Perdas embrionárias em gado de corte e de leite
A lucratividade dos sistemas de produção de gado de corte ou de leite está relacionada com a eficiência reprodutiva do rebanho, que pode ser afetada por perdas reprodutivas ocasionadas por doenças infecciosas.Estudos demonstram que cerca de 40 a 50% das causas de perdas de gestação estão relacionados a doenças infecciosas e dentre os agentes infecciosos a IBR, BVDV e leptospirose vem sendo associadas a desordens reprodutivas.
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Introdução
A lucratividade dos sistemas de produção de gado de corte ou de leite está relacionada com a eficiência reprodutiva do rebanho, que pode ser afetada por perdas reprodutivas ocasionadas por doenças infecciosas.
Estudos demonstram que cerca de 40 a 50% das causas de perdas de gestação estão relacionados a doenças infecciosas e dentre os agentes infecciosos a IBR, BVDV e leptospirose vem sendo associadas a desordens reprodutivas [1].
O vírus da IBR tem efeito negativo na fertilidade, pois influencia na qualidade dos embriões, causa morte embrionária e abortos [5,6]. Estima-se que 70 a 90% das infecções por BVDV ocorram sem a manifestação de sinais clínicos e que o principal problema econômico é decorrente da infecção intra-uterina, que pode estar associada a morte embrionária e aborto [3,4]. A leptospirose também pode causar morte fetal, abortos e infertilidade [2]. O objetivo deste estudo foi avaliar a taxa de perda de gestação e o efeito da vacinação contra doenças reprodutivas no início do protocolo de IATF na taxa de prenhez em vacas de corte e em vacas de leite em lactação.
Material e Métodos
Foram realizados 05 experimentos para determinar o efeito da vacinação contra IBR, BVDV, Leptospirose, PI3, BRSV nas taxas de prenhez e de perda de gestação de vacas de corte (n=6145) e vacas de leite em lactação (n=1960) após IATF.
No experimento 01 e 02 foram utilizadas vacas nunca vacinadas contra doenças reprodutivas e no experimento 03 os animais recebiam imunização para Leptospirose semestralmente. Nos experimentos 01, 02 e 03 as vacas receberam o mesmo protocolo de IATF [D0-2mg de benzoato de estradiol (Estrogin) e inserção de dispositivo intravaginal contendo 1,9g de progesterona (CIDR®); D7-dinoprost trometamina (PGF2α, 12,5mg, Lutalyse); D9-remoção do dispositivo, administração de Cipionato de Estradiol (1mg, ECP®) e Remoção de Bezerros; D11-IATF]. No experimento 01, nenhum esquema de vacinação foi realizado e foram avaliadas 3464 gestações em 20 propriedades para determinar a taxa de perda de gestação entre 30 e 120 dias. O experimento 02 foi realizado em 07 propriedades, foram utilizadas 2384 vacas, divididas aleatoriamente dentro do mesmo lote para receberem ou não a vacina contra IBR/BVD/Leptospirose (5,0 mL, i.m., Cattle Master® 4 + L5, Pfizer Animal Health, Lincoln, USA) seguindo o seguinte esquema de vacinação: primeira dose no inicio do protocolo de IATF e a segunda dose (reforço) no momento do primeiro diagnostico gestacional (30 dias pós IATF). O experimento 03 foi realizado em 01 propriedade, foram utilizadas 297 vacas divididas aleatoriamente dentro do mesmo lote para receberem ou não a vacina contra IBR/BVD/Leptospirose, entretanto a primeira vacinação ocorreu trinta dias antes do inicio do protocolo de IATF e a segunda dose no inicio do protocolo de IATF, caracterizando um esquema de pré-vacinação.
Em vacas de leite, no experimento 04 foram utilizadas 1140 vacas com produção de leite de 21,3 ± 8,2 Kg/dia de 37 propriedades que não realizavam a vacina contra IBR/BVD/Leptospirose e no experimento 05 foram utilizadas 820 vacas com produção de leite de 24,5 ± 8,7 Kg/dia em 16 propriedades que utilizavam vacinação contra IBR/BVD/Leptospirose em seu programa sanitário anual. Nestes dois experimentos todas as vacas foram inseminadas em tempo fixo com o protocolo: D0-aplicação de cipionato de estradiol (2mg, ECP) e inserção de dispositivo intravaginal contendo 1,9g de P4 (CIDR); D7-aplicação de prostaglandina (12,5mg, Lutalyse); D9-retirada do dispositivo e aplicação de cipionato de estradiol (1mg, ECP); D11-IATF. No inicio do protocolo de IATF as vacas foram divididas aleatoriamente em dois grupos para receber ou não uma dose da vacina (5,0 mL, i.m., Cattle Master® 4 + L5). Aos 30 dias após a IATF, foi realizado o primeiro diagnóstico de gestação e revacinação das vacas do grupo vacinadas do experimento 04. O segundo diagnostico de gestação foi realizado 41 dias após para determinar a taxa de prenhez do dia 71 e perda de prenhez entre 30 e 71 dias de gestação. Os dados foram analisados por regressão logística do SAS.
Resultados
No Experimento 01, houve efeito de fazenda (P < 0,05) [resultados variando de 1,45% (2/138) a 12,16% (9/74)] e de ordem (P < 0,05) [Primíparas: 9,03% (13/144); Multíparas: 5,06% (168/3320)] na taxa de perda gestacional entre 30 e 120 dias. No experimento 02 houve efeito de tratamento (P < 0,01) nas taxas de prenhez aos 30 [Controle: 53,2% (662/1244) e Vacinadas: 57,4% (654/1140)] e 120 dias [Controle: 48,3% (567/1174) e Vacinadas: 53,5% (578/1080)]. No experimento 03 foi detectado tendência (P < 0,10) de efeito de tratamento nas taxas de prenhez aos 30 [Controle: 52,9% (81/153); Vacinadas: 59,7% (86/144)] e 120 dias [Controle: 50,0% (75/150); Vacina: 57,7% (82/142)]. No experimento 04 os animais que receberam Cattle Master® 4 + L5 tiveram maior (P < 0,05) taxa de prenhez [44,4% (257/579) vs. 37,6% (211/561)] no dia 30; maior (P < 0,01) taxa de prenhez [41,1% (238/579) vs. 31,7% (178/561)] no dia 71 e menor (P < 0,01) perda de prenhez [7,4% (19/257) vs. 15,6% (33/211)] entre 30 e 71 dias de gestação em relação ao grupo controle. No experimento 05 vacinação no inicio do protocolo de IATF não melhorou (P=0,8) a taxa de prenhez no dia 30 [34% (131/385) vs. 34,7% (151/435)]; no dia 71 (P=0,88) [30,6% (118/385) vs. 30,1% (131/435)] e na perda de prenhez (P=0,19) [13,2% (20/435) vs. 9,9%(13/385)] em relação ao grupo controle.
Conclusão
Estes resultados mostram que existem fazendas com diferentes taxas de perda de gestação, e que a utilização da vacina Cattle Master® 4 + L5 teve impacto positivo nas taxas de prenhez. Em vacas que já recebem Cattle Master® 4 + L5 em seu programa sanitário anual não é necessária outra vacinação no inicio do protocolo de IATF.
Referências
1 Grooms D.L. 2010. Programas para controle de doenças infecciosas e melhoria do desempenho reprodutivo. In anais do XIV Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos (Uberlandia - Brasil).
2 Grooms D.L. 2010. Diagnóstico e controle de perdas reprodutivas causadas por leptospira spp. In anais do XIV Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos (Uberlandia - Brasil).
3 Grooms D.L., Bolin S.R., Coe P.H., Borges R.J. &Coutu C.E. 2007. Fetal protectionagainstexposuretobovine viral diarrheavirusfollowingadministrationof a vaccinecontaininganinactivatedbovine viral diarrheavirusfractiontocattle. American JournalofVeterinaryResearch. 68(12):1417-1422.
4 Grooms D.L. 2004. Reproductiveconsequencesofinfectionwithbovine viral diarrheavirus. The VeterinaryClinicsof North America. Food Animal Practice. 20(1):5-19.
5 Kelling C.L. 2007. Viral DiseasesoftheFetus. Universityof Nebraska - Lincoln. Published, as Chapter 50, in CurrentTherapy in Large Animal Theriogenology (2nd Saunders-Elsevier). 399-408.
6 Miller J.M. &Maaten Van Der M.J. 1986. Experimentallyinducedinfectiousbovinerhinotracheitisvirusinfectionduringearlypregnancy: effectonthebovine corpus luteumandconceptus. American JournalofVeterinaryResearch 47(2): 242-240.
Material escrito por:
Ricarda Maria dos Santos
Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia. Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.
Acessar todos os materiaisJosé Luiz Moraes Vasconcelos
Médico Veterinário e professor da FMVZ/UNESP, campus de Botucatu
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