Aliança global de lácteos: considerações sobre oportunidades e ameaças

A proposta de Aliança Global no setor de lácteos, visa pressionar a redução dos subsídios mundiais e aumento do acesso aos mercados.

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A proposta de Aliança Global no setor de lácteos, incluindo Austrália, Nova Zelândia, Argentina, Uruguai, Brasil e Chile, visando pressionar pela redução dos subsídios mundiais e aumento do acesso aos mercados, pode representar um passo importante na internacionalização do Brasil no setor de lácteos e um avanço na liberação de um dos mercados agrícolas mais distorcidos do mundo. Essa aliança e a participação do Brasil também representam mais uma ação positiva das lideranças do setor, com destaque para a Comissão de Pecuária Leiteira de CNA e seus assessores.

O projeto, capitaneado pela Austrália, visa criar um grupo de países que são prejudicados pelas distorções do mercado mundial de lácteos, tornando mais viável o combate a estas distorções, que hoje atingem só nos países da OECD quase US$ 40 bilhões ao ano.

Porém, é oportuno levantar algumas questões relativas às características dos países participantes. O ponto que chama a atenção é que, dos 6 países envolvidos, há 4 exportadores líquidos, 1 relativamente equilibrado (Chile) e 1 (grande) importador líquido: justamente o Brasil. Olhando as previsões da FAO para daqui a 10 anos, a situação pouco se altera: o Brasil continuará sendo um grande importador líquido, pois o crescimento da produção (previsto em 3,6% ao ano) não será suficiente para compensar o crescimento no consumo (previsto em 3,3% ao ano). As exportações serão irrisórias. A tabela 1 traz o balanço previsto pela FAO para 2010, para os 6 países em questão:

Tabela 1. Produção, consumo, importações, exportações e comércio líquido dos países da possível Aliança Global de lácteos
 

 


Olhando a tabela acima, nota-se que à exceção do Brasil, todos os demais países serão exportadores líquidos, com destaque para Nova Zelândia e Austrália, justamente os maiores interessados na redução dos subsídios e no acesso aos mercados internacionais. Pelas previsões (ver gráfico 1), esses dois países concentrariam nada menos do que 51% das exportações totais de lácteos em 2010. Um detalhe interessante é que duas outras previsões feitas apontam o Brasil como importador líquido em 2010, sendo uma delas feita por Ricardo James, homem-forte da indústria láctea argentina, e outra apresentada por Ivan Wedekin, da RWC Consultores, no congresso da ABAG desde ano:

Tabela 2. Previsões sobre produção, consumo e déficit/superávit de lácteos no Brasil para 2010 (em 1000 toneladas)

 

 



Em resumo, todas as previsões indicam que, em 2010, o Brasil ainda será importador líquido de leite, embora a ordem de grandeza possa ser discutida. Mesmo considerando que o país não seja importador líquido em 2010, dificilmente será um grande exportador, ainda mais se comparado com Austrália e Nova Zelândia, cuja participação no mercado destoa das demais regiões do mundo (gráfico 1).

Gráfico 1. Previsão das exportações mundiais de lácteos em 2010, por região (em 1000 toneladas) - Fonte: FAO

 



Avaliando os dados de consumo, nota-se que o Brasil está entre os países que deve apresentar maior crescimento absoluto e per capita na demanda de lácteos (daí o fato de continuar sendo importador líquido), com acréscimo de mais de 9 bilhões de litros/ano na demanda (gráfico 2), representando mais de 33 kg/habitante/ano de acréscimo no consumo per capita, o terceiro maior do mundo, atrás apenas de República Tcheca e Hungria, países da ex-cortina de ferro, que estão recuperando agora as suas economias solapadas pelo final do comunismo na região.

Gráfico 2. Países com maior aumento na demanda por lácteos em 2010 (em 1000 toneladas) - Fonte: FAO

 



É evidente que esse quadro pode não ocorrer tal qual planejado. Pode não haver o aumento esperado no consumo de lácteos; com isso, a produção pode crescer mais do que o previsto; os preços no mercado internacional podem subir em função da redução dos subsídios e das tarifas de proteção, o que poderia resultar em um maior estímulo à produção interna.

De qualquer forma, à luz das expectativas atuais, chama a atenção o fato do Brasil ser o país que distoa do grupo reunido acima. Também, é o país com maior potencial de consumo do grupo, consumo esse que não será suprido pela demanda interna, segundo as previsões. Do outro lado, ou melhor, do mesmo lado, temos 5 países com vocação exportadora já definida e consolidada, especialmente Argentina, Uruguai (ambos com grande interesse no mercado brasileiro), Nova Zelândia e Austrália (que dominarão o mercado externo de lácteos). Os últimos dois com enorme diferencial, verdadeiras superpotências do mercado externo de lácteos, tanto é que já coordenam ações como a formação da Aliança Global.

Face a essa realidade, embora seja oportuno e necessário que o Brasil flerte e mesmo faça parte da Aliança Global, visto que o mal maior certamente é o protecionismo do setor, sendo necessária a união para seu combate mais efetivo, é importante que as lideranças envolvidas fiquem sempre atentas aos reais interesses dos países membros e se esforcem ao máximo para garantir que nossos interesses sejam considerados.

Essa análise não embute pessimismo - pelo contrário, certamente é boa notícia o fato do mundo esperar que nosso crescimento de consumo seja um dos maiores do planeta, sendo esse o ponto que coloca em dúvida a consolidação do Brasil como exportador de lácteos. Não devemos, porém, nos iludir com momentos ou impressões que podem não representar (ainda) a realidade, visto que, em função das primeiras (e sem dúvida promissoras) iniciativas no mercado externo, é cada vez mais comentado o fato do Brasil já ser um verdadeiro "exportador" (veja a notícia de hoje: Países exportadores de leite lançam aliança global). Ainda não chegamos lá. Até para facilitar nossa caminhada nesse sentido, é bom certo grau de precaução e análise crítica.

Afinal, pelo menos no cenário analisado, o Brasil aparece ao mundo muito mais um apetitoso mercado em crescimento do que como um competidor de peso no mercado internacional.

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Material escrito por:

Marcelo Pereira de Carvalho

Marcelo Pereira de Carvalho

Fundador e CEO da MilkPoint Ventures.

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