Marcelo Pereira de Carvalho
Nesta semana, um pouco do otimismo voltou ao país, ao menos no que se refere à crise energética. O ministro do "apagão", Pedro Parente, afirmou que o risco de haver corte de energia ficou mais distante.
Explica-se: além da redução do consumo, que, é bom lembrar, ainda não atingiu os patamares desejados, São Pedro deu uma mãozinha ao governo e os reservatórios perderam menos água do que o previsto. Se continuar assim, com chuvas aqui e acolá, chegaremos a dezembro com um estoque razoável de água. O país não vai parar, o PIB não vai despencar e, dizem os mais otimistas, o governo tem até chances de ter um candidato forte nas eleições do ano quem vem! Quem poderia imaginar que São Pedro seria tão decisivo na economia do país?
Quem trabalha com agricultura sabe isto de longa data. Afinal, São Pedro sempre teve participação ativa na definição da produção e do mercado agrícola. Se chove pouco, a produção cai e os preços tendem a subir; se chove na quantidade certa, a produção se eleva e os preços caem; se chove demais, atrapalha-se a colheita e a produção sofre. A relação de dependência com o regime pluviométrico sempre foi intensa para todos os que trabalham com a produção agrícola, daí a sensação talvez familiar do país estar dependendo de São Pedro.
Talvez insatisfeito com a pouca importância relativa, no dia-a-dia restrita a quem vive no campo, São Pedro esteja apenas querendo expandir seus domínios, fazendo com que bancos, supermercados, repartições públicas, redes de televisão, indústrias, comerciantes, executivos e o simples cidadão urbano, que nunca viu um pé de milho, saibam de seu poderio na definição dos rumos da economia. Da mais simples das atividades à mais complexa, dos mais humildes aos mais ricos, todos agora dependem das chuvas para manter seus empregos, seu bem estar, seu crescimento.
De certa forma, a agricultura obtém uma sutil vingança em meio a esta deconfortável situação. Sempre relegada a segundo plano, às vezes desprezada por depender de forças tão primárias quanto o regime de chuvas, quando o mundo já está em outra rotação, falando de chips cada vez mais potentes, supercondutores, fibras óticas e outros assombros da tecnologia, agora tudo parece estar nivelado; todos olham para os céus à espera das chuvas, tão necessárias para brotar as pastagens, mas também para trazer energia às indústrias.
Talvez as atividades e pessoas ligadas exclusivamente à economia urbana fiquem mais humildes a partir desta crise de energia e olhem com mais atenção para a produção agropecuária. O Brasil é dos países que menos respeitam e mais desconhecem a atividade rural, apesar da enorme importância do setor para a geração de empregos e para a economia. Países como o Canadá (sim, o mesmo da crise da vaca louca) apóiam o subsídio à produção local e seus cidadãos estão dispostos a pagar mais caro por produtos agrícolas de origem canadense. Por aqui, existe o oposto: a predileção por produtos importados, supostamente de melhor qualidade (nem sempre são), certamente um resquício da época em que o mercado não era aberto como é hoje, quando os produtos importados eram tratados como especiarias de alto valor e a produção nacional era pífia em variedade e qualidade.
Não é fácil mudar esta percepção (ou falta de percepção) do mercado consumidor e de quem de fato dita as regras da economia do país. Talvez, diante desta inusitada crise de energia, de identidade e de auto-confiança, haja mais sensibilidade por parte da economia urbana para com a economia rural; pelo menos, neste momento, ambas dependem dos mesmos fatores para prosperar.
Não custa ser otimista.
Todos nas mãos de São Pedro
Além da redução do consumo queainda não atingiu os patamares desejados, São Pedro deu uma pequena ajuda ao governo e os reservatórios perderam menos água.
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