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Leite virou produto de luxo?

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

EM 11/07/2022

3 MIN DE LEITURA

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Estamos vivendo um período de forte alta conjuntural de custos de produção de leite. Mas uma análise mais criteriosa mostra que há um processo de pelo menos doze anos de elevação dos custos de produção acima da inflação geral da economia.

É o que mostra o gráfico 1 abaixo. A linha azul mostra a inflação de custos nas fazendas e a linha verde a inflação como um todo. Percebe-se que, a partir de 2011, os valores começaram a descolar, atingindo o descolamento máximo nos últimos 5 anos. Os ganhos de produtividade, que estão existindo, não estão sendo suficientes para compensar os custos de produção em ascensão. 

Se o preço dos lácteos teve uma trajetória de queda por um longo período, a partir da década de setenta, essa realidade mudou nos últimos 15 anos.


Fonte: MilkPoint Mercado.

 

Nesse cenário, a retração econômica e a perda de renda dos mais pobres dificulta o repasse dos custos ao consumidor. A linha preta mostra a inflação dos lácteos ao consumidor, que ficou abaixo da inflação de custos. Ainda que não tenhamos nesta análise o comportamento dos custos de produção industrial e distribuição, a tendência de margens em que da indústria sugere que esta arcou com esse ajuste.

Mesmo com os preços ao produtor estarem acompanhando os custos  (apesar da volatilidade -linha vermelha), o setor produtivo como um todo não tem conseguido manter as taxas de crescimento do passado. Neste ano, o primeiro trimestre apresentou uma queda inédita de mais de 10%, e é provável que terminemos o ano uma retração de 7-8% —novamente, inédita.

Muitos fatores devem estar relacionados a esse cenário: competição com outras atividades agrícolas, principalmente em regiões com estrutura fundiária marcada por áreas de porte maior e com baixos índices de produtividade do leite, onde a migração para soja, cana e outras atividades é mais fácil (ex: Goiás); dificuldade de fazer a transição de uma estrutura setorial marcada por pequenos produtores com baixa tecnologia, para uma estrutura de maior escala e com tecnologia compatível com a necessidade competitiva; problemas climáticos frequentes; coordenação da cadeia produtiva e ambiente de negócios; acesso a crédito barato; etc. Nesse processo, muitos produtores estão deixando a atividade. Seria surpresa para mim se tivermos hoje mais de 400.000 produtores de leite fornecendo leite para a indústria. 

Custos em alta estrutural e corrosão da renda do consumidor mudam as perspectivas do crescimento da atividade. De 2000 a 2014, tivemos uma forte expansão da base de consumo de leite, motivada pelo aumento da renda e por custos de produção que mantinham o produto competitivo para o consumidor. Esse período acabou — não há mais o leite barato do passado.

O resultado disso é um novo equilíbrio entre oferta e demanda. Foi-se o tempo em que mirávamos os 200 kg de leite/habitante/ano. Nossas estimativas sugerem que devemos fechar o ano com pouco mais de 150 kg. Este é o valor que tínhamos em 2009 (gráfico 2). O mercado total por volume, que inclui o aumento populacional, retorna a níveis de 2010-2011. Esse é o tamanho do ajuste.

Gráfico 2. Estimativa do consumo de leite per capita brasileiro.


Fonte: MilkPoint Mercado – 2021 e 2022 - estimativas.

É possível recuperar o consumo anterior? Sim, mas isso depende de uma série de fatores, como o aumento da renda e a busca por maior eficiência por litro e principalmente por sólidos produzidos, além do efeito dos substitutos, sejam eles os de baixo custo (análogos, misturas lácteas), sejam os que focam o topo da pirâmide (plant-based).

Essa maior eficiência passa por aumento de produtividade, eficiência logística, aumento de sólidos e inteligência de dados na produção e na indústria. Chegou a hora da qualidade — não só da qualidade do leite, mas da qualidade operacional e da eficiência. A maneira como nos estruturamos como setor serviu bem para uma conjuntura distinta da atual. Talvez tenhamos nos próximos anos um setor menor, mas mais competitivo e mais alinhado às demandas do consumidor.

*Fonte da foto da matéria: Freepik

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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CÁCIO RIBEIRO DE PAULA

BELA VISTA DE GOIÁS - GOIÁS

EM 18/07/2022

Duas considerações:
1. Alguém, na complexa cadeia do leite, continua ganhando muito, em detrimento da redução drástica da renda do produtor.
2. Marketing do leite permanece pouco efetivo, pois produtos "concorrentes " são consumidos sem maiores reclames por parte da grande maioria dos consumidores (ex.: refrigerantes), ao passo que a "turma" coloca a boca no trombone quando leite e derivados começam a esboçar reação nos preços.
Inúmeros problemas acontecem, conforme relaciona o autor do texto, mas as variáveis acima não podem ser desconsideradas..
MARCO ANTONIO COUTO

PIRACEMA - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA LATICÍNIOS

EM 18/07/2022

Marcelo, como sempre otima analise. Parabéns.
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 18/07/2022

Obrigado Marco Antonio!
GERALDO TOMAZI

TRÊS BARRAS DO PARANÁ - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 12/07/2022

Quero sempre me atualizar com as informações do milkpoint
LETÍCIA MOSTARO MAGRI

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - MÍDIA ESPECIALIZADA/IMPRENSA

EM 12/07/2022

Olá, Geraldo!
Tudo bem?

Obrigada por nos acompanhar! Para receber diariamente as informações do MilkPoint, você pode nos acompanhar aqui no site e nas redes sociais. Também pode se inscrever na nossa newsletter para receber as atualizações diárias por e-mail, basta clicar neste link e seguir as instruções > https://www.milkpoint.com.br/#assine-news

Qualquer dúvida, estou à disposição!

Abraços!
NELSON FERREIRA JUNIOR

PASSOS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 11/07/2022

Marcelo, por que voce acredita estar ocorrendo essa "distancia" tão grande entre o preço recebido pelo produtor ao preço do leite na gondola do mercado?
TIAGO DA CUNHA FARIA

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS - SÃO PAULO

EM 11/07/2022

Boa tarde Nelson!

Sou o Tiago, Analista de Mercado do MilkPoint Mercado e irei trazer uma visão sobre este questionamento. O cenário de menor oferta, acentuado nos últimos meses, acarretou altas aceleradas dos preços das vendas ao varejo, que por sua vez, está fazendo esse repasse aos consumidores. Existe uma "defasagem temporal" entre os preços que estão nas gôndolas com os preços utilizados pela metodologia do CEPEA. A metodologia de preços médios do CEPEA leva em consideração o leite captado no mês anterior (inclusive, um único preço para o mês inteiro), enquanto os preços nas gôndolas podem ser alterados, caso necessário, diariamente. Essa diferença temporal cria essa disparidade entre os preços praticados nos diferentes elos.

Devemos observar altas mais consistentes aos produtores para os próximos 2 pagamentos - momento em que as altas dos preços da indústria ao varejo e do varejo ao consumidor final provavelmente já estarão desacelerando.

Obrigado,
Tiago.
EM RESPOSTA A TIAGO DA CUNHA FARIA
ANDRÉ GONÇALVES ANDRADE

ROLIM DE MOURA - RONDÔNIA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/07/2022

Muito bem lembrado Tiago. E muitíssimo importante.
Vejo os debates e muitas vezes as cobranças sobre o varejo, sem serem avaliadas de forma correta. E lembrando bem, o varejo é quem detém o contato com quem de fato consome o produto e gera a demanda. Ele via de regra trabalha com milhares de itens, não apenas lácteos. Definem margens em relação aos seus custos e as aplicam. As altas aceleradas, assim como as baixas, não são causadas pelo varejo. Há que se considerar as reais motivações: safras, entressafras, renda, câmbio, etc.
Precisamos achar o melhor caminho de forma estrutural. Até agora vejo que estamos meio "perdidos" como setor!
NELSON JESUS SABOIA RIBAS

GUARACI - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/07/2022

Boas as suas avaliações. No final é o que sabemos, para salvar o setor, há que reduzir volumes totais de produção. Acaba concentrando nos grandes com qualidade. A economia tratou de fazer a redução forçada dos médios e pequenos.
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 12/07/2022

Nelson, obrigado pelo comentário. Realmente esse processo de concentração está ocorrendo. É possível o pequeno e médio permanecer, mas precisa ser muito eficiente.
MARCELO BRANQUINHO PEREIRA

TRÊS CORAÇÕES - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/07/2022

De todas as verdades ditas a mais contundente é que teremos um setor menor. Menor escala principalmente para as indústrias!
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 12/07/2022

É por aí, Marcelo!
ANDRE ROZEMBERG PEIXOTO SIMÕES

AQUIDAUANA - MATO GROSSO DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 11/07/2022

Boa análise Marcelo. Obrigado pelos insights.
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 12/07/2022

Obrigado André.
RONEY JOSE DA VEIGA

HONÓRIO SERPA - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/07/2022

Se o varejo reduzir só um pouco a margem absurda de lucro que tem , estimula consumo!! Ganha muito, faz nada e prejudica!
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 12/07/2022

Obrigado pelo comentário Roney. No Fórum MilkPoint Mercado, que ocorrerá em Goiânia, no dia 02/08, o varejo participará. Vai ser interessante.
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