Manipulação nutricional do balanço energético pós-parto e o impacto sobre a fertilidade - Parte 2
Este novo artigo do Radar de Reprodução sobre manipulação nutricional do balanço energético pós-parto e o impacto sobre a fertilidade é parte da palestra apresentada por Phil Garnsworthy, University of Nottingham, no XVII Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos, realizado em Uberlândia em março de 2013. Por Ricarda Santos e José Luiz Vasconcelos
Publicado em: - 6 minutos de leitura
Balanço energético e mérito genético
O impulso biológico para que uma vaca alcance o ECC alvo parece ser tão forte quanto o impulso geneticamente programado para alcançar o pico de produção de leite. Também parece que o ECC biológico alvo é determinado pela genética. Em estudo clássico relatado por Holmes (1988), vacas de alto mérito genético mostraram um ECC alvo mais baixo do que as vacas de baixo mérito genético. Os dois grupos conseguiram alcançar seus alvos, quer tivessem um ECC alto ou baixo no momento do parto.
Jones et al. (1999) encontraram diferenças fenotípicas e genéticas entre touros com relação à forma das curvas de ECC seguidas por suas filhas. Estes dados sugerem que deve ser possível selecionar touros com base nas curvas de ECC de suas filhas, mas ainda é preciso determinar se as curvas genéticas de ECC estão relacionadas com a fertilidade.
Dechow et al. (2002) examinaram as correlações entre ECC e perda de ECC nos registros de 310 mil lactações. Fenotipicamente, aumento no ECC ao parto estava associado a maior perda de ECC na fase inicial da lactação, como era esperado se as vacas estiverem tentando alcançar os alvos biológicos para o ECC. Geneticamente, entretanto, o ECC mais elevado ao parto estava correlacionado com menor perda de ECC durante a fase inicial da lactação. Em outras palavras, as condições de manejo que aumentaram o ECC ao parto resultaram em maior perda de ECC, mas geneticamente as vacas gordas mantêm o ECC na fase inicial da lactação. Diferenças entre as relações fenotípicas e genéticas também são observadas para as características de fertilidade e ECC (Pryce et al., 2001).
Este resultados fenotípicos e genéticos conflitantes enfatizam a importância de distinguir entre a gordura genética e a gordura fenotípica, quando se procura controlar o balanço energético através da manipulação do ECC. Por isso, o ECC ao parto precisa ser avaliado em relação ao alvo genético da vaca.
Escore de condição corporal na fase mais tardia da lactação e no período seco
O balanço energético negativo pode ser parcialmente reduzido pelo plano nutricional durante a fase inicial da lactação. Contudo, benefícios muito maiores podem ser alcançados controlando o ECC durante a fase intermediária e a fase final da lactação e o período seco. Nestas duas fases da lactação, o ECC geralmente aumenta (Mao et al., 2004), mas algumas vezes é mantido nos níveis alvo (Yan et al., 2006), e poderia diminuir se o suprimento de ração for restringido (Pryce & Harris, 2006). Não está claro se o ECC geralmente aumenta no final da lactação porque os ECCs alvo variam com o estágio da lactação, o sinal de feedback está infra-regulado, ou diferentes restrições passam a ser prioritárias. A diminuição na produção de leite, acoplada a um consumo relativamente elevado de matéria seca, levaria a aumentos no status da insulina. Aumentando a insulina, o depósito de gordura corporal estaria estimulado, mas o feedback da leptina e os fatores a ela associados teriam um efeito retardado sobre o consumo de matéria seca (Chilliard et al., 2001).
É mais provável que o ECC aumente durante o período seco do que durante lactação, porque a insulina plasmática está consideravelmente mais elevada nas vacas secas (Grum et al., 1996). Por esta razão, os produtores que querem aumentar o ECC das vacas que estão magras no período de secagem muitas vezes alimentam as vacas secas acima de seus requerimentos para manutenção e prenhez. Por outro lado, vacas com ECC elevado no período de secagem muitas vezes são alimentadas em plano nutricional baixo, para que a gordura corporal seja mobilizada no final da prenhez. Estas práticas deveriam ser evitadas. Não há nenhum benefício em ter um ECC mais alto no momento do parto, o que irá aumentar balanço energético negativo e a susceptibilidade a doenças. Vacas que perdem ECC durante o período seco têm maior tendência a distocia (Gearhart et al., 1990; Keady et al., 2005) e têm uma tendência maior a serem descartadas na lactação subsequente (Gearhart et al., 1990). A melhor estratégia é monitorar o ECC no final da lactação e assegurar que a vaca tenha o ECC desejado ao parto quando é feita a secagem.
Escores de condição corporal alvos para produção e fertilidade
A relação entre o ECC ao parto e a mudança no ECC durante as primeiras 10-12 semanas de lactação é similar à vista 20 anos atrás. O ECC ao parto previsto para não sofrer alteração na fase inicial da lactação diminuiu de 2,49 nos estudos mais antigos para 2,10 em estudos recentes. Uma perda de 0,5 unidades de ECC é considerada como aceitável e proporciona uma margem de segurança para permitir a inclusão da variação entre vacas de um mesmo rebanho. Por isso, a recomendação é que o ECC ao parto deve estar na faixa entre 2,5 e 3,0, de forma a minimizar o balanço energético negativo.
Conclusões
As alterações no ECC durante a fase inicial da lactação enfatizam o papel da gordura corporal no controle do consumo de ração e do balanço energético. A forte relação entre o ECC ao parto e as alterações no ECC proporcionam evidência de que as vacas têm um ECC alvo na fase inicial da lactação. As vacas que estão acima de seu ECC alvo mobilizam gordura corporal; as vacas que estão abaixo de seu ECC alvo ganham gordura corporal. A velocidade com que uma vaca muda seu ECC para atingir seu alvo é afetada pela composição da dieta, bem como pelo seu ECC atual. Dietas pobres em energia e ricas em proteína aumentam a perda de ECC em vacas que estão acima do ECC alvo. Dietas pobres em energia reduzem o ganho de ECC em vacas que estão abaixo do ECC alvo.
Na fase inicial da lactação, vacas de elevado mérito genético têm maior probabilidade de apresentar um balanço energético negativo mais profundo e mais prolongado. O balanço energético negativo é indesejável porque reduz o desempenho reprodutivo e aumenta a susceptibilidade a doenças. Por isso, os ganhos financeiros de curto prazo com a produção extra de leite por vacas que estão gordas ao parto serão acompanhados por perdas financeiras de longo prazo por causa do descarte prematuro destas vacas. Mudanças no ECC durante o período seco são indesejáveis, de tal forma que o ECC deve ser monitorado e ajustado na fase final da lactação para assegurar que as vacas sejam submetidas à secagem com o ECC apropriado para o parto.
Para reduzir o impacto do balanço energético negativo sobre a saúde e o desempenho da vaca, o ECC ao parto não deve ser maior de 0,5 unidade acima do ECC alvo da vaca. Vacas de baixo mérito genético para produção de leite (ECC alvo 2,5-3,0) devem parir com ECC de 3,0 ou menos; vacas de alto mérito genético para produção de leite (ECC alvo 2,0-2,25) devem parir com ECC de 2,75 ou menos. A mensagem mais importante para os produtores é que aumentar o ECC ao parto exacerba os problemas de balanço energético negativo ao invés de superá-los.
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Material escrito por:
Ricarda Maria dos Santos
Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia. Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.
Acessar todos os materiaisJosé Luiz Moraes Vasconcelos
Médico Veterinário e professor da FMVZ/UNESP, campus de Botucatu
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SÃO JOSÉ DOS CAMPOS - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 21/06/2013
UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 21/06/2013
O problema da vaca gorda ao parto é que a ingestão dela no pós-parto vai ser menor, e com isso ela vai perder mais peso.
UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 21/06/2013
Obrigada pela participação!
Não devemos fazer a vaca perder peso no período seco pois estaríamos antecipando os distúrbios metabólicos referentes a perda de peso no pós-parto para antes do parto. E não devemos deixar para corrigir o escorre corporal de vacas que estão magras no período seco porque seria inviável economicamente, e mais fácil corrigir o baixo ECC no terço final de lactação.
UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 21/06/2013
É isso mesmo, é como fazer dieta. Redução da ingestão de energia resulta em perda de peso.

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 21/06/2013
JABORANDI - BAHIA - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 20/06/2013
Estipulou que o ECC nao deve ser manipulada durante o periodo seca. De um lado explicou que a perda de ECC durante este fase causa complicacoes de distocia etc. mas nao citou um motivo para nao aumentar o ECC neste periodo se tiver abaixo do ideal.
Pode existir various fatores dentro da sistema que limita a abilidade de acertar o ECC na secagem - em sistemas de pastejo as relacaos de disponibilidade/qualidade de forragem, e em todas as sistemas variacao em genotipo, tamanho de lote/simplicidade da sistema, periodo de lactacao etc.
Eu acredito que descartando esta opcao de aumento de ECC no periodo seco em alguns animais do rebanho seria uma perda de visto da sistema como um todo.
Existe trabalhos que mostram efeitos negativos ao por ECC em vacas mais magras do que o ideal maior do que os ganhos em fertilidade e producao na lactacao seguinte.
Tambem em vacas muitas gordas (aqui vai ser principalmente animais com IEP superior a 18 meses e certos genotipos) ao secagem deve existir um ponto aonde os efeitos negativos de aumenta na probabilidade de distocia etc. seria menor do que as perdas economicas de ketose etc?
Tambem neste mesmo parte do artigo citou que "Não há nenhum benefício em ter um ECC mais alto no momento do parto, o que irá aumentar balanço energético negativo e a susceptibilidade a doenças". Concordo com a conclusao final do ECC de 2.5 -3 ao parto mas estudos mostram que existem ganhos em producao e fertilidade ate ECC's de por volta de 3,5 (Roche et, al 2007 e 2009 - JDS) (no EUA 1-5) mas o maior risco de disturbios metabolicos, custo de alimento nesse ganho etc. significa que o otimo economico seria menor.
Analisando estes trade-offs no contexto da Nova Zealandia com animais Holstein/Frisio que tem um alvo biologico mais alto (por volta de 2,6) o otimo economico de ECC ao parto e mais na faixa de 3,1-3,3. Este otimo economico vai caindo com a paridade dos animais naqueles sistemas tambem que e um ponto interessante.
Obrigado
UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 20/06/2013
Obrigada pela participação! Os trabalhos do Dr. Garnsworthy usam a escala 1 a 4, mas geralmente para comparação dos dados apresentados em artigos a escala é convertida para 1 a 5 (a mais usada), pois também tem autores que consideram 0 a 5.
Quando o autor cita gordura genética ele esta se referindo a uma vaca que tem o acumulo de gordura determinado pela genética (ex. nossas vacas girolando) e gordura fenotípica se refere a vaca que acumula gordura devido a problemas de manejo (ex. uma vaca holandesa que fica muito tempo seca e engorda muito).
Espero ter ajudado!!!

GOIÂNIA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 20/06/2013
QUEDAS DO IGUAÇU - PARANÁ - OVINOS/CAPRINOS
EM 20/06/2013
PORTO ALEGRE - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 20/06/2013
Na primeira parte é citado trabalho de Garnsworthy (autor da palestra) & Topps (1982) em que o ECC vai numa escala de 1 a 4, provavelmente o que ainda usam na Inglaterra.
Creio que aqui no Brasil está mais em uso o ECC com a escala de 1 a 5 (muito distribuída pela Elanco).
Então, a meu ver, não está claro à qual escala se referem as pontuações nos demais trabalhos referidos em ambas as partes do texto, pois 1 ponto de variação em escala de 1 a 4, ou de 1 a 5, devem significar condições corporais e variações de peso distintas.
Também seria interessante um esclarecimento sobre como distinguir entre gorduras genética e fenotípica.
Agradeço pela atenção.
Paulo R. F. Mühlbach