O condado em questão é Lancaster County, na Pennsylvania, e que figura na nona produção nos EUA, com mais de 900 milhões de kg anuais (seria o 6º maior Estado produtor de leite se estivesse no Brasil), produzidos a partir de 94.700 vacas, distribuídas em 1.938 rebanhos, ou seja, uma média de 49 vacas por fazenda, produzindo 1.270 kg de leite cada uma por dia. A média de mais de 9.500 kg/vaca/ano é superior à média do Estado e superior à média norte-americana.
Além dos solos ricos, do clima favorável e da tradição agrícola muito forte - é o condado de maior produtividade de agricultura não irrigada dos EUA - Lancaster County tem uma característica muito particular em relação à agricultura. Tem grande presença de comunidades Amish, grupo religioso originário da Europa e que procura manter intactos os valores e as características vigentes nas vilas rurais do século 17. Assim, não utilizam eletricidade, não têm carros, falam um antigo dialeto alemão (embora saibam inglês e se comuniquem nessa língua com as demais pessoas), normalmente não se casam com pessoas de fora (há inclusive um crescente problema de consangüinidade em suas comunidades), não tiram fotografias e se vestem em trajes típicos, entre outros aspectos. Os Amish têm um elevado senso de comunidade, até porque são praticamente isolados do restante do mundo, dados seus costumes.
A atividade leiteira está no sangue dos Amish. De cada 4 fazendas de leite de Lancaster, 3 são operadas por eles. Nesse sentido, pode-se dizer que são muito bem sucedidos. Ao contrário do que vem ocorrendo na pecuária de leite norte-americana, a taxa de redução do número de propriedades entre eles é surpreendentemente baixa. Enquanto nos últimos 10 anos o país perdeu nada menos do que 41% de suas fazendas de leite, entre os Amish a redução foi de apenas 5%. Os Amish preferem trabalhar com fazendas que possam ser manejadas por uma única família, sendo a mão-de-obra sempre familiar, o que ajuda a explicar o fato, mas não responde à questão de como conseguem manter pequenas fazendas competitivas frente à elevação de custos e à competitividade crescente de mercado às quais, como os demais produtores, os Amish estão sujeitos.
Beth Grove, produtora de leite que veio da Virginia, acredita que o segredo para a estabilidade está nos valores familiares e na cooperação entre os fazendeiros, que cria um tecido favorável para o desenvolvimento da atividade, mesmo em escalas de produção supostamente pouco viáveis.
Lorraine Merrill, produtora de leite e articulista da revista Hoard's Dairyman, tem a mesma opinião. Afirma que o motor da agricultura no condado de Lancaster está na dedicação da comunidade ao campo, às famílias e à cooperação mútua. Isso vale para a infra-estrutura agrícola de extensão rural e serviços.
Pode-se argumentar (suposição do autor) que, devido aos hábitos modestos, os Amish têm menos despesas e por isso não são produtores típicos, ou seja, têm custos de vida mais baixos. Também, o custo de oportunidade de seu trabalho tende a ser menor, visto que outros fatores que não apenas os econômicos pesam em decisões como abandonar a atividade rural e procurar trabalho nas grandes cidades, por exemplo.
Embora esses argumentos possam proceder, não deixa de ser intrigante o fato de, em meio aos 10 maiores municípios produtores de leite dos EUA, todos caracterizados pela alta tecnologia e pela produção em larga escala, haja uma improvável exceção, cujos integrantes permanecem presos em grande medida aos hábitos e costumes de mais de 300 anos atrás. Isso, vale frisar, no país da tecnificação, da profissionalização e do resultado econômico.
Uma primeira análise é que, apesar de paradoxal, os Amish são tecnificados. Valorizam a alta produtividade e o gerenciamento eficiente, muitas fazem controle leiteiro oficial, mantém as fazendas limpas e bem cuidadas, fazem plantio direto, rotação de culturas e têm preocupações ambientais, ou seja, o fato de serem pequenos ou mesmo de estarem com um pé no passado, são produtores familiares profissionais.
Além disso, outra possível explicação é que valores familiares e a cooperação entre famílias parecem ser características atreladas à produção de leite em qualquer lugar do mundo e, quando presentes, compensam em certo grau escalas de produção menores e outras desvantagens atreladas à pequena produção. Quando existem condições sociais e culturas para isso, o leite pode se desenvolver. No Paraguai, a comunidade Menonita, grupo religioso semelhante aos Amish, também é responsável por uma pecuária de leite bastante desenvolvida e distinta daquela verificada no restante do país.
No Brasil, embora não tenhamos estes grupos em larga escala a ponto de poder servir de exemplo, há situações onde cooperação, tradição e valores familiares se conjugam no campo, tendo como resultado o desenvolvimento da pecuária de leite. Basta acompanhar a tradição e o sucesso da atividade em colônias como as existentes no Paraná (Castro, Carambeí, Arapoti), ou o crescimento em regiões como o Oeste do Paraná, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, onde a colonização européia é forte e, com ela, o cooperativismo, os valores familiares e a própria tradição leiteira, mistura a atividade com seu o próprio modo de vida das pessoas e das famílias. Para Glenn Shirk, extensionista aposentado em Lancaster, "lá, a agricultura é um negócio, mas mais do que isso, é um modo de vida e um local para treinar e educar os jovens".
Indo a outro extremo, é fato sabido o crescimento da atividade leiteira em assentamentos da reforma agrária, seja em São Paulo ou no norte do Mato Grosso. O leite é intensivo em mão-de-obra, permite escala em áreas pequenas (o que explica também o crescimento da produção no sul do país), fixa o homem na terra e gera receitas mensais, características favoráveis ao desenvolvimento em assentamentos. Além disso, essas estruturas, à sua moda, carregam um pouco das características dos Amish: grande cooperação interna, capacidade de mobilização e provavelmente um certo sentimento de isolamento e exclusão.
No final das contas, fica a impressão de que, talvez mais do que em outras atividades agrícolas, tradição, valores familiares e cooperação mútua exercem um papel de grande importância para o desenvolvimento da atividade leiteira, explicando parte deste desenvolvimento em determinadas regiões e comunidades.
Por estes exemplos, cooperação e associativismo estão para a atividade leiteira assim como a produção em larga escala está para a moderna agricultura do cerrado. Essa característica parece transpor fronteiras e culturas, ajudando a explicar tanto a resistência de pequenos produtores no leste norte-americano, de certa forma perdidos no tempo, como as características do crescimento da atividade no Brasil, embora sob uma realidade claramente distinta.
Fotos de fazendas Amish:


