A fermentação entérica dos ruminantes, originada da fermentação microbiana e metanogênica no rúmen, é um dos principais responsáveis pela emissão de metano (CH4), um dos gases que mais contribuem para o aumento dos gases de efeito estufa (GEE), causadores do aumento na temperatura média do planeta. Dessa forma, há uma pressão mundial para que sejam criados planos e medidas de ação na tentativa de mitigar os efeitos causados pela produção pecuária, sendo uma dessas estratégias a inclusão de aditivos antimetanogênicos na alimentação dos animais, que proporciona reduções significativas nas emissões de metano entérico, sem que cause impacto negativo na produtividade.
Para que isso seja possível, é necessário criar modelos, ferramentas e equações que sejam capazes de quantificar as emissões em escala animal, de fazenda, nacional e até internacional. Contudo, é de extrema importância que pesquisas científicas sejam realizadas para entender os benefícios, efeitos sinérgicos e adversos que a utilização dos aditivos antimetanogênicos proporcionam para o animal e em todo o ecossistema, tendo em mente que cada aditivo tem seu próprio modo de ação, dosagem, modo de fornecimento e aplicabilidade.
Por exemplo, o 3-Nitrooxypropanol (3-NOP) é atualmente um dos aditivos que possui melhor eficácia conhecida, podendo reduzir as emissões entéricas em até 30%. Entretanto, esses resultados são observados em sistemas de produção onde os animais se encontram confinados, pois possuem a facilidade de controlar a quantidade e a qualidade da dieta fornecida, principalmente no conteúdo da fibra (que atua diminuindo a eficácia do 3-NOP) e, além do mais, a possibilidade de fornecer o aditivo em diversos momentos durante o dia, pois ele possui eficácia momentânea. Sendo dessa forma, não tão eficiente em sistemas produtivos baseado em pastagens.
Quantificação em diferentes escalas
Animal
Atualmente, é possível quantificar de forma simples as emissões entéricas de CH4 dos animais do rebanho, utilizando os fatores de conversão Tier 1 do IV Inventário – Agropecuária¹, elaborado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Para isso, é necessário apenas identificar a produtividade da propriedade (< 2.000 L/vaca/ano para baixa produção ou > 2.000 L/vaca/ano para alta produção), selecionar o Estado e multiplicar o fator correspondente pela quantidade de animais. Por exemplo, considerando uma propriedade de alta produtividade localizada no Estado de Minas Gerais, o fator de conversão aplicável é de 87 kg de CH4/cabeça/ano. Assim, se essa propriedade possui 50 vacas lactantes, sua emissão entérica anual será de 4.350 kg de CH4.
A situação apresentada acima é um exemplo simples e prático. Contudo, também é possível quantificar as emissões de forma mais detalhada e, para isso, é necessário ter conhecimento sobre a ingestão de energia bruta, a categoria animal, a composição da dieta e utilizar as equações elaboradas pelo IPCC. Nesse caso, torna-se possível contabilizar a mitigação do metano entérico decorrente do uso de aditivos antimetanogênicos, com base em valores médios obtidos em estudos científicos.
Fazenda
Além de quantificar as emissões entéricas de CH4 dos animais, também é possível avaliar as emissões de GEE de toda a propriedade, considerando as emissões dos próprios animais, dos dejetos, da produção de alimentos (por exemplo, silagem de milho), do manejo das culturas e pastagens e da mecanização. Para isso, é necessário que um profissional capacitado visite a propriedade e colete diversos dados relacionados aos aspectos mencionados.
Há uma ferramenta digital chamada Cool Farm Tool², que fornece informações sobre as emissões geradas pela propriedade, com base nos dados coletados in loco. Essa ferramenta já inclui a possibilidade de considerar o uso de aditivos antimetanogênicos para mitigação do metano entérico, como o 3-NOP e o nitrato.
Em outras escalas
Apesar de já existirem alguns modelos e ferramentas capazes de quantificar a emissão de GEE em países e organizações mundiais, infelizmente, até o momento, esses instrumentos ainda não incluem em suas equações a utilização de aditivos metanogênicos como forma de mitigação do metano.
Isso se deve a diversos fatores intrínsecos e extrínsecos que podem interferir na efetividade desses produtos. Em pesquisas científicas, o uso de alguns desses aditivos antimetanogênicos apresenta alta eficácia, isto é, são eficientes na redução do metano entérico. Porém, esses estudos são realizados em ambientes altamente controlados.
Dessa forma, a efetividade desses produtos em larga escala ainda envolve muitas incertezas, uma vez que a eficácia do aditivo metanogênico, na prática, pode ser influenciada por variáveis como composição da dieta, categoria animal, sistema de produção, produtividade, clima, bem como a dose, o modo e o momento de fornecimento dos aditivos antimetanogênicos e os seus possíveis efeitos adversos ou sinérgicos no desempenho animal. Contudo, estudos representando as situações reais vem aumentando nos últimos anos, o que será primordial para incluir o efeito mitigador dos aditivos antimetanogênicos em modelos e ferramentas que avaliam as emissões de GEE em escala nacional e internacional.
Portanto, é importante entender que estamos caminhando, cada vez mais, para que essas práticas se tornem comuns no dia a dia na produção pecuária, principalmente devido à pressão externa e aos planos de ação organizados para reduzir e mitigar as emissões de GEE, na tentativa de conter o aquecimento global.
*Este texto foi baseado no artigo publicado no Jornal Dairy of Science, na sessão especial sobre Aditivos Alimentares para Mitigação de metano: Assessment of feed additives as a strategy to mitigate enteric methane from ruminants—Accounting; How to quantify the mitigating potential of using antimethanogenic feed aditives - https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S002203022401405X?via%3Dihub
LINK¹: https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/sirene/publicacoes/relatorios-de-referencia-setorial
LINK²: https://coolfarm.org/