Marcelo Pereira de Carvalho
É interessante analisar como temos a tendência de procurar resolver os problemas mais imediatos, que impactam diretamente em nosso dia-a-dia, e raramente conseguimos olhar adiante, procurando cortar o mal pela raiz e criar as bases para um crescimento sustentado.
Os exemplos da falta de visão de longo prazo são inúmeros e estão à nossa volta, desde a atual crise energética (agora é fácil falar, mas por que nem o governo nem a sociedade anteviram um problema previsível?), até a organização da cadeia láctea no Brasil, para voltarmos à nossa área de trabalho.
Quando queremos resolver, é sempre de forma imediata, como nos "cinquenta anos em cinco" da era Juscelino, ou no "um só tiro para matar a inflação", do Collor. Planejamento estratégico, horizonte de mais de 5 anos, nem pensar.
No caso do leite, fala-se com freqüência em convergência, em integração da cadeia (pelo menos no elo produtor - indústria) e na necessidade de modernização que, embora façam sentido, estão ainda longe de ocorrer na prática. Há, sim, a desconfiança e a falta de informação de sempre, criando um ambiente pouco propício à tal convergência da cadeia, que seria idealizada, supostamente, pela percepção mútua da importância de todos os segmentos e do objetivo maior que é o de viabilizar o agronegócio lácteo e não determinado segmento em particular. Notem que, mesmo neste aspecto, deixamos a desejar, uma vez que o produtor de leite tem dificuldades de se articular enquanto classe. Não raro, cada um procura resolver seus próprios problemas.
São os velhos exemplos das pequenas cooperativas que não se juntam às vezes por vaidade de dirigentes e aspectos pessoais, mesmo sabendo que, da forma atual, rumam para o fim. Há, também, os muitos casos de associações de produtores que, ao se formarem, são desmanteladas pelo favorecimento de um ou outro associado, que recebe um valor superior para o leite desde que não faça mais parte da associação. São exemplos de atitudes que, se resolvem o presente (resolvem?), não levam a um futuro muito promissor. Mas continuam entre nós, apesar dos discursos modernos.
Indo mais longe, é possível que boa parte da corrupção, da falta de responsabilidade de muitos políticos, da poluição ambiental e de outras mazelas, esteja nesta ausência de sentimento coletivo. Estão todos tão preocupados em solucionar seus próprios problemas que não é prioritário zelar pelo que não nos afeta diretamente. É, sem dúvida, falta de visão de longo prazo.
Voltando ao leite, o fato é que procura-se resolver o problema de curto prazo: o produtor, desarticulado e desinformado, quer um preço melhor (com razão), enquanto que, à indústria, cabe otimizar a sua compra de matéria-prima (em uma visão imediatista, também com razão, afinal é o negócio dela). Não se vê no horizonte, com clareza, uma tendência de todos sentarem à mesa e discutir o problema real: como transformar o Brasil, certamente um país de condições favoráveis para a expansão da produção de leite a custos competitivos, em uma nação exportadora de lácteos, onde quem investe na atividade tem maior certeza do que pode esperar pela frente.
Pelo menos estamos falando diferente, o que já é um avanço. Resta agora fazer.
Visão de curto prazo
É interessante como temos a tendência de resolver os problemas imediatos, mas essa visão de curto prazo pode acabar impactando a rotina em breve. Saiba mais!
Publicado em: - 2 minutos de leitura