Há também que se analisar, nesse contexto de transição no mercado interno, o papel das exportações de lácteos como fator de expansão do mercado de lácteos, a exemplo do que ocorreu com outras cadeias do agronegócio.
No intuito de especular a respeito dos números para os próximos anos (mais precisamente, até 2010), fizemos uma simulação considerando estimativas da população brasileira, consumo per capita de leite, produção de leite, importações e exportações, e chegamos a alguns números interessantes, que nos permitem fazer algumas ponderações.
A análise teve como base estimativas de crescimento da população brasileira até 2010, feitas pelo IBGE, considerando o dia 1o de junho como data-base. Estimamos um crescimento de 3,5% ao ano na produção de leite até 2010, tendo como base 22,4 bilhões de kg anuais, produzidos em 2003. Convertemos as estimativas de importações e exportações em equivalentes-leite, para 2004 e, juntando todas estas variáveis, chegamos à disponibilidade per capita de 129,7 kg de leite/2004. A partir daí, fixamos as importações em 80% do valor estimado para 2004, considerando que sempre importaremos alguma coisa, especialmente em produtos de maior valor agregado. No caso das exportações, imprimimos uma taxa de crescimento de 40% ao ano. O resultado está na tabela 1, considerando que o consumo per capita de 129,7 kg irá se manter nos próximos anos.
Tabela 1. Simulação da produção, consumo, exportações e importações de lácteos até 2010, considerando consumo per capita constante

Nota-se, pela tabela 1, um óbvio aumento das exportações de lácteos, a ponto de, em 2010, as exportações responderem por 8,6% da produção nacional (hoje, está por volta de 1,5%). A FAO prevê que em 2010 o mercado externo gire 51 milhões de toneladas, de forma que as quase 2,5 milhões de toneladas de leite previstas na simulação, como exportações brasileiras, representarão 4,8% do mercado mundial (obs: a FAO não prevê que o Brasil ocupará este espaço). Esses números nos colocariam provavelmente entre os 5 maiores exportadores líquidos mundiais, atrás da Nova Zelândia, Austrália e EU, brigando com Argentina. A título de comparação, Ricardo James, ex-dirigente da indústria láctea do nosso vizinho, previu, em artigo escrito em 2002, que a Argentina teria um saldo líquido de 2,2 milhões de toneladas de leite em 2010.
Nesse ponto, vale considerar que, embora não haja dúvida do nosso potencial exportador, é preciso reconhecer que exportar grandes volumes é uma outra história. Conseguiremos exportá-las aos preços atuais, ou para entrar em mais mercados, será necessário preços mais baixos? Nesse caso, as exportações continuarão competitivas? No caso da carne bovina, o grande aumento nas exportações ocorreu pela via do baixo preço, em comparação aos países concorrentes.
A última coluna, entitulada "sobra/falta", reflete uma quantidade que, dadas as variáveis consideradas, "sobrará", isto é, a conta não fecha. Claro que essa condição, na prática, não existirá, ou seja, é necessário trabalhar com as seguintes variáveis: ou se exportará mais do que o previsto, sendo a taxa anual de crescimento de 40%, modesta; ou não se manterá a taxa histórica de crescimento de 3,5% ao ano na produção de leite. A outra opção é elevar o consumo interno, seja através do aumento de renda/redução de preços, ou marketing/inovação em produtos.
Na tabela 2, ao invés de mexermos nas exportações, optamos por ajustar o consumo per capita ano a ano, necessário para zerar o balanço de lácteos do país. Nota-se que, considerando as demais variáveis, há a necessidade de um incremento no consumo per capita da ordem de 7,4 kg/habitante/ano, um tanto modesto, mas que, diga-se de passagem, ultimamente não temos conseguido.
Tabela 2. Simulação da produção, consumo, exportações e importações de lácteos até 2010, considerando consumo per capita ajustado para zerar o balanço

Na tabela 3, voltamos a considerar o consumo per capita constante, porém mexendo nas exportações. Somando o superávit (a coluna "sobra/falta") com as exportações estimadas, chega-se ao volume de 3,8 milhões de toneladas de equivalente-leite sendo exportadas em 2010, ou 13,7% da produção estimada para o período. A título de comparação, o Brasil exporta, hoje, quase 20% da produção de carne bovina.
Tabela 3. Simulação da produção, consumo, exportações e importações de lácteos até 2010, considerando aumento das exportações para zerar o balanço

Estes 13,7% representariam 7,6% do mercado mundial de lácteos e aproximadamente US$ 600 milhões anuais.
Vale uma ponderação: hoje, o Brasil pouco incomoda no mercado externo, mas é bastante provável que, ao ocupar fatia crescente, incomode e gere reações dos concorrentes, através de barreiras não-tarifárias, como especificações técnicas, por exemplo. Torna-se fundamental, dentro disso, participar ativamente de organizações como a IDF - International Dairy Federation, que trata de regulamentos técnicos dos produtos lácteos a nível mundial. A não participação poderá nos custar caro.
Voltando à nossa análise, considerando que as estimativas da população brasileira são precisas e que as importações não voltarão a crescer, salvo se houver um súbito aumento de consumo, flexibilização das tarifas anti-dumping ou redução/eliminação de tarifas de importação através de acordos comerciais (no momento, o Mercosul negocia com a União Européia), a última variável, entre as analisadas, que poderia valer a pena variar, seria a produção de leite interna, mas nos parece sensato usar 3,5% como média anual de crescimento.
Antes de concluirmos, é importante salientar que simulações são sempre simulações, estando sujeitas às variações das variáveis analisadas. Vale lembrar, por exemplo, que, segundo as previsões da FAO, feitas em 2002, o consumo per capita do Brasil estaria em 155 kg/habitante/ano, o que nos colocaria na condição de importadores líquidos de leite - aliás, grandes importadores. Um cenário não muito provável hoje, mas factível há alguns anos atrás.
Outro aspecto que não pode ser desprezado é o efeito do câmbio e dos preços internacionais na participação brasileira no mercado externo. É consenso que a desvalorização cambial criou a condição básica para o país ganhar competitividade. Essas análises pressupõem a continuidade do câmbio nos patamares atuais, ou ainda desvalorização do real. O mesmo se pode dizer dos preços internacionais de lácteos. Caso caiam e permaneçam baixos por um longo período, os planos de exportação podem ser afetados. Não é, porém, o que se prevê.
Também, é importante colocar que não houve a preocupação de avaliar criteriosamente cada dado, mas sim trabalhar com tendências e aproximações, pois considerou-se que o erro seria pequeno e, os resultados, válidos para discussão.
Concluindo o que as tabelas acima nos mostram:
- 1. Mesmo considerando uma taxa significativa de aumento nas exportações, se não houver elevação do consumo interno per capita, não teremos como manter a mesma taxa de crescimento na produção de leite.
2. Um aumento relativamente modesto no consumo interno seria suficiente para zerar a balança de lácteos, dado o crescimento histórico da produção de leite.
3. Mesmo considerando um aumento bastante arrojado para as exportações, o mercado interno ainda seria responsável por mais de 80% da produção total do país.