
O que viabiliza esse comportamento é algo simples de ser explicado. Primeiro, o varejo desfruta de uma posição privilegiada na cadeia, ficando cara a cara com o consumidor, o que lhe permite conhecer a fundo os seus hábitos de compra e lhe confere vantagens significativas de comunicação: é o último que fala ao consumidor, é o primeiro que o ouve. É, portanto, quem está mais próximo ao consumidor. Segundo, o varejo desfruta de enorme e crescente poder de barganha junto ao restante da cadeia, o que lhe permite capitalizar ao máximo a situação já confortável na cadeia de produção, industrialização e consumo.
O comportamento do varejo, ao jogar as marcas contra o consumidor, cria um duplo apelo sentimental, de duplo sentido: de um lado, favorável ao varejo, por colocá-lo ao lado do consumidor na briga por preços mais baixos; de outro lado, negativo em relação às marcas de produtos que procuraram reajustar seus preços, colocadas como vilãs do momento, o que não é nada confortável, evidentemente.
Vale dizer que a briga por não reajustar os preços é defensável, sob a ótica do consumidor. Ninguém quer que os preços aumentem. O risco de aumento da inflação a níveis que forcem a indexação é elevado e legitima a posição do varejo. O que o consumidor nem sempre sabe é que o varejo não é o santo cuja imagem tenta passar, nem os fornecedores são o diabo que a mensagem acima sugere. Claro que aumentos abusivos e injustificáveis podem ocorrer no bojo dos ajustes de preços, o que deve ser de fato combatido. Porém, o aumento dos custos basicamente ocorre em função da elevação dos custos indexados ao dólar, como as matérias-primas e embalagens. O setor leiteiro vivencia isso na pele. Pelo lado do varejo, sabe-se que, embora em determinados produtos realmente se trabalhe com margens baixas (os chamados produtos "chamariz"), em muitos casos as margens do varejo são bastante elevadas, tendo espaço para segurar o aumento de preços sem jogar a bomba toda no colo do restante da cadeia.
A questão aqui, porém, não é a de criticar a postura comercial do varejo, de forma puramente emocional, ainda que ela afete negativamente o setor. Afinal, tudo o que o varejo faz é explorar ao limite do possível a sua posição privilegiada na cadeia e a sua força de barganha. Pode-se questionar a ética em diversas ações, mas o fato é que joga-se de acordo com as regras do jogo, um jogo no qual o mais forte leva vantagem sobre o mais fraco. Se o jogo é justo ou não, é outra conversa, mas a realidade é que o varejo usufrui e muito bem, diga-se de passagem, das suas vantagens e de seu poder. É o livre mercado levado às últimas conseqüências.
Como sair dessa situação ?
Em dois artigos sobre o assunto, escritos no MilkPoint, o Prof. Laranja abordou algumas estratégias para limitar o poder de fogo do grande varejo. Entre estas estratégias, está a imposição de restrições para abertura de novas lojas em determinadas cidades e limitações no tamanho e na localização das lojas, entre outras. A cobrança de impostos diferenciados e a exigência de diversas concessões para abertura de novas lojas estão também entre as barreiras para amenizar o impacto do crescimento do grande varejo na economia local.
Do lado da indústria, não é fácil mudar esta ordem. Há, porém, algumas estratégias que podem ser utilizadas. As indústrias podem procurar estimular o pequeno varejo em detrimento do grande varejo, ainda que seja arriscado e não pareça lógico em função dos volumes adquiridos. É preciso lembrar que, segundo dados publicados na Revista Exame, 55% do comércio ocorre em pequenos varejos, ou seja, por mais que as grandes redes tenham importância crescente e indiscutível na cadeia, o maior montante é negociado ainda com redes de menor porte, cujas condições comerciais são menos leoninas. Embora individualmente as grandes redes tenham um peso significativo, o grosso ainda é vendido pelas redes menores.
E esse estímulo ao pequeno talvez já aconteça. Ao adquirir a rede Sé, em São Paulo, o Pão de Açúcar verificou que vários produtos foram adquiridos a preços mais baixos pelo Sé do que pelo Pão de Açúcar, embora em volumes bem menores. O mercado interpretou isso como sendo uma tentativa das indústrias de favorecer as redes menores e, com isso, manter a competição no setor. Mas não é fácil adotar esse comportamento, e nem sempre possível. Mas é um caminho.
Outra atitude que pode ser interessante, aí há falando especificamente de leite, é (a própria indústria, o governo) investigar marcas de lácteos vendidas a preços muito baixos, o que pode sinalizar dumping e/ou fraudes.
No caso do leite, há até uma ironia nessa questão. O longa vida, que tomou o espaço no mercado de leite fluido no país, graças em grande parte à preferência dos supermercados por esse produto (o longa vida cresceu junto com os supermercados), agora se vê em uma situação complicada, refém do grande varejo, que tem à sua disposição dezenas de marcas com as quais negociar, com diferenciação mínima aos olhos do consumidor. Cerca de 86% do leite longa vida é comercializado no grande varejo, contra 28% para o leite pasteurizado, que ainda é vendido relativamente bem em padarias e mercearias (57%). Para complicar a situação, o longa vida é um dos produtos chamariz, para os quais os supermercados não fazem questão de ganhar muito, sendo importante vender a preços os mais baixos possíveis. É um nó difícil de desatar para o setor leiteiro.
Para ler os artigos do Prof. Laranja sobre o tema, clique nos links abaixo:
O caso dos supermercados: seu impacto sobre a cadeia do leite e estratégias para controle do abuso econômico (Parte 1)
O caso dos supermercados: seu impacto sobre a cadeia do leite e estratégias para controle do abuso econômico (Parte 2)