As cooperativas se movimentam
No final do ano passado, o setor recebeu uma notícia que, em função da época, teve uma repercussão menor do que merecia, ainda que se tratasse apenas de uma possibilidade. Falo das negociações em torno da fusão entre cinco centrais cooperativas: Itambé, Cemil, Minas Leite, Centroleite e Confepar. Se concretizada, a união resultaria em uma empresa produzindo 7 milhões de litros diários, tornando-se, da noite para o dia, a maior captadora de leite da América Latina.
Publicado em: - 3 minutos de leitura
Se concretizada, a união resultaria em uma empresa produzindo 7 milhões de litros diários, tornando-se, da noite para o dia, a maior captadora de leite da América Latina. Não é pouca coisa, sendo ainda mais relevante pelo fato da possibilidade envolver cooperativas, historicamente avessas a movimentações dessa natureza. Essa empresa faturaria mais de R$ 4 bilhões anuais.
Temos colocado nesse espaço, há vários anos, a importância de movimentações nesse sentido, em um mercado cada vez mais competitivo e que define claramente as opções de competição: ou se trabalha com escala, diversificação de portfólio, captação em várias regiões, acesso aos mercados interno e externo, ou se decide por ser um player regional, que pode ser lucrativo, mas sem a pretensão de competir nacionalmente.
Ocorre que esse cenário se intensificou nos últimos anos, com a chegada da Perdigão, hoje BR Foods, tornando-se a segunda principal empresa de lácteos do país. Também, o vertiginoso crescimento da Bom Gosto, a entrada da GP no leite, com a aquisição da Morrinhos e a aquisição da Vigor pelo Bertin, hoje unido ao JBS, são fatos novos no tabuleiro do setor, colocando pressão extra nos competidores atuais. Segundo notícia dessa segunda-feira (01/02), outro frigorífico de peso, o Marfrig, estaria interessado na Parmalat, o que traria mais um participante potencialmente forte ao mercado.
De fato, é bem possível que tenhamos novas etapas nesse processo de consolidação. Após a crise de 2009, que fez o capital evaporar, as coisas começam a retomar seu curso anterior. As máximas que estimularam o início do processo de consolidação continuam válidas: mercado em crescimento, ainda bastante fragmentado e algumas empresas em dificuldades, gerando oportunidades.
No último evento da NRF (National Retail Federation - a associação dos varejistas dos Estados Unidos), ocorrido em meados de janeiro, vários grandes players do setor de varejo disseram que seus planos de investimento passaram pelo México e América Latina. Tirando o México, ao se falar América Latina leia-se Brasil. Isso ocorre porque a taxa de crescimento desse segmento nos EUA será bem menor do que a nossa e essa diferença é significativa ao considerarmos nossos 190 milhões de habitantes.
Se isso ocorrerá com o varejo (e movimentos como a fusão do Pão de Açúcar com as Casas Bahia já são um reflexo disso), é provável que empresas do setor de alimentação e fundos de investimento também assim o façam. O fato é que o Brasil será o tabuleiro do jogo para os próximos anos ou, ao menos, um dos tabuleiros. Quem quiser crescer vai precisar olhar para cá.
No caso dos laticínios, em especial cooperativas, percebe-se que esse processo de consolidação vem ocorrendo lá fora e deve continuar a ocorrer. Gigantes foram criados, como a FrieslandCampina, juntando as duas maiores cooperativas da Holanda, além da associação da Nordmilch com a Humana, na Alemanha.
Mas a movimentação que deve ser acompanhada mais de perto é a da Fonterra. Após refutar um plano de abertura de capital que viabilizaria a captação de recursos visando expansão da empresa, mas colocaria em risco a propriedade da cooperativa pelos cooperados, a empresa conseguiu captar recursos adicionais dos próprios produtores, possibilitando a melhoria no balanço da empresa e provavelmente viabilizando uma maior alavancagem financeira. Resta, ainda, a criação de uma bolsa para permitir a troca de ações entre os produtores, dando maior liquidez e deixando a empresa mais próxima do funcionamento das empresas de capital aberto.
Por tudo isso, é muito oportuno que as cooperativas no Brasil entendam esse contexto e se movimentem. Certa vez, Bill Gates, o homem mais rico do mundo, disse que se não tivesse aberto o capital da empresa, reduzindo drasticamente a proporção das ações que detinha, provavelmente a Microsoft estaria ainda em uma garagem, uma alusão ao local onde a empresa foi fundada. E ele, logicamente, não seria o homem mais rico do mundo.
O que está em jogo aqui é poder competir em um mercado de alguns poucos "cachorros grandes", ou então se contentar em ser um player regional (que pode ser uma boa alternativa para muitas empresas). E, para competir nesse mercado, como ensinou Bill Gates, é necessário que o projeto econômico se sobreponha ao projeto de poder que, historicamente, caracterizou o sistema cooperativista leiteiro no Brasil.
A julgar pela notícia a respeito das negociações entre as centrais, essa mudança de abordagem está ocorrendo e, como ocorre em diversos países, será positiva para equilibrar o mercado, beneficiando, no longo prazo, mesmo as empresas não cooperativas.
Para continuar lendo o conteúdo entre com sua conta ou cadastre-se no MilkPoint.
Tenha acesso a conteúdos exclusivos gratuitamente!
Material escrito por:
Deixe sua opinião!

PATOS DE MINAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 02/02/2010
Esta "fusão" será um acontecimento da maior relevância quando for anunciada oficialmente. Teremos um player forte para disputar mercado com Nestle o que será benéfico para fornecedores de ambas empresas. Ivan Zurita prometeu dobrar o tamanho da Nestlê até 2012*, terá que captar mais leite, temos esta mega fusão capitaneada pela Itambé, temos a MARFRIG de olho na Parmalat, o Gigante JBS com a VIGOR, a BR Foods, fora fundos de private equity, todos apostando que o Brasil assumirá em curto prazo (menos de 10 anos) a posição de maior produtor de proteína animal do mundo. Cumpre ressaltar que as perspectivas para os produtores deverão melhorar com este cenário, cenário turbinado pelo crescimento da economia, que promete bater nos 6% além do imenso mercado interno. Espero que tenhamos um bom ano, ou melhor uma nova era para os produtores de leite.
Eduardo Amorim

AREIÓPOLIS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 23/07/2010
Outra alternativa é fazer com que os produtores entendam que negociar isoladamento o preço de seu produto traz essa distorção nos preços.
Sabe, eu produzo 100 litros, qto voce me paga?
Eu tenho 1 bilhão de litros para negociar, vamos sentar com os compradores e estabelecer parâmetros de preços no verão, no inverno....
Ah ! eu acredito em Papai Noel....

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS
EM 22/07/2010
EXISTE UMA COISA ENGRAÇADA, EU NUNCA VI UM PRODUTOR DE LEITE DIZENDO GANHA DINHEIRO COM A ATIVIDADE. PORQUE SERÁ QUE AS PESSOAS TIRAM LEITE EM SUAS PROPRIEDADES, POR QUE É DIVERTIDO ?
NITERÓI - RIO DE JANEIRO
EM 18/03/2010
Obrigado por sua resposta ao meu comentário. Agora só resta esperar para ver o que acontece e torcer para que advenha destas fusões e aquisições a compreenção, por parte dos compradores de leite, de que os produtores precisam ter o seu produto pago a preços justos.
Quero tomar a liberdade de indicar a leitura de meu último comentário em outro debate que está acontecendo sob o título "Leite a pasto e confinamento de gado leiteiro: o que os técnicos nunca dizem" onde faço uma análise matemática do comportamento de preços nos últimos 10 anos.
Um grande abraço.
Ramon
PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 17/03/2010
Sua preocupação pode proceder, mas qual seria a alternativa? O mercado está se concentrando (tivemos nessa semana a notícia da compra da Parmalat pelo Grupo GP) e as cooperativas atuam nesse mesmo mercado em que as grandes empresas atuam. Competem pelo mesmo consumidor, vendem aos mesmos varejistas. O produtor cooperado precisa compreender que seu resultado virá não só do preço do leite, mas também do crescimento da empresa cooperativa, como ocorre por exemplo com a Fonterra.
Abraço
Marcelo
NITERÓI - RIO DE JANEIRO
EM 17/03/2010
Li com especial atenção seu artigo e os comentários que se seguiram. Como muitos, eu também tenho receio que todas estas fusões venham trazer grande prejuizo para os pequenos e médios produtores de leite que ficaram na mão de uma mega empresa com um poder de barganha imenso se comparado com o poder de negociação dos produtores.
A verdade é que estas cooperativas são grandes centrais de compra de leite que massacram os produtores.
Uma pergunta: De que forma os pequenos e médios produtores se beneficiarão destas fusões? Outra informação parece-me que a Perdigão já entrou no mercado de leite pela marca "Elege".
Um grande abraço.
Ramon

CÁSSIA - MINAS GERAIS
EM 15/02/2010
PESQUISA/ENSINO
EM 05/02/2010
Excelente artigo, parabéns! Você pegou o X da questão - "é necessário que o projeto econômico se sobreponha ao projeto de poder que, historicamente, caracterizou o sistema cooperativista leiteiro no Brasil."
Esses cinco dirigentes estão trabalhando contra o "peso da história" e estão demonstrando enorme coragem.
Está na hora dos 40 mil produtores afetados diretamente por essa fusão, e também os centenas de milhares afetados indiretamente, apoiarem seus dirigentes e mostrarem comprometimento com suas cooperativas. Afinal de contas, quem faz a força de uma Fonterra, DFA ou FrieslandCampina são seus produtores.
Fabio
JUNDIAÍ - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA LATICÍNIOS
EM 05/02/2010
O que mais agrada aos meus olhos é a certeza que o profissionalismo, melhorará a qualidade de nossos produtos.
Preso pela qualidade por dois motivos.
Primeiramente, não tem como negar que trabalho em uma empresa que fornece equipamentos e suporte ao controle de qualidade de empresas do ramo. E isto me faz estar esperançoso.
Agora por outro lado, sou técnico em laticínios e engenheiro de alimentos e minha ética, me faz estar sempre na luta por profissionalismo e seriedade na produção da minha paixão. E o caminho que as indústria vem tomando, me conforta, pois com toda certeza, não haverá espaços para jeitinhos e todos nós só teremos o que ganhar.
Parabéns e obrigado pelo artigo.

ALTINÓPOLIS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 05/02/2010
Para mim, a resposta é um sonoro NÃO!
Torço para estar errado.

ALEGRE - ESPÍRITO SANTO - PESQUISA/ENSINO
EM 04/02/2010
BARBACENA - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 04/02/2010
Vejo com bons olhos o "despertar" do cooperativismo brasileiro rumo a competitividade de mercado. Como produtor, cooperado e ex dirigente cooperativista já ouvi muitas vezes a frase típica de cooperados sofridos no Brasil: "cooperativas não sabem vender", ou "isso aqui é um cabide de empregos".
Não concordo plenamente com a tradicional frase, mas entendo que para qualquer fusão cooperativista dar certo e ser benéfica aos produtores brasileiros, a maioria das cooperativas, principalmente as singulares ou regionais, terão que passar por um rigoroso processo de profissionalização administrativa que acima de tudo, elimine o clientelismo e a politicagem nessas instituições.
Sobre a questão da concentração, já estamos carecas de saber que essa tendência é irreversível e perigosa se não for controlada e supervisionada por agentes competentes. Já se observam regiões que devido à fusões e aquisições nos últimos anos, ficaram nas mãos de somente uma indústria sacrificando produtores e o próprio mercado regional.
O Marcelo responde brilhantemente como de costume, ao leitor Clemente dizendo que as cooperativas de certa forma ficam mais parecidas com as indústrias, não sabendo se isso seria bom ou ruim. Acho que será excelente se tiver a mesma eficiência administrativa e comercial, mas acho péssimo se a idéia for a concentração nociva de mercado objetivando a aquisição mais barata no campo, pelo monopólio em algumas regiões que será inevitável.
Acredito que seria mais razoável no caso das cooperativas uma cooperação comercial, mantendo a independência política, administrativa e patrimonial de cada uma.
Um abraço a todos;
Sávio Santiago

MINEIROS - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 03/02/2010

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE OVINOS
EM 03/02/2010
Abraços a todos
Wilson Mendes Ruas
Produtor Rural
ARAXÁ - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 02/02/2010
Acredito que se acorrer tal "fusão", será pior para os produtores em termos de remuneração,porque mesmo com os "CARTÉIS" que todos nós sabemos que existem,ainda há uma certa concorrência entre as grandes indústrias.Se unirem,será bem mais fácil para manipularem prêços.
Tudo que as indústrias pediram nos últimos anos os produtores deram.Começaram bonificando quem tivesse melhor qualidade,com várias exigências que obrigaram produtores investirem em tecnologias nada baratas.O produtor ouvia técnicos e mais técnicos falando: "VOCÊS TÊM QUE AGREGAREM VALOR" ao produto(muitos não sabiam nem o significado da palavra AGREGAR).E a famosa "PRODUTIVIDADE"?Se não produzirem muito leite com pouca vaca e baixo custo não ficarão no mercado.Vem os técnicos novamente com "INSEMINAÇÂO,SILAGEM DE ÒTIMA QUALIDADE,PIQUETES ROTACIONADOS" e etc.
Hoje com preços achatados,em muitas regiôes que não pagam nem o "custo de produção" que é alto, devido as famosas tecnologias, já nem falam em "bonificação" e sim em "PENALIZAÇÂO" para quem não consegue as metas exigidas.
Não dá para acreditar em mais nada.
Se conseguirem tal "MONOPÓLIO" será ainda mais fácil para "GIGANTE" que está prestes à nascer.

PRATA - MINAS GERAIS - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS
EM 02/02/2010
DESCALVADO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 02/02/2010
A roda não precisa ser reinventada, apenas copiada. Vamos torcer para que os idealizadores sinalizem para os seus produtores o mesmo grau de profissionalização e resultados que projetos similares apresentaram na consolidação deste segmento em outros países.

LAVRAS - MINAS GERAIS - TRADER
EM 02/02/2010
GOIÂNIA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 02/02/2010

UNAÍ - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 02/02/2010
Temos que divulgar e acompanhar com atenção as negociações.