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Qual o caminho para o uso consciente e responsável de antimicrobianos em rebanhos leiteiros?

VÁRIOS AUTORES

PPGCTLD/UFJF

EM 27/06/2024

8 MIN DE LEITURA

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Os antimicrobianos têm sido utilizados para o tratamento de doenças bacterianas há mais de 100 anos, mas a sua eficácia está ameaçada devido ao surgimento da resistência a este tipo de medicamento. Embora alguns gêneros de bactérias sejam naturalmente resistentes a algumas classes de antimicrobianos, a sua utilização, principalmente sem critérios previamente definidos, pode selecionar o crescimento de cepas resistentes que anteriormente eram susceptíveis (Hoelzer et al., 2017; Tang et al., 2017).

Nas fazendas de leite, os antimicrobianos são usados no tratamento de doenças bacterianas que reduzem o bem-estar animal e a eficiência produtiva (Ruegg, 2017). A mastite clínica é a doença mais comumente relatada em bovinos leiteiros nos Estados Unidos, afetando cerca de 25% das vacas  durante suas vidas produtivas (USDA, 2018; Gonçalves et al., 2022). Outras doenças causadas por bactérias também podem ser tratadas com antimicrobianos, conforme Tabela 1.

Tabela 1. Frequência de ocorrência das doenças que podem ser usados antimicrobianos de acordo com categoria de idade e manifestação clínica

 

Ordem

Categoria de idade

Manifestação clínica

Frequência

1

Vaca

Mastite

25%

2

Vaca

Metrite / Endometrite*

7% a 11%

3

Vaca

Doenças respiratórias

3%

4

Bezerro

Diarreia

-

5

Bezerro

Doença respiratória

-

* 5% a 8% das vacas apresentam retenção de placenta
Fonte: Rueg, 2017

 

O uso consciente e responsável de antimicrobianos refere-se às ações proativas tomadas para preservar a eficácia dos antimicrobianos, a prevenção de doenças bacterianas e o uso de protocolos de tratamento baseados em evidências. Estas evidências podem ser exemplificas como conhecer a causa da infecção que será tratada por meio de exames microbiológicos onde se identifica de preferência o gênero e a espécie bacteriana. Se houver também a evidência do perfil de resistência do agente bacteriano de acordo com classes e moléculas dos antimicrobianos, o tratamento pode ter mais sucesso na eliminação da infecção.

Entretanto, a avaliação da situação clínica pelo médico veterinário é fundamental para tomada de decisão em relação a realização ou não do tratamento (Figura 1). Caso o tratamento com antimicrobianos seja a decisão do médico veterinário, este ainda precisa definir qual o principio ativo utilizar, a frequência e o tempo de tratamento e a concentração da dose a ser utilizada. 

Figura 1. Uso consciente e responsável de antimicrobianos (ATM) levando em consideração evidências do agente etiológico, perfil de resistência e avaliação clínica

 Uso consciente e responsável de antimicrobianos (ATM) levando em consideração evidências do agente etiológico, perfil de resistência e avaliação clínica

A capacidade de implementar o uso consciente e responsável de antimicrobiano baseia-se no reconhecimento da utilização apropriada dos antimicrobianos, bem como na compreensão dos benefícios de participar de tais programas (Ruegg, 2022). Contudo, o maior desafio no uso de antimicrobianos nas fazendas leiteiras é quando o produtor (ou o funcionário) toma as decisões sem recorrer ao médico veterinário (USDA, 2017).

Weese et al. (2013), definiram os 5 princípios do uso consciente e responsável de antimicrobiano para a medicina veterinária, que pode ser considerado um caminho estratégico. Estes princípios são a responsabilidade, uma vez que existem várias formas de garantir uma comunicação entre as partes interessadas, como por exemplo a apresentação de resultados da contagem de células somáticas.

A redução no uso exige argumentos para avaliação de possíveis abordagens que diminuam o uso de antimicrobianos, que incluem seleção genética para resistência a doenças, uso de vacinas, identificação e redução de fatores de risco e avaliação medição da prática atual.

A substituição do uso de antimicrobianos por medidas alternativas não antimicrobianas, sempre que possível é apropriado. O refinamento, dado que, os testes de diagnóstico baseados em cultura microbiológica, ou os dados da contagem de células somática e isolamento do agente etiológico por meio de exames microbiológicos, podem ser utilizados para orientar quanto ao uso do tratamento seletivo no rebanho. Finalmente, a revisão que inclui a medição do progresso em direção ao objetivo.

A mastite é a doença bacteriana mais comum das vacas leiteiras e pequenas mudanças nos protocolos de tratamento para a mastite clínica e na secagem para a mastite subclínica podem resultar em reduções consideráveis no uso de antimicrobianos sem comprometer a saúde do animal. Contudo, em muitas fazendas, a mastite é tratada sintomaticamente sem conhecimento do agente etiológico e muitos destes tratamentos são desnecessários (Ruegg, 2017; Ruegg, 2018; Ruegg, 2020).

O tratamento seletivo da mastite clínica e a terapia da vaca seca seletiva são alternativas interessantes que tem como finalidade tratar os casos de infecção intramamária de forma consciente e responsável, reduzindo o uso de antimicrobianos e, como consequência, retardando o surgimento de cepas resistentes aos antimicrobianos e diminuição da ocorrência de resíduos no leite (McCubbin et al., 2022). Para isto, é necessário a identificação do patógeno que está causando a mastite, por meio do diagnóstico microbiológico e, a partir deste resultado, pode-se determinar o tratamento, conforme mostra a figura 2 (Brito, 2009), pois os casos de mastite clínica de grau leve e moderado, causadas por bactérias Gram-negativas, ou que não tiveram crescimento bacteriano, não tem recomendação de uso de antimicrobianos (Leininger et al., 2003; Brito, 2009; Schmenger e Krömker, 2020).

Contudo, se a bactéria isolada for Gram-positiva deve-se utilizar antimicrobiano no tratamento, visto que é um agente capaz de causar um processo inflamatório moderado e muitas vezes o organismo não reage de forma eficiente (Lago et al., 2011; Ruegg, 2018; Bates et al., 2020).

Figura 2. Modelo de protocolo de terapia seletiva para mastite clínica.

Modelo de protocolo de terapia seletiva para mastite clínica.

Fonte: Elabora pelo autor, 2023.

 

Portanto, nem todos os casos clínicos e subclínicos de doenças são solucionados com tratamento com antimicrobianos. O tratamento dos animais pode ser necessário, mas o atendimento a determinados pontos, como identificação do patógeno, perfil de resistência e acurada avaliação clínica são pontos fundamentais para o sucesso do tratamento sem promover a resistência destes patógenos aos antimicrobianos. Neste contexto, deve ser dada uma atenção especial ao uso consciente e responsável de antimicrobiano na criação de bovinos leiteiros, a fim de diminuir o risco de surgimento de cepas resistentes.

 

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Autores

Ana Flávia Novaes Gomes - Aluna no programa de Pós-graduação em Ciências e Tecnologia do Leite e Derivados.

Carla Christine Lange - Pesquisador em Saúde Animal e Qualidade do Leite na Embrapa Gado de Leite e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências e Tecnologia do Leite e Derivados.

Alessandro de Sá Guimarães - Pesquisador em Saúde Animal e Qualidade do Leite na Embrapa Gado de Leite e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias Universidade Federal de Lavras.

Guilherme Nunes de Souza - Pesquisador em Saúde Animal e Qualidade do Leite na Embrapa Gado de Leite e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências e Tecnologia do Leite e Derivados.

 

Referências bibliográficas

AABP. AABP Guidelines: Key Elements for Implementing Antimicrobial Stewardship Plans in Bovine Veterinary Practices Working with Beef and Dairy Operations. American Association of Bovine Practitioners; Ashland, OH, USA: 2022

BATES, A.; LAVEN, R.; BORK, O.; HAY, M.; MCDOWELL, J.; SALDIAS, B.; Selective and deferred treatment of clinical mastitis in seven New Zealand dairy herds. Preventive Veterinary Medicine, v.175, 2020.

BRITO, M. A. V. P. Diagnóstico Microbiológico da Mastite Bovina. Ciência Animal Brasileira, Goiânia, v. 1, 2009.

DE CAMPOS, J. L.; KATES, A.; STEINBERGER, A.; SETHI, A.; SUEN,G.; SHUTSKE,J.; SAFDAR, N.; GALDBERG, T.; RUEGG, P. L. Quantification of antimicrobial usage in adult cows and preweaned calves on 40 large Wisconsin dairy farms using dose-based and mass-based metrics. Journal Dairy Science, v.104, n.4, p. 4727–4745, 2021.

HOELZER, K.; WONG, N.; THOMAS, J.; TALKINGTON, K.; JUNGMAN, E.; COUKELL, A. Antimicrobial drug use in food-producing animals and associated human health risks: What, and how strong, is the evidence? BMC Veterinary Research, v.13,n211, 2017. 

LAGO, A. ; GODDEN, S. M.; BEY, R.; RUEGG, P. L.; LESLIE, K. The selective treatment of clinical mastitis based on on-farm culture results: II. Effects on lactation performance, including clinical mastitis recurrence, somatic cell count, milk production, and cow survival. Journal of Dairy Science, v. 94, n. 9, p. 4457-4467, 2011.

LEININGER, D.J.; ROBERSON, J. R.; ELVINGER, F.; WARD, D.; AKERS, R.M. Evaluation of frequent milkout for treatment of cows with experimentally induced Escherichia coli mastitis. Journal of the American Veterinary Medical Association, v.222, p.63–66, 2003.

MCCUBBIN, K. D.; DE JONG, E.; LAM, T. J. G. M.; KELTON, D. F.; MIDDLETON, J. R.; MACDOUGALL, S.; DE VLIEGHER, S.; GODDEN, S.; RAJALASCHULTZ, P. J.; ROWE, S.; SPEKSNIJDER, D. C.; KASTELIC, J. P.; BARKEMA, H. W. Invited review: Selective use of antimicrobials in dairy cattle at drying-off. Journal of Dairy Science, v. 105, p.7161–7189, 2022.

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RUEGG, P.L. Making Antibiotic Treatment Decisions for Clinical Mastitis. Vet. Clin. N. Am. Food Animal Practice, v. 34, p.413–425, 2018.

 RUEGG, P.L. Minimizing development of antimicrobial resistance on dairy farms through appropriate use of antibiotics for treatment of mastitis. In: Van Belzen N., editor. Achieving Sustainable Production of Cow’s Milk. Volume 2 Burleigh Dodds; Belgium: 2017.

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SCHEMENGER, A.; KRÖMKER, V. Characterization, cure rates and associated risks of clinical mastitis in Northern Germany. Veterinary Sciences, v.7, n.4, 2020.

TANG, K.L.; CAFFREY, N.P.; NÓBREGA, D.B.; CORK, S.C.; RONKSLEY, P.E.; BARKEMA, H.W.; POLACHEK, A.J.; GANSHORN, H.; SHARMA, N.; KELLNER, J.D.; GHALI, W. A. Restricting the use of antibiotics in food-producing animals and its associations with antibiotic resistance in food-producing animals and human beings: A systematic review and meta-analysis. The Lancet Planetary Health, v1, p.e316–e327, 2017.

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Weese J.S., Page S.W., Prescott J.F. Antimicrobial stewardship in animals. In: Giguere S., Prescott J.F., Dowling P.M., editors. Antimicrobial Therapy. Wiley Blackwell; Ames, IA, USA: 2013. pp. 117–133.

ANA FLÁVIA NOVAES GOMES

Aluna no programa de Pós-graduação em Ciências e Tecnologia do Leite e Derivados

CARLA CHRISTINE LANGE

Pesquisador em Saúde Animal e Qualidade do Leite na Embrapa Gado de Leite e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências e Tecnologia do Leite e Derivados

ALESSANDRO DE SÁ GUIMARAES

GUILHERME NUNES DE SOUZA

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