Novas estratégias para o tratamento da mastite bovina - parte 2
Qualidade do leite: As baixas taxas de cura dos tratamentos convencionais durante a lactação, em especial para tratamento de infecções crônicas causadas por Staphylococcus aureus, têm estimulado a busca de novas estratégias de tratamento, entre as quais destacam-se a terapia combinada, a terapia estendida e o uso combinado de vacinação e tratamento intramamário. Por Marcos Veiga dos Santos (Professor USP)
As baixas taxas de cura dos tratamentos convencionais durante a lactação, em especial para tratamento de infecções crônicas causadas por Staphylococcus aureus, têm estimulado a busca de novas estratégias de tratamento, entre as quais destacam-se a terapia combinada, a terapia estendida e o uso combinado de vacinação e tratamento intramamário. Essas estratégias, mesmo com maiores custos, podem ser viáveis em situações nas quais os rebanhos apresentam alta prevalência de infecções crônicas. Para tanto, a viabilidade de uso destes protocolos de tratamento deve levar em conta fatores ligados à vaca (idade, estágio de lactação, CCS antes do tratamento).
Terapia combinada
Os antimicrobianos empregados para o tratamento de mastite durante a lactação podem ser administrados por via sistêmica ou intramamária. As principais vantagens do tratamento intramamário é a elevada concentração da droga no leite após a infusão e o baixo consumo de antibiótico. No entanto, pela via intramamária a droga não penetra em regiões mais profundas do úbere. Para os antimicrobianos administrados por via sistêmica, é necessário que a droga se difunda passivamente para a glândula mamária, atue na presença de leite e de debris inflamatórios e mantenha concentrações inibitórias mínimas. Dessa maneira, o objetivo da terapia é manter maior concentração de antibióticos no quarto afetado por um período suficiente para eliminar o agente causador.
Para tratamentos intramamários, os princípios ativos que são ácidos fracos (amoxicilina, cefapirina, penicilina) apresentam melhor distribuição na glândula mamária do que as bases fracas (diidroestreptomicina, eritromicina, pirlimicina), pois uma maior concentração da droga está na forma não-ionizada no leite. Por outro lado, para administração sistêmica de antibióticos para tratamento de mastite, as bases fracas são preferidas, pois no plasma uma maior concentração da droga está na forma não ionizada, o que permite maior passagem do plasma para o leite.
Para casos de mastite crônica, o uso combinado de terapia intramamária e sistêmica de antibióticos aumenta as concentrações da droga nos locais da infecção e, por consequência, aumenta as taxas de cura. Foram avaliados dois protocolos de tratamento para mastite causada por S. aureus: infusão intramamária de 62,5 mg de amoxicilina por 3 dias ou a mesma infusão intramária mais injeção intramuscular de penicilina G por 3 dias. Os resultados indicaram que houve aumento da taxa de cura de 25% (tratamento intramamário) para 51,4% (terapia combinada). Adicionalmente, ocorreu maior redução da contagem de células somáticas do leite de quartos sob regime de terapia combinada, quando comparada ao tratamento intramamário. A taxa de cura de mastite clínica causada por S. aureus aumenta de 40% (tratamento intramamário, 3 dias de duração) para 60% (terapia combinada).
Terapia estendida
A duração do tratamento é um importante fator que influencia o resultado do tratamento. O estágio de lactação é outro importante fator que determina a relação custo:benefício do tratamento, pois mesmo em casos com alta probabilidade de cura, vacas em final de lactação apresentam menor potencial de retorno econômico que aquelas em início de lactação.
A terapia estendida consiste no aumento da duração do tratamento intramamário (5 a 8 dias), em relação ao tratamento convencional de 3-4 dias de duração. Em uma recente revisão sobre estimativa de cura bacteriológica da mastite clínica, em função do tipo de agente causador e da duração do tratamento, foram estimadas taxas de cura em função da duração do tratamento, em vacas adultas com mastite clínica causada por S. aureus de 10% (2 dias), 20% (5 dias) e 35% (8 dias). As vacas primíparas apresentam maiores taxas de cura, em média 5 unidades percentuais, que vacas adultas. Para estreptococos ambientais, as taxas de cura estimadas foram: 25% (sem tratamento), 55% (2 dias), 65% (5 dias) e 75% (8 dias). Para o grupo dos estafilococos coagulase-negativa, as taxas de cura estimadas foram: 55% (sem tratamento), 70% (2 dias), 75% (5 dias) e 80% (8 dias). Estima-se que as taxas de cura para mastite causada por S. aureus aumentam em 25 unidades percentuais quando a duração do tratamento intramamários passou e 3 para 5 dias.
Entre os potenciais benefícios da terapia estendida, pode-se citar a redução da contagem de células somáticas, a melhoria da qualidade do leite e o aumento da produção leiteira. Esses benefícios devem ser analisados, no entanto, em relação aos custos do antibiótico, descarte de leite com resíduos e riscos de infecção pelo uso de infusões repetidas no mesmo quarto. O aumento da duração da terapia aumenta a cura bacteriológica de mastite causada por S. aureus e estreptococos ambientais, contudo o uso como rotina sem prévia conhecimento do agente causador não é economicamente viável, em razão do aumento do descarte do leite e do custo do antibiótico.
As maiores perdas associadas com a mastite clínica são as perdas de produção e o leite descartado com resíduos de antibiótico, ainda que, em algumas situações, a morte do animal seja a perda mais considerável.
Vacinação combinada com tratamento intramamário
O uso combinado de vacinação e tratamento intramamário em vacas com mastite crônica causada por S. aureus objetiva a estimulação do sistema imune, de forma a aumentar a capacidade da vaca de eliminação das infecções existentes.
Em um estudo foi avaliado o uso do tratamento intramamário com pirlimicina por 5 dias em conjunto com a vacinação com bacterina de S. aureus, em 50 vacas com mastite crônica causada de S. aureus. O vacas do grupo tratamento receberam 3 doses de vacina contra S. aureus aos 1, 15 e 21 dias do início do estudo e tratamento intramamário com pirlimicina por cinco dias (16o a 20o dia do estudo). As vacas do grupo controle não receberam nenhum tratamento. A avaliação do tratamento foi feita por coleta de amostras de leite para cultura microbiológica, durante 3 meses após o tratamento. Os resultados indicaram taxa de eliminação de 40% das infecções crônicas nas vacas tratadas, enquanto somente 9% das vacas do grupo controle apresentaram cura espontânea.
Uso de cultura bacteriológica na fazenda
Programas de tratamento baseados em culturas bacteriológicas na própria fazenda têm sido avaliadas para diferenciar mais rapidamente o agente causador (Gram negativo ou positivo) da mastite clínica, e desta forma, direcionar o melhor protocolo de tratamento a ser usado. Nestes programas o uso de antimicrobianos é indicado para vacas com casos clínicos leves e moderados e com resultado de cultura positivo para microrganismos Gram positivos, enquanto casos com isolamento de Gram negativos ou sem crescimento não são tratados com antimicrobianos. Desta forma, busca-se reduzir o uso de antibióticos e diminuir os dias de descarte do leite.
Fonte: originalmente publicado em
SANTOS, M. V., TOMAZI, T., GONÇALVES, J.L. Novas estratégias para o tratamento da mastite bovina In: IX Congresso Brasileiro Buiatria. 04 a 07/10/2011, Goiânia-GO. Vet. e Zootec. 2011 dez.18 (4 Supl. 3) -. v.18. p.131 – 137, 2011.
*Mestrando do Programa de Pós-graduação em Nutrição e Produção Animal, FMVZ-USP
Material escrito por:
Marcos Veiga Santos
Professor Associado da FMVZ-USP Qualileite/FMVZ-USP Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225 Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP Pirassununga-SP 13635-900 19 3565 4260
Acessar todos os materiaisJuliano Leonel Gonçalves
Professor contratado do Departamento de Nutrição e Produção Animal (VNP), Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Universidade de São Paulo (USP)
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PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 15/01/2016
Caso tenha interesse em trabalhar com este assunto entre em contato direto no meu email para conhecer o nosso projeto que está sendo desenvolvido, pois estamos trabalhando com algumas parcerias com fazendas que tem interesse neste projeto.
Atenciosamente, Marcos Veiga
SANTA JULIANA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 15/01/2016
Obrigada!

BATAGUASSU - MATO GROSSO DO SUL
EM 28/10/2015
PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 19/08/2015
https://copy.com/y3vUP06Dun0ZvqdU
Atenciosamente, Marcos Veiga

GUARATINGUETÁ - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 19/08/2015
PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 05/02/2015
Quando a vaca perde o quarto mamário, existe uma perda de produção daquele quarto (geralmente a perda é maior quando o quarto é posterior).
Na minha opinião, vai depender de cada rebanho se uma vaca com 3 quartos é ou não interessante de ser mantida, pois vai depender da média de produção de leite da vaca, da genética e da média do rebanho. Em algumas situações, uma vacas de 3 quartos, que produz pelo menos igual a média do rebanho, seria interessante de ser mantida no rebanho.
A perda de produção do quarto mamário não afeta os demais quartos, pois todos os quartos são separados e independentes em termos de produção de leite.
Sobre o valor comercial da vaca, mais uma vez é difícil generalizar, pois vai depender da produção da vaca e das demais características (idade e demais problemas que a vaca possa ter).
Atenciosamente, Marcos Veiga

CONTAGEM - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 05/02/2015
Fiz seu curso "aumente o lucro com o controle de mastite" e não foi destacado o que se perde quando uma vaca perde um teto ou mais.
1) É viável mantê-la no rebanho só para produção de leite, descartando a possibilidade desta vaca ser doadora de embrião.
2) A vaca passa a produção do teto perdido para os tetos sadios??
3) Qual o valor comercial desta vaca que perde teto??
PIRACICABA - SÃO PAULO
EM 11/10/2013
Inscrições abertas no site: http://www.agripoint.com.br/curso/mastite/
PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 11/10/2013
Prezado Caio,
O tratamento de S. aureus é muito frustrante, pois na maioria das vezes os resultados não são positivos. Por isso, que muitos estudos tentam buscar protocolos alternativos (terapia combinada e estendida) para o tratamento de vacas com mastite crônica, causada por este agente.
Em relação à sua pergunta, é possível que a vaca ainda tenha mastite por S. aureus, pois para considerar uma vaca negativa somente após três resultados negativos em culturas na sequencia. Sendo assim, eu considero que a vaca ainda tem grande chance de estar infectada com S. aureus.
Eu vejo que o tratamento pela terapia estendida seria recomendada comente para animais jovens (1a lactação) e no início da lactação, pois estes animais teriam mais chance de cura. Vacas mais velhas ou com histórico de mastite crônica, eu não recomendaria o tratamento.
Atenciosamente, Marcos Veiga
PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 11/10/2013
o usuário Caio Gomes (Iperó - São Paulo - Produção de leite (de vaca)) visitou seu post Novas estratégias para o tratamento da mastite bovina - parte 2 e adicionou o seguinte comentário:
Professor Marcos, em um dos links que voce compartilhou em um comentário, fala-se sobre o OFC, On-Farm Culturing. Não entendi qual seria o aparelho utilizado para essa cultura "caseira".
Tenho outra dúvida. Por qual motivo um animal que em Junho/13 foi diagnosticado com a Aureus chega a Setembro/13 sem esse diagnóstico? Cura Espontanea ou CEPA pequena?
Outra dúvida, estou lendo tudo que o MilkPoint disponibiliza sobre Staphylococcus Aureus, e percebo que voce é autor da maioria dos textos. Dentre eles percebo uma frustração em alguns momentos, apresentando resultados nulos na conclusão de artigos sobre a cura desse agente, e em alguns, com números bem expressivos e positivos, como nesse em que eu comento, que sugere que com a Terapia Extendida a taxa de cura chegaria a até 35% dos animais.
Como lhe falei através de outro comentário ontem, estou com um início de disseminação de Aureus, com 5 animais em meu rebanho contaminados, todos em pico de leite.
A dúvida é: TRATAR OU NÃO, Professor?
IPERÓ - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 11/10/2013
Tenho outra dúvida. Por qual motivo um animal que em Junho/13 foi diagnosticado com a Aureus chega a Setembro/13 sem esse diagnóstico? Cura Espontanea ou CEPA pequena?
Outra dúvida, estou lendo tudo que o MilkPoint disponibiliza sobre Staphylococcus Aureus, e percebo que voce é autor da maioria dos textos. Dentre eles percebo uma frustração em alguns momentos, apresentando resultados nulos na conclusão de artigos sobre a cura desse agente, e em alguns, com números bem expressivos e positivos, como nesse em que eu comento, que sugere que com a Terapia Extendida a taxa de cura chegaria a até 35% dos animais.
Como lhe falei através de outro comentário ontem, estou com um início de disseminação de Aureus, com 5 animais em meu rebanho contaminados, todos em pico de leite.
A dúvida é: TRATAR OU NÃO, Professor?
PASSO FUNDO - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 30/09/2013
Abraço!
PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 30/09/2013
Caso não eu não tenha entendido bem a pergunta, por favor, me avise, atenciosamente, Marcos Veiga
PASSO FUNDO - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 30/09/2013
Minha dúvida é quanto ao número de dias após o tratamento que uma vaca sem mastite no mesmo quarto mamário pode ser considerada curada (clinicamente).
Agradeço.

BARRA DO OURO - TOCANTINS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 13/07/2013
PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 24/03/2013
neste caso, eu realmente não tenho conhecimento sobre este antibiótico em específico, mas acredito que não tenha aprovação ou recomendação para uso intramamário.
Infelizmente, no caso de S. aureus, na grande maioria das vezes o problema da ausência de resposta não está no antibiótico e sim em fatores ligados à vaca e a cronicidade da infecção.
Atenciosamente, Marcos Veiga

GUARANI - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 24/03/2013
primeiramente parabens pelos seus trabalhos.
meu nome é sergio e tenho probemas com mastites em meu sitio.
gostaria de saber se já foi usado rifocina tanto intramamario quanto sistemico para uso em
S.Aureus,vistos que estes formam biofilme em suas infecções dificultando a entrada do antibiotico.
grato
sazevedo@ar.microlink.com.br
PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 11/12/2012
https://www.google.com/url?q=http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/11/11139/tde-17072008-142038/publico/anacarolinarodrigues.pdf&sa=U&ei=-w_HUKPOE4vq8gSx1oGoDg&ved=0CBAQFjAD&client=internal-uds-cse&usg=AFQjCNGy-UclWqwjKHWPnaDpOueC2JJM6w
http://www.wdmc.org/2009/On%20Farm%20Culturing%20for%20Better%20Milk%20Quality.pdf
http://www.wcds.ca/proc/2011/Manuscripts/Keefe.pdf
Atenciosamente, Marcos Veiga

ARAÇATUBA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 11/12/2012
Achei muito interessante o método de cultura bacteriológica na fazenda, já que pode reduzir o custo com medicamentos e descarte do leite.
Gostaria de mais informações de como é feita esta cultura na fazenda e os equipamentos necessários
Desde já agradeço
PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 08/05/2012
O tratamento intramamário é recomendado somente para o quarto afetado (com sintomas de mastite clínica).
Atenciosamente, Marcos Veiga