Leite de descarte: deve ser fornecido para bezerras?
Um dos principais prejuízos que o produtor percebe em relação à mastite é o descarte do leite de vacas em tratamento de mastite clínica. O tratamento de mastite é a principal causa de uso de antibióticos em vacas leiteiras. Considerando os custos totais de um caso clínico, o descarte do leite pode representar até 40% dos custos diretos, enquanto que os custos de redução da produção são estimados em 55% e custos com medicamentos, 5%.
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Um dos principais prejuízos que o produtor percebe em relação à mastite é o descarte do leite de vacas em tratamento de mastite clínica. O tratamento de mastite é a principal causa de uso de antibióticos em vacas leiteiras. Considerando os custos totais de um caso clínico, o descarte do leite pode representar até 40% dos custos diretos, enquanto que os custos de redução da produção são estimados em 55% e custos com medicamentos, 5%. Isso ocorre porque todo leite proveniente de vacas tratadas com antibióticos, o chamado leite de descarte, não pode ser vendido para consumo humano. Este leite além de representar uma séria perda econômica para o produtor, torna-se também um problema de resíduo na fazenda, pois não deve ser descartado no ambiente, principalmente em situações, nas quais um elevado número de vacas encontra-se em tratamento. Como alternativa para reduzir ambos os problemas econômicos e ambientais, muitos produtores adotam a prática de fornecer este leite de descarte para as bezerras em fase de aleitamento. Esta solução aparentemente simples ainda é tema de grande controvérsia, pois o fornecimento de leite com resíduos de antibióticos pode trazer dois problemas potenciais: a) aumentar o risco de resistência bacteriana em bactérias intestinais, b) transmissão de bactérias causadoras de mastite para as bezerras em crescimento.
Alguns estudos demonstraram que a ocorrência de resistência antimicrobiana é maior em bezerros do que vacas adultas, sendo mais comum sobre bactérias Escherichia coli (E. coli) de origem intestinal. Como a resistência antimicrobiana é resultado do uso continuado de antibióticos, fornecer o leite de descarte, pode resultar em seleção indireta de bactérias resistentes na flora intestinal dos bezerros. Além da seleção de bactérias resistentes, a resistência aos antimicrobianos pode ser transferida entre bactérias patogênicas que causam infecções em humanos e animais. Desta forma, a eficácia dos antibióticos pode ser comprometida quando houver a necessidade de tratamentos em humanos e animais.
Os resultados de estudos sobre uso de leite de descarte para aleitamento de bezerras são inconsistentes e em pequeno número. Por exemplo, um estudo realizado na Inglaterra avaliou os efeitos da alimentação de bezerras com leite de vacas em tratamento com antibiótico sobre o consumo de leite, o desempenho de crescimento e os níveis de resistência de bactérias entéricas. As bezerras foram alimentadas com leite descartado de vacas em tratamento com antibióticos ou com sucedâneos comerciais. O leite contendo resíduos de antibiótico foi menos palatável e houve maior taxa de rejeição. Além disso, a ganho de peso das bezerras foi menor quando alimentadas com o leite de descarte. Em relação à resistência bacteriana, cepas intestinais de E. coli apresentaram maior resistência para estreptomicina, mas não para ampicilina. Outros estudos, no entanto, apontaram resultados diferentes, uma vez que o uso do leite de descarte não trouxe prejuízos sobre o consumo de leite, ganho de peso e incidência de diarreias, uma vez que o valor nutricional do leite de descarte é similar ao do leite normal.
Se manejado e fornecido corretamente o uso de leite de descarte para aleitamento de bezerras pode ser uma alternativa econômica e nutritiva para o aleitamento de bezerras. No entanto, o uso do leite de descarte não está livre de riscos de transmissão de doenças e de aumento da resistência antimicrobiana. Sendo assim, alguns cuidados devem ser tomados com o leite de descarte:
• Não utilize leite de descarte para bezerros nos primeiros dias de vida. Neste período inicial, a parede intestinal é mais permeável a bactérias causadoras de doenças. Além disso, não utilize leite de descarte com alterações visuais (presença de sangue, leite aquoso, excesso de grumos).
• O leite da primeira ordenha após o tratamento com antibiótico deve ser diluído em maior volume de leite sem antibiótico, pois contém uma carga elevada do princípio ativo. Todo o leite de descarte deve ser identificado para evitar risco de contaminação do leite a ser comercializado.
• Forneça leite de vacas em bom estado de saúde. Para reduzir o risco de transmissão de doenças pelo leite, o ideal é pasteurizar (72OC por 15-20 segundos ou 65oC por 30 minutos) todo o leite a ser usado para aleitamento das bezerras. Esta prática reduz o risco de que o leite seja um veículo de transmissão de agentes causadores de doenças, como mastite, E. coli, S. aureus, Salmonella, diarreia viral bovina e paratuberculose.
• Leite de vacas com mastite somente deve ser fornecido para bezerras alojadas individualmente (sem contato entre si), para evitar a ocorrência de mamada entre bezerras, o que aumenta a risco de transmissão de agentes causadores de mastite em novilhas.
*Camila Silano é médica veterinária e aluna de pós-graduação em Nutrição e Produção Animal da FMVZ-USP.
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MilkPoint
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PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 10/11/2014
Atenciosamente, Marcos Veiga

PELOTAS - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 10/11/2014
Parabéns pelo artigo! Gostaria de saber se o fornecimento de leite proveniente de animais mastíticos poderia prejudicar a colonização e formação da microbiota ruminal inicial.
Muito Obrigado!
PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 20/08/2012
O aparecimento de resistência é um processo de médio para longo prazo (anos) e não é possível estimar com precisão quando ocorre. A seleção de bactérias mais resistentes ocorre ao longo de vários anos e décadas de uso dos antibiórticos.
Também não é fácil estimar quanto tempo a resistência persiste e se pode regredir.
Atenciosamente, Marcos Veiga

REGENTE FEIJÓ - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 20/08/2012
GOIÂNIA - GOIÁS - ESTUDANTE
EM 09/08/2012
CASCAVEL - PARANÁ - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO
EM 08/08/2012
Primeiramente queria lhe parabenizar pela escolha do assunto, um assunto polêmico no mundo do leite, mas que poucos esclareceram de forma muito clara e principalmente com embasamento científico.
Atenciosamente

MONTE APRAZÍVEL - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 08/08/2012
PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 08/08/2012
GUARACI - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 08/08/2012
No caso de descarte do leite, qual a orientação a cuidados a serem tomados etc.
Muito bom e oportuno o seu artigo, parabéns!
Obrigado
Nelson
FRANCISCO BELTRÃO - PARANÁ - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 08/08/2012
Infelizmente a logica que melhor se adapta, parece ser a usada para nosso proprio consumo, niveis minimos de antibiotico aceitos, enfim a diluição do leite de descarte e um controle de mastite efetivo do rebalho. Atacar a origem principalmente e minimizar a causa, me parece ser o foco.
Parabens novamente a Camila e Marcos como sempre esclarecedores.
PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 08/08/2012

MONTE APRAZÍVEL - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 08/08/2012

ITAJUBÁ - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 07/08/2012
Tema polemico para muitos, mas escrito com sobriedade é bem interesante.
Em nossa propriedade utilizavamos sucedaneo / leite sujo ( 2:1 ) para aleitamento de bezerras, entretanto com a entrada do pagamento por qualidade alteramos o aleitamento de bezerras para leite de vacas em fim de lactação / leite sujo diluido ( 2:1 ) para alimentação das bezerras.
A prioridade para a utlização do leite sujo são dos animais mais jovens. Uma vez que as nossas vacas em fim de lactação tendem a ter uma CCS mais alta, estaremos correndo alguns risco com as nossas bezerras.
PS: o leite nao é pausterizado.
Grato.