KPIs na pecuária de leite e a Lei de Goodhart: por que alguns indicadores distorcem a gestão das fazendas?

Na pecuária de leite, o uso crescente de KPIs nem sempre vem acompanhado de interpretação correta. Quando indicadores passam a ser tratados como metas absolutas, decisões equivocadas ganham espaço. Entenda como Lei de Goodhart ajuda a entender por que "bater números" pode comprometer eficiência, rentabilidade e sustentabilidade do sistema.

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A adoção de KPIs na pecuária de leite busca eficiência e previsibilidade, mas frequentemente resulta em mal-entendidos sobre suas limitações. A Lei de Goodhart alerta que quando um indicador se torna meta, ele perde sua eficácia. Indicadores isolados, como produção diária de leite, podem levar a decisões prejudiciais. A gestão deve focar em um conjunto reduzido de KPIs interligados e usá-los como diagnóstico, não como alvos fixos, para evitar distorções e promover melhorias reais no sistema.

A adoção de indicadores de desempenho (KPIs) tem se tornado cada vez mais comum na pecuária de leite, especialmente em sistemas que buscam profissionalização, eficiência técnica e previsibilidade econômica. Entretanto, o avanço no uso de métricas não tem sido necessariamente acompanhado por uma compreensão adequada de seus limites. Em muitos casos, indicadores passam a ocupar um papel central no processo de gestão, mas são utilizados de maneira equivocada — produzindo decisões que distorcem a realidade operacional e econômica da fazenda. Esse fenômeno foi descrito há mais de cinquenta anos pelo economista britânico Charles Goodhart e possui implicações diretas para a atividade leiteira.

Na década de 1970, Goodhart analisava como o Banco da Inglaterra definia metas monetárias para tentar controlar a economia britânica. A observação empírica demonstrava que, quando uma métrica específica era transformada em alvo, os agentes econômicos ajustavam seu comportamento para cumpri-la, e não para corrigir o problema subjacente. Assim, a métrica deixava de refletir a realidade que deveria medir. Essa dinâmica foi consolidada na formulação conhecida como Lei de Goodhart, sintetizada da seguinte maneira: “Quando uma medida se torna um alvo, ela deixa de ser uma boa medida” (Goodhart, 1975).

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A lógica por trás da lei é relativamente simples: quando um indicador passa a ser utilizado como base de recompensa, punição ou tomada de decisão de curto prazo, surge um incentivo natural para “bater a meta”, ainda que às custas de práticas que deterioram o sistema no longo prazo. A economia, a educação e até mesmo plataformas digitais apresentam exemplos clássicos desse fenômeno. Na pecuária de leite, esse comportamento também ocorre e é mais comum do que se imagina.

Quando o indicador central da fazenda é a produção diária de leite por vaca, por exemplo, torna-se frequente o aumento excessivo de concentrado na dieta, mesmo quando o retorno marginal sobre a alimentação (IOFC) se deteriora. Do mesmo modo, ao priorizar exclusivamente a redução da contagem de células somáticas (CCS), observa-se a adoção de medidas paliativas para melhorar momentaneamente o número, sem resolver falhas de manejo, higiene e sanidade do úbere.

Em sistemas reprodutivos, a busca por taxas de prenhez elevadas pode levar a práticas de inseminação em vacas fora da adequada condição corporal, comprometendo longevidade e desempenho de lactações futuras. Tais situações refletem exatamente o princípio descrito por Goodhart: métricas que, quando isoladas e transformadas em objetivos absolutivos, deixam de expressar qualidade, eficiência ou lucratividade.

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A literatura técnica reforça que a pecuária leiteira deve trabalhar com indicadores que capturem o desempenho do processo e não apenas resultados imediatos. De acordo com Romanini et al. (2019), KPIs eficientemente estruturados precisam refletir eficiência biológica, sustentabilidade financeira e estabilidade sanitária do rebanho. Entre os indicadores mais robustos estão: produção por vaca, produção de sólidos, CCS, custo de produção, IOFC, taxa de prenhez e idade ao primeiro parto. Esses indicadores não podem ser interpretados isoladamente – eles compõem um sistema interligado no qual mudanças em um componente modificam o desempenho dos demais (Hady & Domecq, 2018; Bewley et al., 2020).

Um desafio recorrente é o excesso de indicadores. A multiplicação de métricas fragmenta o foco gerencial e gera “ruído analítico”, dificultando decisões estratégicas. Trabalhar com um conjunto reduzido de KPIs — geralmente entre seis e oito — aumenta a capacidade de monitoramento e interpretação de tendências. Segundo Moran et al. (2020), a consistência temporal é um fator determinante: indicadores devem ser avaliados mensalmente ou trimestralmente, sempre considerando tendências e não apenas valores absolutos.

Outro ponto crítico é a interpretação equivocada de metas de curto prazo. A literatura sobre gestão de sistemas complexos demonstra que melhorias reais ocorrem quando os indicadores são tratados como instrumentos de diagnóstico, e não como alvos fixos (Meadows, 2008). Na pecuária leiteira, isso significa utilizar KPIs para identificar padrões, antecipar riscos e direcionar decisões estruturais — como ajustes de dieta, investimentos em conforto, capacitação de mão de obra, reorganização de lotes ou revisão das estratégias reprodutivas. Quando o foco se desloca para “bater o número”, a gestão se torna reativa, imediatista e altamente vulnerável a distorções.

A Lei de Goodhart oferece, portanto, um alerta importante para o setor. Ela não sugere que devamos abandonar os indicadores, mas sim utilizá-los com criticidade e consciência de suas limitações. Um bom KPI é aquele que exige melhora do processo para que o número cresça. Um indicador que pode ser manipulado sem melhoria real deixa de ser ferramenta e passa a ser ilusão.

Em síntese, a pecuária de leite contemporânea exige um modelo de gestão baseado em indicadores confiáveis, analisados dentro de um sistema integrado de produção. Métricas isoladas, metas desconectadas da realidade ou indicadores facilmente manipuláveis são incompatíveis com sistemas de alta performance. A incorporação consciente da Lei de Goodhart permite ao produtor reconhecer as armadilhas da gestão por números e avançar para um modelo no qual o indicador deixa de ser o fim e volta a ser o meio — um instrumento para apoiar decisões de impacto técnico e econômico.

Referências bibliográficas

Bewley, J., Black, R., & Taraba, J. (2020). Monitoring and managing dairy herd performance. Journal of Dairy Science, 103(7), 5871–5884.

Goodhart, C. (1975). Problems of Monetary Management: The U.K. Experience. Papers in Monetary Economics.

Hady, P., & Domecq, J. (2018). Key performance indicators in dairy herd management. The Professional Animal Scientist, 34(2), 213–224.

Meadows, D. (2008). Thinking in Systems: A Primer. Chelsea Green Publishing.

Moran, J., Garrett, J., & Tranter, B. (2020). Dairy herd KPI systems: interpretation and application. International Dairy Journal, 105, 104687.

Romanini, E., et al. (2019). Indicadores de desempenho na pecuária leiteira: fundamentos, aplicações e limites. Revista Brasileira de Zootecnia, 48(e20180217).

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Material escrito por:

TIMOTHEO SOUZA SILVEIRA

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