Antes dos anos 80 e até meados de 84, a agricultura na Nova Zelândia era fortemente subsidiada. O modelo econômico vigente baseava-se em fazendas altamente protegidas e dependentes do governo, nas quais se garantiam preços mínimos de exportação, subsídios por cabeça animal, assim como fertilizantes e empréstimos a juros baixíssimos, a fim de manter a estabilidade da produção rural. Um sistema frágil, porém factível enquanto o contexto externo o favorecia, alavancado principalmente pela forte relação comercial com o Reino Unido.
Tais subsídios, no entanto, geravam distorções gravíssimas, como, por exemplo, um rebanho ovino de 70 milhões de cabeças (em um país do tamanho do estado de São Paulo), a utilização de áreas marginais sem aptidão agrícola, a produção extensiva e a baixa eficiência produtiva, o que levou o país à “Era das Ovelhas Magras”.
As distorcidas falhas desse sistema vieram de vez à tona quando o Reino Unido ingressou na Comunidade Econômica Europeia, fazendo com que a NZ perdesse os privilégios de acesso ao seu principal mercado. Além disso, a alta inflação, as dívidas crescentes e a baixa movimentação econômica interna mostravam que o sistema não só era insustentável, como também estava em pleno colapso. A NZ tinha uma produção agrícola orientada por políticas, e não por sinais do mercado.
Eis que, diante de um cenário catastrófico, o então Ministro de Finanças da Nova Zelândia, Roger Douglas, toma uma medida drástica. Durante o quarto Labour Government, Mr. Douglas consegue aprovar uma reforma econômica radical e neoliberal, baseada na desregulamentação, na privatização, no livre mercado e no fim dos subsídios rurais.
Chamada de “Rogernomics”, essa mudança não foi gradual, mas sim rápida, precisa e contundente. No campo, o choque foi direto: o valor das terras despencou, receita média caiu ~30%, juros de empréstimos subiram para a casa dos 20%, e diversas fazendas se mostraram financeiramente inviáveis. Muitos produtores faliram, ondas de protesto começaram, e um estresse social tomou conta do país.
Porém, no meio de tamanha crise, alguns produtores entenderam que era necessário se adaptar - e com urgência!
Começa assim a criação de uma estrutura que ainda manda no agro neozelandês. Tanto na ovinocultura quanto na bovinocultura de leite ou de corte, a regra agora é se profissionalizar, intensificar e abranger diversas áreas do conhecimento rural. A busca por eficiência, escala e gestão são condições básicas de sobrevivência.
Toda essa mudança culmina no atual modelo de produção leiteira do país: bovinocultura de leite a pasto, adaptada à geografia, ao clima, à aptidão e à cultura do país, ultraintensiva e tecnificada, e auxiliada por organizações de suporte ao produtor rural, criadas, coorganizadas ou colideradas pelos próprios produtores.
De cooperativas de leite (Fonterra, Westland, Tatua), a instituições de pesquisa e extensão (DairyNZ, Federated Farmers), serviços e genética (LIC, CRV Ambreed) até instituições financeiras com foco rural (RaboBank).
A lição que fica é clara: quando os subsídios se foram, apenas os mais eficientes e abertos a mudanças e ao cooperativismo sobreviveram. A crise forçou uma reforma, que forçou a eficiência, e a eficiência fez a NZ ser o que é: a potência mundial dominante no setor leiteiro.
Fonte adaptada, Inside Dairy August-October 2025