Um retrato do faturamento lácteo no varejo em 2025

A estrutura de faturamento observada reforça a importância de um portfólio equilibrado, que combine categorias de alto giro e menor margem com produtos de maior valor agregado.

Publicado em: - 5 minutos de leitura

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O varejo atual é influenciado principalmente pelas escolhas dos consumidores, que redefinem categorias e faturamento. O arroz, por exemplo, perde espaço para produtos como água e laticínios, especialmente queijos, que dominam o faturamento. Em 2025, muçarela e requeijão destacam-se, enquanto leite UHT enfrenta desafios de margem. Iogurtes e leite em pó ganham relevância pela conveniência e durabilidade. A análise do consumo revela a necessidade de um portfólio equilibrado, focando em categorias de alto giro e maior valor agregado.
O varejo já não é mais guiado apenas por oferta, tradição ou força de marca. Agora é o consumidor quem dita, de forma cada vez mais clara, o que cresce, o que perde espaço e, principalmente, onde se concentra o faturamento. Suas escolhas, influenciadas por preço, conveniência, ocasiões de consumo e percepção de valor, estão redesenhando a dinâmica competitiva dentro das gôndolas.

Esse movimento já é visível em diferentes categorias. O arroz, por exemplo, um produto centenário e símbolo da alimentação brasileira, vem perdendo espaço na mesa e mudando de perfil nas prateleiras: embalagens maiores, como as de 5 kg, cedem lugar a formatos menores (2 kg ou 1 kg), mais alinhados a novos padrões de consumo. Em paralelo, categorias antes secundárias ganham protagonismo, como a água, que deixou de ser um item complementar para ocupar uma seção própria e cada vez mais diversificada nos supermercados.

Assim, mais do que acompanhar tendências, entender como o consumidor distribui seu gasto entre as categorias tornou-se uma ferramenta estratégica para toda a cadeia. Não se trata apenas de saber o que vende mais em volume, mas de identificar quais produtos concentram valor, sustentam margens e puxam o desempenho do setor.

Com esse olhar, analisamos os dados de faturamento de uma grande rede varejista em 2025 para mapear como se estrutura o consumo de lácteos no Brasil (Figura 1). O resultado revela um retrato claro de onde se concentra o valor no varejo e, consequentemente, para onde devem apontar as decisões estratégicas do setor. 

Figura 1. Ranking das categorias de lácteos mais vendidos no varejo em 2025. Fonte: Resultados da pesquisa.

 

 

A leitura da figura 1 evidencia a forte concentração do faturamento em poucas categorias-chave, com destaque para os queijos. Liderando com quase 30% de participação, essa categoria combina dois atributos raros: presença no consumo cotidiano e capacidade de agregação de valor. Trata-se de um grupo extremamente versátil, que atende desde o consumo básico (como a muçarela no dia a dia) até ocasiões mais sofisticadas, com queijos especiais e artesanais.

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Dentro desse universo, dois produtos se destacam como verdadeiros pilares do faturamento: a muçarela, com cerca de 9%, e o requeijão, com 7,1%. Ambos estão bem inseridos nos hábitos alimentares do brasileiro, seja no café da manhã, em preparações rápidas ou em pratos amplamente difundidos, como pizzas e sanduíches. Essa combinação entre alta frequência de consumo e ampla aplicabilidade culinária ajuda a explicar seu peso no faturamento. Ao mesmo tempo, os queijos diferenciados, embora com menor volume, contribuem para elevar o ticket médio da categoria, especialmente em ocasiões de consumo mais indulgentes e sociais.

Na sequência, o leite UHT mantém sua posição como um dos principais motores do setor. Sua relevância está diretamente associada à sua função estrutural na cesta de compras das famílias brasileiras. Mesmo sendo uma categoria de menor valor agregado, sua elevada penetração e frequência de compra garantem uma participação robusta no faturamento. No entanto, trata-se de um segmento cada vez mais pressionado por preço, sensível a oscilações de renda e com menor espaço para diferenciação, o que impõe desafios constantes para a indústria em termos de margem.

O iogurte, com participação próxima a 10%, reforça uma tendência importante do consumo: a busca por conveniência aliada à percepção de saudabilidade. É uma categoria que dialoga com diferentes momentos do dia, especialmente lanches intermediários, e que se beneficia de inovação constante em sabores, formatos e propostas de valor. Ainda assim, seu desempenho também reflete a necessidade de equilibrar preço e benefício percebido, sobretudo em um ambiente de consumo mais racional.

O leite em pó, por sua vez, evidencia a relevância dos produtos com maior durabilidade e versatilidade. Além do consumo direto, ele ocupa um papel estratégico no abastecimento doméstico, funcionando como alternativa ao leite fluido em determinados contextos de preço ou logística.

Já a categoria que reúne leite condensado e mistura láctea condensada ilustra com clareza a dinâmica de substituição que vem ganhando força no mercado. Embora o leite condensado tradicional ainda concentre a maior fatia, a mistura láctea tem avançado impulsionada por seu posicionamento mais acessível. Esse movimento revela um consumidor atento ao custo, disposto a ajustar escolhas sem necessariamente abrir mão de determinadas ocasiões de consumo, como sobremesas e preparações caseiras.

As demais categorias, apesar de menor participação individual, desempenham papéis relevantes ao ampliar o portfólio e atender nichos e ocasiões específicas. Muitas delas estão associadas a momentos de consumo mais definidos ou a propostas de valor específicas, como indulgência, praticidade ou funcionalidade, contribuindo para a diversificação da oferta e para a captura de diferentes perfis de consumidor.

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Essa leitura do faturamento por categoria vai além de uma fotografia do mercado. Ela indica caminhos claros de posicionamento, portfólio e captura de valor:

1. Queijos são o principal motor de valor e ainda têm espaço para sofisticar: a liderança da categoria não se explica apenas por volume, mas pela capacidade de transitar entre o básico e o premium. Há espaço para capturar mais valor via segmentação (fatiados, porcionados, conveniência) e diferenciação (origem, qualidade, indulgência). Trabalhar bem mix e exposição no ponto de venda é decisivo.

2. Muçarela e requeijão sustentam o dia a dia e pedem eficiência: são produtos de altíssima frequência e forte presença nos lares. Aqui, competitividade passa por escala, eficiência operacional e consistência de qualidade. Pequenos ganhos de participação geram grande impacto em faturamento.

3. Leite UHT exige estratégia de margem, não de volume: é uma categoria essencial, mas cada vez mais pressionada por preço. Crescer apenas via volume tende a comprometer rentabilidade. O desafio está em capturar valor com diferenciação possível (ex: versões alto teor proteico, sem lactose, com identificação de origem) e gestão fina de custos.

4. Iogurte confirma a força da conveniência com saudabilidade: o desempenho da categoria mostra que o consumidor responde bem a propostas práticas com apelo de bem-estar. Inovação em formatos, ocasiões de consumo e comunicação de benefícios é importante, mas precisa vir acompanhada de preço percebido como justo.

5. Mistura láctea não é exceção. É tendência estrutural de trade down: o avanço das misturas frente ao produto tradicional revela um consumidor mais sensível ao preço, que ajusta escolhas sem abandonar categorias. Ignorar esse movimento pode significar perda de mercado. Portanto, entender como posicionar portfólio em diferentes faixas de preço passa a ser essencial.

6. Leite em pó ganha relevância como produto de segurança e flexibilidade: sua presença reforça o papel de categorias que oferecem maior durabilidade e adaptabilidade ao orçamento doméstico. Em cenários de incerteza, tendem a ganhar espaço relativo.

7. Categorias menores não devem ser avaliadas apenas pela participação, mas pelo papel que cumprem: diferenciação, margem, inovação ou ocupação de nichos. Um portfólio eficiente não é só concentrado, é bem estruturado.

De forma geral, a estrutura de faturamento observada reforça a importância de um portfólio equilibrado, que combine categorias de alto giro e menor margem com produtos de maior valor agregado. Portanto, em um mercado cada vez menos guiado pela oferta e mais pelas escolhas do consumidor, competir bem não é apenas vender mais, mas estar posicionado nas categorias certas, com o mix certo e no nível de valor que o consumidor está disposto a pagar.

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Material escrito por:

Kennya Siqueira

Kennya Siqueira

Pesquisadora da Embrapa Gado de Leite

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