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CCS do tanque: bom indicador econômico para fazendas leiteiras?

POR JULIANO LEONEL GONÇALVES

E MARCOS VEIGA SANTOS

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 01/02/2021

4 MIN DE LEITURA

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Produzir leite com alto padrão de qualidade é um aspecto importante dos sistemas de produção de leite, pois afeta a produtividade, o processamento e as propriedades tecnológicas.

Dentre os critérios principais de qualidade, a forma subclínica da mastite (MS) não apresenta sintomas visuais, sendo que o diagnóstico pode ser feito pela avaliação da contagem de células somáticas (CCS), tanto individualmente nas vacas quanto no leite do tanque.

O leite com alta CCS representa uma característica indesejável para as indústrias de laticínios, pois reduz o rendimento de fabricação de queijo e a vida de prateleira dos produtos lácteos. Além disso, a alta CCS tem o impacto negativo na fazenda, pois reduz a produção de leite, aumenta os custos com o controle da doença, com a assistência veterinária e aumenta o risco de descarte prematuro das vacas infectadas.

Portanto, as perdas econômicas causadas pela mastite bovina são reconhecidas mundialmente como um dos principais fatores que afetam a lucratividade das fazendas leiteiras.

Os resultados médios de CCS de tanque dos rebanhos leiteiros do Brasil têm apresentado estabilidade ao longo dos últimos anos, cuja média tem sido próxima ao que está preconizado na legislação. Neste contexto, será que os produtores de leite estão cientes dos prejuízos em termos de produção de leite nas fazendas com alta CCS, o que impacta negativamente a lucratividade? Em outras palavras, a CCS do tanque pode ser considerada um bom indicador econômico dos rebanhos?

Figura 1 -  Médias geométricas de CCS e CBT do leite cru, em CS/mL e UFC/mL, da região Sul em 2018.


Fonte: Anuário dos Programas de Controle de Alimentos de Origem Animal do DIPOA VOLUME 5 – 2019.

Figura 2 - Médias geométricas de CCS e CBT do leite cru, em CS/mL e UFC/mL, da região Sudeste em 2018.


Fonte: Anuário dos Programas de Controle de Alimentos de Origem Animal do DIPOA VOLUME 5 – 2019.

O grupo de pesquisa do Laboratório Qualileite (FMVZ/USP), diante desta importante questão que vem sendo levantada no cenário brasileiro da qualidade do leite, desenvolveu um estudo em parceria com o EDUCAMPO SEBRAE.

Para tanto, foi utilizado um banco de dados de três anos (2015-17), contendo informações dos principais indicadores econômicos (receita, margem bruta e lucro) de 543 rebanhos localizados em cinco diferentes regiões do estado de Minas Gerais.

Os resultados descritivos mostraram que os rebanhos utilizados apresentaram média de 82 vacas em lactação com produção entre 15,1 a 20,5 kg/d. A maioria dos rebanhos (94,6%) apresentou CCS do tanque > 200 mil células/mL, 37,8% teve CCS entre 200 e 400, 14,5% teve CCS entre 400 e 500, 25% teve CCS entre 500 e 750, e 17,3% teve CCS > 750.

Em média, os produtores obtiveram uma margem bruta por vaca em lactação por ano de $678 dólares (R$ 3593,40; 1 US$ = R$ 5,30) e lucro por vaca em um ano de $227 (R$ 1203,10), quando a CCS do tanque foi < 200 mil células/mL (Figura 3); ou seja, um produtor com 100 vacas em lactação e que produzir leite com CCS < 200.000 células/ml, teria margem bruta anual de R$ 359.340,00, sendo deste 33,5% de lucro (R$ 120.310,00).

Figura 3 - Relação entre indicadores econômicos (receita, margem bruta e lucro, estimados em R$ 1000/vaca/ano) distribuídos por níveis de CCS do tanque (× 1000) células/mL.

Por outro lado, produtores que apresentaram faixa de CCS do tanque de 500 mil células/mL (limite máximo de CCS de acordo com atual legislação brasileira) apresentaram indicadores econômicos de que a produção de leite significativamente menores, visto que o lucro observado foi de $ 3.8 (R$ 20) vaca/ano.

Ainda, produtores com média de CCS do tanque maior do que 700 mil células/mL apresentaram indicadores econômicos negativos, o que em outras palavras explicaria a expressão muito conhecida ‘trabalhando no vermelho’. Ainda, foi possível observar pela análise estatística que fazendas com < 40 vacas em lactação (e com vacas de baixa produção, média <15 L/d) tiveram menor receita, margem bruta e lucro que os rebanhos com > 40 vacas em lactação.

Deve-se destacar que este foi um estudo que avaliou a associação entre CCS média do tanque e os indicadores econômicos, o que significa que não é possível estabelecer relações de causa e efeito, pois a maior produção de leite de rebanhos com baixa CCS poderia ser explicada parcialmente pelo padrão de saúde do úbere destes rebanhos.

No entanto, os resultados do presente estudo sugerem que a redução da produção de leite e os demais prejuízos associados com a alta CCS do tanque afetam negativamente a lucratividade das fazendas estudadas. Assim, estes resultados reforçam a importância das medidas de manejo e controle visando a redução da CCS do tanque.

Por fim, os resultados de desempenho econômico mostraram que quanto menor é a CCS do tanque, maiores são as receitas, as margens brutas e o lucro total do rebanho.

Assista ao vídeo com os comentários do autor sobre o artigo! 

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Referencias
Fonte: Juliano Leonel Gonçalves, et al., Journal of Dairy Science, v. 104, p. 1855-1863, 2021. DOI: 10.3168/jds.2019-17834 

(artigo na íntegra: https://www.researchgate.net/publication/347835844_Herd-level_associations_between_somatic_cell_counts_and_economic_performance_indicators_in_Brazilian_dairy_herds) 

JULIANO LEONEL GONÇALVES

Professor contratado do Departamento de Nutrição e Produção Animal (VNP), Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Universidade de São Paulo (USP)

MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

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ROBERTO DE ANDRADE BORDIN

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 03/02/2021

Olá tudo bem?...espero que sim.

Se realizarmos boas práticas de ordenha...menos estresse nas vacas e associar elementos aditivos alimentares que possam ajudar na adequação da condição imunológica e metabólica das vacas já ajuda...com certeza outros pontos são importantes...mas temos que começar com elementos que de pronto e sem muito investimento reduzirão a CCS. Fizemos isto em 10 fazendas do PR e SC e deu resultado...pequenos produtores...CCS de tanque 405.000...reduzimos para 290.000 já ajudou.
ROSIANA BORGES CAMPOS SILVA

CERES - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 03/02/2021

O ideal é CCS abaixo de 200, o difícil é como fazer e manter. Dificuldade de mão de obra, que não é tecnificada. Dificuldade para fazer as culturas e identificar os agentes, para tratamento mais efetivo e menos oneroso
FERNANDO SILVEIRA FEROLLA

MACAÉ - RIO DE JANEIRO

EM 02/02/2021

Boa tarde brilhante a abordagem desse tema, pois o técnico tem uma ferramenta que por hora indicava a sanidade do rebanho e a qualidade do produto entregue na indústria, agora ele pode lançar mão para avaliar a rentabilidade de uma fazenda e o manejo de seu rebanho, porque apesar de CCS poder indicar presença de infecção no úbere de uma vaca, não é uma informação muito precisa neste sentido, porém pode indicar problema no manejo reprodutivo, especialmente o I.P. no que diz respeito a produtividade do rebanho.
MARCOS VEIGA SANTOS

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 04/02/2021

Obrigado pelo comentário, Fernando.
ROBERTO DE ANDRADE BORDIN

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 02/02/2021

Bom dia...excelente material...muito bom mesmo.
ANDRÉ QUINTO TURATTI

CAIBI - SANTA CATARINA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 01/02/2021

Eu começei a perceber isso dentro da minha propriedade ! Quando a ccs se mantinha alta eu não sobrava dinheiro ! Hj com a ccs controlada em níveis abaixo de 250 eu consegui melhorar significativamente a lucratividade do rebanho
MARCOS VEIGA SANTOS

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 01/02/2021

Obrigado, pelo comentário, André
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