Exportações de lácteos: vamos precisar delas

As expectativas variam bastante em relação às perspectivas para o mercado de lácteos e a lição que precisamos ter é de que o país tem tudo para ser exportador.

Publicado em: - 5 minutos de leitura

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As expectativas variam bastante em relação às perspectivas para o mercado de lácteos. Muitos acreditam que o desestímulo causado pela queda de preços iniciada em dezembro e depois acentuada pela crise da Parmalat ocasionará redução na oferta e aumento nos preços de leite para essa entressafra. De fato, a elevação de preços começou e já se fala em aumentos de R$ 0,05 a R$ 0,07 por litro. Alguns produtores de porte maior nos reportam que os laticínios estão mais ávidos pelo seu leite, incluindo abertura de novas linhas de leite.

Por outro lado, há quem esteja ressabiado e prefere não contar com o ovo antes da galinha. Para estes, o consumo anda devagar, os preços no atacado e varejo não deslancham e a produção não foi afetada a ponto de se traduzir em escassez. Alegam que o planejamento para entressafra de 2004 foi feito na primavera do ano passado, com preços bons e estabilidade. Não é surpresa, portanto, que diversos produtores estejam com bom suprimento de forragens para o inverno.

O ponto que fica aqui, independentemente de como será a cara dessa entressafra, são os apuros de quem depende apenas do mercado interno. A exportação surge como um canal bastante interessante para evitar a redução de preços em momentos de mínima sobre-oferta. Nesse ponto, é inegável que estamos evoluindo. Veja no gráfico 1 que nossa balança comercial de lácteos está cada vez menos negativa. Em novembro, tivemos o primeiro superávit comercial, algo impensável há 8 ou 10 anos atrás, quando o leite, sozinho, era responsável por 10% do enorme déficit da balança comercial.


Para esse ano, as expectativas para as exportações são muito favoráveis. A trading Serlac, conforme matéria publicada no MilkPoint, espera mais do que triplicar os valores exportados no ano passado (clique aqui para ler a matéria). A Serlac espera, sozinha, exportar US$ 30 milhões, ou cerca de 62,5% do total exportado pelo país em 2003. Os diretores da empresa acreditam que o Brasil exporte entre US$ 70 e 80 milhões em 2004, aumento entre 46 e 67%. Vale lembrar que, em 2003, o Brasil importou US$ 112 milhões. A continuar a tendência dos dois primeiros meses do ano, teremos quase que atingindo o ponto de equilíbrio no balanço de lácteos.

Otávio Farias, da Hoogwegt, outra trading com presença no Brasil, estima que as importações caiam para algo próximo de 75 mil toneladas nesse ano, comparando com as 83,5 mil do ano passado. Sobre as exportações para este ano, ele aponta 50 mil toneladas, dependendo da conjuntura externa e interna. Considerando o preço médio praticado pela tonelada exportada em 2003, incluindo todos os lácteos, da ordem de US$ 1.100, isso daria US$ 55 milhões, valor alguma coisa superior ao verificado no ano passado. Supondo valores mais elevados para o preço dos lácteos no mercado externo, sua estimativa se aproxima do que sugere a Serlac. Farias aponta a redução nos subsídios na Europa como uma fator que pode impulsionar a aquisição de leite de países emergentes como o Brasil (clique aqui para ver a matéria sobre esse assunto).

Por fim, a Nestlé deve intensificar, com o passar dos anos, suas exportações via Brasil, através da DPA, conforme nos explicou em entrevista exclusiva o diretor de operações da DPA no Brasil, Gary Romano. Aliás, convido a todos a ler a entrevista. Afinal, a DPA é a principal captadora de leite no país e sua presença por aqui indica que o país terá importância como consumidor e como exportador de lácteos. Entre as novidades comentadas por ele, está o início da implementação de um sistema de pagamento por sólidos, já para abril deste ano, e a previsão de que o Brasil poderá ser exportador líquido em 2008. Leia a entrevista clicando aqui.

Todos esses são mais do que indícios, são sinais evidentes de que o país caminha no sentido de se tornar exportador de lácteos em um futuro breve, provavelmente antes de 2010. Porém, é necessário criar a tão mencionada cultura exportadora. Do ponto de vista das empresas, é fundamental conhecer os mercados em que se pretende atuar, as exigências dos clientes, o que marca pontos, o que perde pontos, o que elimina na briga por um espaço nesse mercado que, diga-se de passagem, é restrito. Vale dizer que o mercado de lácteos é um mercado maduro e já tem seus "players". O Brasil está chegando agora. É um mercado que já tem também suas sofistificações. Diversas empresas se especializam em ingredientes de alto valor agregado. Outras buscam associações globais para ganhos de escala, acesso a mercados, ganhos de tecnologia. Entender o que ocorre nesse mercado e qual será nosso papel nele é muito importante.

A cultura exportadora tem de estar também na esfera governamental. A greve dos fiscais federais é o exemplo recente mais emblemático da falta dela. Apesar da conhecida importância das exportações para a saúde econômica do país, com ênfase no agronegócio, o país se vê às voltas com uma paralisação que causou centenas de milhões de dólares de prejuízos, fora os arranhões à imagem do Brasil lá fora. Convido-os novamente a ler o artigo de quem está sentindo na pele esse problema: Fernando Sampaio, especialista no mercado de carnes e que trabalha em uma das principais importadoras da Europa, na Holanda. Para ele, mais do que os prejuízos financeiros, a imagem do país como fornecedor confiável é abalada (leia aqui o artigo). Além de perder mercados, isso tende a acarretar em sub-preço para aquisição de produto brasileiro. É o Risco-Brasil, assim como ocorre, de maneira inversa, nos juros para investimentos externos.

No leite, podemos trilhar caminho semelhante, mesmo trabalhando em um setor de commodities lácteas, onde as margens são pequenas e a padronização e a constância são fundamentais. Segundo informações, o Brasil, hoje, recebe de US$ 50 a US$ 80 a menos por tonelada de leite em pó exportada, em comparação ao produto da Nova Zelândia. Nessa diferença, está embutida a tradição do país da Oceania (ou a nossa falta de tradição no setor lácteo) e até diferenças na validade do produto, ou seja, apesar de se tratar de commodities com especificações padronizadas, há diferenças.

A lição que precisamos ter é de que o país tem tudo para ser exportador de lácteos e, com isso, gerar divisas em dólar e ter maior estabilidade de preços, mas precisa desenvolver, tanto na esfera de produção e industrialização, como na esfera governamental, a chamada cultura exportadora, sob o risco de sermos eternamente participantes secundários ou marginais nesse mercado.
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Material escrito por:

Marcelo Pereira de Carvalho

Marcelo Pereira de Carvalho

Fundador e CEO da MilkPoint Ventures.

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Jeferson Luis Beléia Farias
JEFERSON LUIS BELÉIA FARIAS

PORTO ALEGRE - RIO GRANDE DO SUL - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 26/03/2004

Dentro do contexto de consolidação do Brasil como "player" no mercado internacional, um importante passo foi a IN51 do MAPA. Porém, preocupa-me o fato de, pela aproximação de sua entrada em vigor, não vê-la sendo comentada na mídia especializada. Qual será o posicionamento atual das lideranças do setor (governo, entidades representativas, empresários, etc.)? As expectativas e incertezas, no campo, são muitas.

<b>Resposta do autor:</b>Caro Jeferson,

Obrigado pelos comentários. Concordo totalmente contigo sobre o esquecimento da IN 51 e inclusive quero escrever algo sobre isso. A aprovação da IN51 parece ter sido suficiente para implementá-la. Não sei fala mais no treinamento, na infra-estrutura necessária. O assunto caiu no esquecimento. Agindo dessa forma, vira prato cheio para termos grandes discussões a partir do segundo semestre desse ano, sobre a sua viabilidade de implantação.

Um abraco,

Marcelo

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