Cio Silencioso - Problema ou Mito?
Detecção de estro é um dos fatores mais importantes do manejo reprodutivo, e as falhas de detecção contribuem de forma significativa para o declínio da eficiência reprodutiva de um rebanho leiteiro. Heersche e Nebel (1994) após analisarem os dados de 4.550 rebanhos americanos, concluíram que a taxa de detecção de cio era de 38%. Coleman (1993) atribuiu 90% das falhas às pessoas responsáveis pela detecção e 10% às vacas.
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A detecção correta do cio é importante para reduzir o intervalo entre partos, e também para determinar o momento correto da inseminação. A detecção incorreta do cio resulta em inseminação de vacas que não estão em cio ou na inseminação em momento inadequado para a concepção. Van Eerdenburg et al. (2002) relataram que quando a ovulação ocorre 48 horas após a inseminação apenas 15% das vacas concebem, e quando ocorre até 24 horas, 52% das vacas concebem. E ainda, Reimers et al. (1985) reportaram que 5,1% das vacas não estão em cio quando são inseminadas, e que essa porcentagem pode variar de 0 a 60% dependendo do rebanho analisado. Isso pode ser devido à inseminação realizada cedo demais, tarde demais ou detecção incorreta.
Uma das possíveis causas das falhas de detecção de cio pode ser a introdução de ferramentas auxiliares de detecção de cio que podem deixar as pessoas responsáveis pela detecção menos atentas. A manutenção do bom conhecimento dos sintomas de cio, a observação o mais frequente possível e por um período adequado (30 a 60 minutos) são fundamentais para a boa eficiência de detecção de cio.
A duração e a intensidade do comportamento de cio são altamente variáveis entre indivíduos e influenciado pelo número de vacas em cio num mesmo grupo (Diskin e Sreenan, 2000). Grupos pequenos de vacas e a parição distribuída ao longo do ano contribuem para a redução de vacas em cio simultaneamente no lote.
Implantação de um protocolo de detecção de cio com observação de comportamento de estro por um técnico treinado por dois períodos por dia de 30 minutos cada, mais a observação diária pelos outros funcionários da fazenda durante as atividades rotineiras foi capaz de detectar 65% das vacas em cio. Nesse mesmo protocolo foram detectados 9,3% de cios em vacas considerados em anestro pela analise da concentração de progesterona e 2,3% de cios em vacas gestantes (LAW et al. 2009).
Cios silenciosos ou ovulação silenciosa são problemas comumente associados com falha de detecção de cio em vacas de leite de alta produção (Shipka, 2000). A ausência do comportamento de cio antes da primeira ovulação pós-parto é atribuída à exposição a alta concentração plasmática de estradiol no final da gestação que deixa o hipotálamo num estado refratário ao estradiol (Allrich, 1994). Foi sugerido que a exposição à progesterona durante a primeira fase luteal pós-parto retira a refratariedade do hipotálamo e permitiria que a vaca manifestasse o comportamento normal de estro quando a concentração de estradiol se elevasse durante a segunda ovulação pós-parto (Kyle et al., 1992; Allrich, 1994).
King et al. (1976) e Kyle et al. (1992) relataram que de 50 a 80% das primeiras ovulações pós-parto são silenciosas, e que a partir da terceira ovulação pós-parto, 100% das vacas expressam comportamento de cio.
Law et al. (2009) estudaram 367 ciclos estrais de 90 vacas até 140 dias pós-parto e avaliando a concentração de sanguínea de progesterona, detectaram 19,6% de cios silenciosos (72/367). Os cios silenciosos foram definidos pela não observação de comportamento de estro nas vacas (observação de comportamento de estro por um técnico treinado por dois períodos por dia de 30 minutos cada, mais a observação diária pelos outros funcionários da fazenda durante as atividades rotineiras) que pela variação da concentração de progesterona apresentavam atividade estral. A porcentagem maior de cio silencioso (47.2%) foi detectada nas vacas no primeiro ciclo pós-parto e foi decrescendo nos ciclos seguintes. Gil et al. (1997) reportou que 48% das vacas apresentam pelo menos um cio silencioso até ficarem gestantes.
Na maioria dos experimentos os cios silenciosos são definidos pela não observação do comportamento de cio por técnicos treinados. No entanto, deve-se levar em consideração que isso não significa que realmente as vacas não manifestaram o comportamento de cio.
Algumas vacas não mostram interesse por outras vacas, o que pode comprometer a externalização do comportamento de estro (Ball and Jackson, 1979). Adicionalmente a duração do estro de vacas de alta produção é menor. Van Vliet e Van Eerdenburg (1996) relataram cios de duração de apenas 4 horas.
Portanto apesar a taxa de cio silencioso ser de aproximadamente 20%, não pode ser considerada o único causador dos problemas da falha de detecção de cio das fazendas leiterias, e não pode ser usado como desculpa para a baixa eficiência da detecção.
Referências
Allrich, R. D. 1994. Endocrine and neural control of estrus in dairy cows. J. Dairy Sci. 77:2738-2744 .
Ball, P. J. H., and N. W. Jackson. 1979. The fertility of dairy cows inseminated on the basis of milk progesterone measurements. Br. Vet. J. 135:537-540.
Coleman, D. A. 1993. Detecting estrus in dairy cattle. USA National Dairy Database, Reprod. Collection, Univ. Maryland, College Park. http://www.inform.umd.edu/EdRes/Topic/AgrEnv/ndd/reproduc/
Diskin, M. G., and J. M. Sreenan. 2000. Expression and detection of oestrous in cattle. Reprod. Nutr. Dev. 40:481-491.
Gil, Z., J. Szarek, and J. Kural. 1997. Detection of silent oestrous in dairy cows by milk temperature measurement. Anim. Sci. 65:25-29.
Heersche, G., and R. L. Nebel. 1994. Measuring efficiency and accuracy of detection of oestrus. J. Dairy Sci. 77:2754-2761.
King, G. J., J. F. Hurnik, and H. A. Robertson. 1976. Ovarian function and oesrus in dairy cows during early lactation. J. Anim. Sci. 42:688-692.
Kyle, S. D., C. J. Callahan, and R. D. Allrich. 1992. Effect of progesterone on the expression of estrus at the first post partum ovulation in dairy cattle. J. Dairy Sci. 75:1456-1460.
Law, R. A., F. J. Young, D. C. Patterson, D. J. Kilpatrick, A. R. G. Wylie, and C. S. 2009. Mayne. Effect of dietary protein content on estrous behavior of dairy cows during early and mid lactation. J. Dairy Sci. 92:1013-1022
Reimers, T. J., R. D. Smith, and S. K. Newman. 1985. Management factors affecting reproductive performance of dairy cows in the northeast United States. J. Dairy Sci. 68:963-977.
Shipka, M. P. 2000. A note on silent ovulation identified by using radiotelemetry for estrous detection. Appl. Anim. Behav. Sci. 66:153-159.
Van Eerdenburg, F. J. C. M., D. Karthaus, M. A. M. Tavern, I. Merics, and O. Szenci. 2002. The relationship between estrous behavioral score and time of ovulation in dairy cattle. J. Dairy Sci. 85:1150-1156.
Van Vliet, J. H., and F. J. C. M. Van Eerdenburg. 1996. Sexual activities and oestrous detection in lactating Holstein cows. Appl. Anim. Behav. Sci. 50:57-69.
Material escrito por:
Ricarda Maria dos Santos
Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia. Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.
Acessar todos os materiaisJosé Luiz Moraes Vasconcelos
Médico Veterinário e professor da FMVZ/UNESP, campus de Botucatu
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UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 20/04/2010
Desculpe-me pela falta de atenção, sua pergunta ficou sem uma resposta.
Não conheço nehuma trabalho que relacione cio silencioso com qualidade de ovócito.
Obrigada pela participação!
Um abraço,
Ricarda.
UBERABA - MINAS GERAIS
EM 17/04/2010
Atenciosamente,
Ronaldo
UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 11/03/2010
Isso mesmo sou a Ricarda da CONAPEC que ia na sua fazenda. O senhor ainda tem a fazenda?
Qual a razão do semem sexado ter uma taxa de concepção menor em vacas do que em novilhas?
Uma das razões do semem sexado resultar em taxa de concepção menor em vacas do que em novilhas é que o método de sexagem por citometria é um pouco agressivo aos espermatozóides, o que altera a qualidade do sêmen após a sexagem.
Outro ponto é que a quantidade de espermatozóides dentro da palheta de sêmen sexado é menor (apenas 2 milhões de espermatozóides por dose no semen sexado comparada a aproximadamente 20 milhões de espermatozóides por dose do sêmen convencional).
Como novilhas em geral tem melhor concepção do que vacas o resultado final é menos alterado.
Através de analise de laboratório ou estatística de resultados poderíamos selecionar touros cujo semem sexado aprsentem taxas de concepção melhores em vacas?
Acredito que sim, hoje em dia tem muito pesquisa sobre métodos de avaliação de sêmen, na tentativa de se desenvolver um teste capaz de predizer com acurácia a qualidade do sêmen. Mesmo assim, as estatísticas de resultado também são muito importantes na definição da qualidade do sêmen.
Um grande abraço,
Ricarda.

CAMPINAS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 09/03/2010
Ricarda, penso que você é formada pela UNESP/Botucatu e quando estudante através da CONAPEC JR me ajudou a implantar sistema de pastejo rotativo na Fazenda Moura.
Qual a razão do semem sexado ter uma taxa de concepção menor em vacas do que em novilhas? Através de analise de laboratório ou estatística de resultados poderíamos selecionar touros cujo semem sexado aprsentem taxas de concepção melhores em vacas?
Abraço
Marcello de Moura Campos Filho
UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 04/03/2010
Por enquanto essa é a recomendação mais segura. Usar sêmen sexado apenas nas novilhas, pois em vacas que já tem uma menor taxa de concepção, o resultado não seria satisfatório.
Obrigada pela participação!
Até mais,
Ricarda.

CURITIBA - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 04/03/2010
O semem sexado deve ser utilizado apenas em novilhas, no caso das vacas cai o percentual de concepção?
UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 04/03/2010
Obrigada pela participação!
Essa sua pergunta é muito difícil. Mas acho que a melhor forma seria a avaliação da conformação se você não tem o histórico do animal.
Infelizmente não posso te ajudar muito. Procure do site das Associações de Criadores de cada raça, que você provavelmente vai encontrar materia sobre o assunto.
Até mais,
Ricarda.

GARANHUNS - PERNAMBUCO - ESTUDANTE
EM 03/03/2010
UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 03/03/2010
A utilização de rufião auxilia na eficiência de detecção de cio. Principalmente na detecção de cio das vacas que são "mais discretas" e nos cios que começam e terminam durante a noite.
Obrigada pela participação,
Ricarda.

DIVINÓPOLIS - MINAS GERAIS
EM 02/03/2010
A utilização de rufiões, auxiliaria em diminuir a taxa de cio silencioso no rebanho?
Qual a sua opnião.
Desde já agradeço sua atenção.
UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 02/03/2010
Obrigada pela participação!
É difícil responder o que pode estar acontecendo com as vacas compradas.
Tenho que fazer algumas perguntas:
- as vacas compradas são da mesma raça das já existentes no rebanho?
- qual a produção delas?
- foram compradas paridas e vazias?
- qual a idade delas, vacas de primeira, segunda ou mais lactações?
- como esta a reprodução das vacas que já estavam no rebanho?
Como essas respostas talvez a gente consiga chegar a alguma hipótese do que pode estar acontecendo.
Ricarda.
UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 02/03/2010
Nos radares Priorização de Nutrientesem Vacas Leiteiras no Pós-Parto Imediato: Discrepância entre Metabolismo e Fertilidade? Parte-1 e 2, publicados em 06 e 23/04/2009, tem uma revisão sobre o efeito do balanço energético negativo sobre a eficiência reprodutiva e qualidade dos ovócitos.
Obrigada pela participação,
Ricarda.

CARMO DO PARANAÍBA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 02/03/2010

SÃO GONÇALO DO SAPUCAÍ - MINAS GERAIS - ESTUDANTE
EM 22/02/2010
Grato,
André.

ALTAMIRA - PARÁ - MÉDICO VETERINÁRIO
EM 10/02/2010
Gostaria de saber se voces tem alguns dados sobre este tipo de problema em animais Nelores, e principalmente na região amazonica diferentemente da região Sudeste, para sabermos se existe uma relação com o clima
UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 02/02/2010
Obrigada pela participação!
Não conheço esses dados em novilha, vou dar uma olhada nos artigos da área.
Temos que lembrar que os fatores que interferem negativamente na manifestação do cio em vacas leiteiras não estão presentes na novilha, como: alta produção de leite, sensibilidade ao estresse térmico, problemas de casco, ...
Até mais,
Ricarda.

SOROCABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 01/02/2010
Atenciosamente,
Paulo thomazella
UBERABA - MINAS GERAIS
EM 01/02/2010
Atenciosamente,
Ronaldo