Tabela 1. Valor Bruto da Produção em 2014 - estimativa (adaptado do MAPA)
Obs: considerada apenas a produção inspecionada, no caso do leite e abate de bovinos e aves
Está à frente, por exemplo, do arroz (18,1 bilhões), café (16,1 bilhões) e suínos (13,6 bilhões), bem como outras notadamente mais modestas.
Ainda, analisando os dados temporais, percebe-se que o leite também não faz feio: em valores deflacionados, agregou quase R$ 16 bilhões/ano a mais de 2000 para 2014, passando o café, que era o sexto colocado há 14 anos e que vem patinando desde então.
Estes dados refletem apenas a produção primária. Se analisarmos a cadeia de processamento e distribuição, os números são ainda mais robustos. Em trabalho realizado pelo PENSA/USP, estimou-se que a cadeia produtiva do leite movimentou em 2004 um total de R$ 64,78 bilhões. Se fizermos uma conta rápida, fazendo um cálculo proporcional considerando o valor bruto da produção de leite em 2004 (R$ 12,1 bilhões), chegaríamos a R$ 140,2 bilhões movimentados em 2014, usando a metolodogia do PENSA/USP, ou quase 3% do PIB nacional.
Isso sem contar a importância na geração de empregos e no desenvolvimento regional, notadamente nas pequenas propriedades. O colega Marcelo Rezende escreveu recentemente um belo artigo (Clique Aqui) mostrando o potencial do leite em gerar renda líquida em áreas pequenas, quando comparado com outras atividades melhor ranqueadas em valor bruto da produção. Ele menciona também que são gerados cerca de 4 milhões de empregos, além da atividade existir na maior parte dos quase 6.000 municípios do país, refletindo a relevância da atividade.
Quanto analisamos a evolução temporal dos valores absolutos (gráfico 1), porém, percebe-se que, principalmente após 2007, as culturas agrícolas tiveram um crescimento muito forte, notadamente a soja, além dos bovinos de corte. Apesar do forte crescimento, o leite teve um desempenho proporcionalmente menor, o que não invalida o “boom” que tivemos na produção, no consumo e no processamento industrial nesse período. A cana-de-açúcar foi outra cultura com desempenho significativo – pelo menos até o início do primeiro governo Dilma. Na gestão de seu antecessor, o governo estimulou o setor, tido como estratégico, atraindo muitos investimentos, o que foi descontinuado após 2010, com reflexos na perda de valor da cadeia como um todo nos últimos 2 anos.
Gráfico 1. Valor Bruto da Produção (adaptado de dados do MAPA, 2014)
Se os dados forem analisados proporcionalmente, aplicando o valor 100 para os números no ano 2000 para cada uma das culturas, percebe-se que a cadeia do leite acompanhou de perto a bovinocultura de corte, segmento que passou por grandes transformações, incluindo a consolidação de gigantes como o grupo JBS (gráfico 2).
Ainda, percebe-se que o leite vem apresentando evolução contínua, sem os altos e baixos da agricultura que, se em determinado momento trazem pujança e riqueza, em outros (nos momentos de baixa) deixam um rastro de dívidas e insolvência.
O fato é que, sem alarde, sem grandes investimentos e com uma matriz de produção baseada em um módulo de pequeno porte, o leite vem acompanhando outros segmentos em relação a crescimento. (obs: quando menciono pequeno porte, não estou falando apenas de produtores de 50, 100, 200 litros, mas comparativamente a outros setores, 1000, 2000 litros diários também sugerem um produtor que não tem grande escala).
Gráfico 2. Crescimento relativo das atividades agropecuárias em relação ao Valor Bruto da Produção (dados adaptados do MAPA, 2014).
No entanto, quando se trata de imagem, comunicação e influência, o leite não tem reputação ou status compatível com sua importância sócio-econômica e geradora de renda por área produzida. As notícias envolvendo leite são geralmente negativas: ou questões de fraude, cada vez mais recorrentes; elevação da inflação, nos momentos em que o produto sobe de preço; crises nas indústrias; leite faz mal à saúde, por aí vai. Via de regra, também, a imagem do produtor é retratada da seguinte forma: ordenha manual, baixo nível de tecnologia e asseio, situação de mera sobrevivência.
Sim, se existem fraudes, é preciso divulgá-las; se o alimento contribui para a inflação, seria ingenuidade imaginar que a mídia não iria noticiar; se a crise ocorre, será certamente notícia; e se grande parte dos produtores têm mesmo essa característica...
Mas hoje se bate no leite sem defesa! E, como uma extensão desse fato, não temos uma agenda positiva para trabalhar a sociedade– normalmente, a grandeza do leite fica restrita ao próprio setor. É um setor voltado para dentro, o que não ajuda quando se trata de mudar a imagem ou mesmo de retratar a importância específica do setor que, se não está nos bilhões de dólares gerados com as exportações, está na irrigação econômica de milhares de municípios, contribuindo para a manutenção do tecido social rural do país.
Sem dúvida há vários aspectos envolvidos na construção deste estereótipo. O primeiro é que a atividade leiteira é, em média, menos tecnificada do que a agricultura de exportação, ou do que a cana-de-açúcar. Assim, mesmo na segunda década do século XXI, um produtor tecnificado, com exploração sustentável econômica, ambiental e socialmente, que tem alta remuneração do capital, ainda é exceção. De certa forma, o estereótipo representa uma boa parte da realidade.
Ainda, o fato de o setor ser voltado para o mercado interno, sem possibilidade de alçar grandes voos no mercado internacional no curto prazo, deixando de gerar riqueza por essa via, certamente contribui para a imagem que se faz da atividade leiteira.
Por fim, a fragmentação da cadeia e os problemas decorrentes da má coordenação acabam sobressaindo, sendo expostos ao grande público e contribuindo para a percepção de que se trata de uma cadeia problemática.
O resultado é que o leite não “aparece” para a sociedade e tem dificuldades de ser respeitado mesmo dentro do agronegócio: apesar de ser a sexta cadeia produtiva, certamente gerando mais empregos do que a maior parte das que estão melhores posicionadas, o leite não costuma ser lembrado quando o assunto é discutir a agenda do agronegócio. Não me recordo da última vez que tivemos uma palestra sobre leite, por exemplo, nos ótimos congressos da ABAG. Também, o leite nunca faz parte de fóruns organizados pela mídia de massa (Estadão, Valor, Exame, Folha, etc) quando o tema é agronegócio.
Creio que está mais do que na hora de organizarmos uma ação coordenada da cadeia, ancorada nos seguintes pilares: construção de uma agenda de futuro – onde queremos chegar, o que deveremos fazer?; Divulgação para a grande mídia da importância da atividade, através de uma forte assessoria de comunicação; divulgação de casos de sucesso, empreendedorismo e novos investimentos, tanto na produção, quando no processamento; comunicação sobre benefícios do leite e lácteos para a saúde.
Paralelamente, claro, é preciso enfrentar de forma enérgica a “agenda oculta”: fraudes e contaminações que têm afetado a imagem do setor e que evidentemente não devem fazer parte de qualquer cenário futuro que possamos construir.
Hoje, não vejo estrutura de coordenação montada no setor que possa trabalhar que seja a agenda positiva acima, que envolve diversos atores da cadeia. Enquanto isso, o leite vai crescendo quieto, com suas características e dificuldades, como se não fizesse parte do agronegócio brasileiro.
