queda do tipo de câmbio nominal.

A título de exemplo, no gráfico 9 é apresentada uma idéia meramente orientadora do preço teórico obtido pela colocação alternativa de um quilo de leite em pó integral no mercado interno e no de exportação. A escolha deste produto se fundamenta no seu papel quase exclusivo no comércio exterior de lácteos, representando 50-60% dos volumes.


A evolução mais recente revela uma mudança na tendência a partir de agosto passado, com uma marcada redução da diferença entre ambas as opções. Assim, no período de agosto-dezembro de 2003, este indicador atingiu uma média de 42%, 16 pontos percentuais inferior à média registrada no período março-julho anterior, o que teria contribuído parcialmente com o aumento da tendência exportadora comentado anteriormente. A principal causa do "estreitamente" se encontra no comportamento do preço interno varejista que, em agosto de 2003, exibiu uma retração de 15% com relação ao mês anterior, para depois se estabilizar. A alternativa exportadora, no entanto, mostrou uma melhora progressiva, explicada em grande parte pela recuperação das cotações em dólares obtidas por commodity.

Já as análises das estatísticas brasileiras mostram um marcado decréscimo das importações de lácteos durante 2003. De fato, as compras totais do Brasil retrocederam 61% em volume e 55% em valor, com relação às registradas em 2002. Neste contexto, a participação da Argentina como fornecedor do Brasil caiu entre 6% e 7%, segundo análise em volume ou em valor, no mesmo período de comparação.

Entre as possíveis causas da chamativa queda das importações brasileiras de lácteos em 2003, podem ser citadas:

* Uma alta da ordem de 3% na recepção de leite dos estabelecimentos fiscalizados com relação ao ano anterior, o que aumentou a disponibilidade interna;

* O "esfriamento" da atividade econômica (em 2003, o Produto Interno Bruto - PIB - caiu cerca de 0,2% com relação a 2002), níveis recordes da ordem de 20% de desemprego, uma inflação varejista de 9,3% e uma retração acumulada do consumo privado doméstico de 3%;

* O aumento dos preços internacionais das commodities lácteas;

* Em um mercado já complicado, a redução da oferta exportável em vários fornecedores destacados (Argentina, Uruguai, Nova Zelândia e Austrália).

Os dados provisórios de janeiro de 2004 mostram a persistência da fase descendente, com uma queda de 61% em valor com relação aos dados de janeiro de 2003 e de 17% com relação às compras médias diárias de dezembro anterior.

2004

Em janeiro deste ano foram exportadas 16,7 mil toneladas de produtos lácteos, por um valor de US$ 32 milhões. Apesar destes dados representarem um aumento de 7% em volume e de 39% em valor, com relação ao primeiro mês de 2003, eles mostram retrações de 28% e 24%, em volume e em valor, respectivamente, com relação aos dados recordes de dezembro de 2003 (ver gráfico 8).

Como já é habitual na comparação interanual, em janeiro de 2004 a redução de 42% em volume de vendas ao Brasil - a décima terceira consecutiva - conseguiu ser mais do que compensada pela expansão de 20% registrada nos embarques aos demais destinos. Neste último caso, destacam-se os aumentos das exportações para a Argélia, que com um aumento interanual de 52%, substituiu o Brasil como principal destino em janeiro de 2004; e para o Chile que, com uma alta de 200%, substituiu o México no terceiro lugar do ranking.

Finalmente, é importante analisar as importações argentinas, um tema que desde o outono passado tem ganhado uma certa importância na agenda de negociações ente os diferentes membros da cadeia.

Vale destacar que a situação das importações na Argentina não é mais do que uma reação à realidade já comentada ao se considerar as vendas externas, ou seja, um cenário bastante diferente em 2003 com relação ao ano anterior: dólar em baixa e preços internos à saída da fábrica em contínuo aumento.

O fluxo importador de leite longa vida (UHT) teve início em abril de 2003 com compras recordes para o ano em torno de 1,2 milhão de litros, que após experimentar marcadas oscilações, foram interrompidas em outubro e totalizaram 4,7 milhões de litros em 2003. Como dado de referência vale indicar que as vendas no mercado interno deste produto, para a amostra de indústrias analisada para este informativo e que representam cerca de 70-75% do mercado de leite fluido, ficaram no mesmo período em torno de 282 milhões de litros, volume que sobe para 963 milhões se somados os correspondentes a leites pasteurizados.

Enquanto as importações de leite UHT sofreram flutuações negativas ao longo do ano de 2003, as correspondentes a leite fluido para uso industrial aumentaram de forma sustentada, passando de apenas 300 mil litros em maio para um máximo de 6 milhões de litros em outubro, para finalmente cair para 4,8 - 5 milhões tanto em novembro como em dezembro. O acumulado para este produto alcançou 29 milhões de litros anuais.

Em definitivo, durante 2003, as importações totais de lácteos ficaram em torno de 14 mil toneladas - expressando os leites fluidos em seu equivalente em leite em pó, assim como se faz com as exportações -, por um valor FOB de US$ 27 milhões. Em sua expressão em equivalentes em leite fluido, as compras totalizaram 74 milhões de litros neste período, menos de 1% da produção nacional do ano.

Em termos de volume, os principais produtos importados em 2003 foram os leites em pó (integral, desnatado e "maternizado" - 24,5%), os leites fluidos (24%), a manteiga (12%) e os lácteos fermentados com exceção do iogurte (12%).

As duas principais origens dos produtos importados pela Argentina foram o Uruguai (1o), de onde vieram quase todos os embarques de leite em pó integral, leite fluido, manteiga e queijos semiduros; e Brasil, principal fornecedor de lácteos fermentados. Ambos os países juntos representaram 84% do volume.

Preços de exportação

2003

O preço médio obtido pelas exportações argentinas de dezembro passado - cerca de US$ 1795 por tonelada - foi 29% superior ao registrado em dezembro de 2002, mas 3% menor do que o do mês anterior (ver gráfico 8).

Com relação aos detalhes por produto, as cotações das categorias mais significativas, leite em pó integral e desnatado, exibiram, em dezembro de 2003, aumentos de 40% e 32% respectivamente, com relação aos valores de dezembro do ano anterior.

A pequena baixa registrada na média obtida em dezembro contra o mês anterior, no entanto, se explica pela queda generalizada dos preços unitários dos principais produtos de exportação - com exceção do leite em pó desnatado e dos queijos semiduros - que se combinou com uma retração de 8% na participação dos queijos, um grupo de alto valor unitário.

Exemplificando, pode-se citar os valores obtidos em dezembro pela venda de leite em pó integral (US$ 1878/ tonelada) e de leite em pó desnatado (US$ 1687/tonelada), que significaram um retrocesso de 2% e uma recuperação de 15%, respectivamente, com relação às médias do mês anterior.

2004

O preço médio obtido pelas exportações argentinas em janeiro deste ano - cerca de US$ 1900/tonelada - foi 29% superior ao registrado em janeiro de 2002 e 6% maior do que o do mês anterior (ver gráfico 8).

No que tange detalhe por produto, as cotações das categorias mais significativas, leite em pó integral e desnatado, exibiram, em janeiro de 2004, aumentos de 3% e 4%, respectivamente, com relação aos valores de dezembro do ano anterior.

No caso do leite em pó integral - que teve um preço médio de US$ 1930/tonelada -, o aumento de janeiro com relação ao mês anterior foi pontualmente influenciado pela elevada participação das apresentações divididas em embalagens de conteúdo líquido inferior ou igual a dois quilos (vendidas a US$ 2020/tonelada), que representaram 50% do total correspondente ao primeiro mês do ano, enquanto que, em dezembro último, representaram apenas 29%.


Fontes consultadas:

* Convênio de Leiteria SAGPyA-CIL-FIEL.
* Direção da Indústria Alimentícia, SAGPyA.
* Comunicações pessoais com representantes da produção e da indústria.
* Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil.
* Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC).
* Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar (Senasa)
* Centro da Indústria Leiteira (CIL)
* Diários de alcance nacional e regional.
* Revistas e portais da internet especializados.
* Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA)

Fonte: Direção Nacional de Alimentação (www.alimentosargentinos.gov.ar), adaptado por Equipe MilkPoint
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