Bem-estar animal no leite: o que os dados da fazenda ajudam a enxergar?

Uma análise de dados de 326 fazendas brasileiras encontrou uma associação entre CCS mais elevada e menores escores de bem-estar animal.

Publicado em: - 6 minutos de leitura

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O artigo da coluna Despertar Regenerativo aborda a sustentabilidade na produção de leite, focando no bem-estar animal. A pesquisa em 326 fazendas brasileiras, realizada com o BEA Score, revelou que a contagem de células somáticas (CCS) está inversamente relacionada ao bem-estar dos animais. O BEA Score, que analisa cinco domínios do bem-estar, ajuda os produtores a identificar áreas de melhoria. O projeto oferece acesso gratuito a ferramentas de avaliação para promover a sustentabilidade nas fazendas. Produtores podem se cadastrar em despertarregenerativo.com.br.

Este artigo integra a coluna Despertar Regenerativo, uma iniciativa conjunta da ESGpec e do MilkPoint dedicada a explorar, com base científica e aplicada, os caminhos da sustentabilidade na produção de leite.

Na edição anterior, discutimos as relações entre eficiência produtiva, desempenho econômico e pegada de carbono. Agora, ampliamos esse olhar para dimensão social da sustentabilidade, o bem-estar animal, uma questão central para esta coluna: como transformar as informações produzidas na fazenda em decisões que ajudem a melhorar o sistema produtivo?

A pergunta ganha uma aplicação concreta quando olhamos para indicadores que já fazem parte da rotina do setor. Além de orientar o acompanhamento da qualidade do leite, essas informações poderiam ajudar a identificar situações que merecem maior atenção ao bem-estar dos animais?

Luiz Gustavo Ribeiro Pereira, Professor da Universidade de Copenhague, apresentou os resultados de 326 fazendas brasileiras participantes do projeto desenvolvido pela ESGpec com a Alvoar Lácteos, selecionadas por reunirem avaliações de bem-estar animal e histórico consistente de qualidade do leite. Esse recorte científico nasceu de um trabalho corporativo mais amplo, que alcançou 504 fazendas em cinco estados. A Alvoar mobilizou sua rede de fornecedores e equipes, enquanto a ESGpec atuou na capacitação, coordenação metodológica, disponibilização da tecnologia, processamento e análise dos dados, relatórios e suporte técnico. A iniciativa reuniu propriedades com diferentes estruturas, portes e condições de produção.

As avaliações foram realizadas com o BEA Score, ferramenta digital desenvolvida pela ESGpec para apoiar o diagnóstico do bem-estar animal em fazendas leiteiras. A metodologia considera cinco domínios reconhecidos internacionalmente: ambiente, nutrição, saúde, comportamento e estado mental. As informações coletadas são transformadas em escores específicos para cada domínio e integradas em um indicador global. Dessa forma, a ferramenta permite visualizar tanto o desempenho geral da propriedade quanto os aspectos que merecem maior atenção, oferecendo uma base objetiva para discutir prioridades de melhoria com a equipe técnica.

Essa abordagem torna um tema amplo mais concreto para a gestão. Ao examinar separadamente as diferentes dimensões do bem-estar, o produtor pode identificar oportunidades e acompanhar a evolução das condições oferecidas aos animais. O BEA Score também está disponível gratuitamente para produtores participantes do Despertar Regenerativo, levando essa possibilidade de diagnóstico a outras fazendas.

No estudo apresentado na ADSA, 26 avaliadores treinados utilizaram o BEA Score nas 326 propriedades selecionadas. Os pesquisadores investigaram a relação entre os resultados da avaliação e a contagem de células somáticas, a CCS. Os resultados mostraram um padrão consistente: à medida que a CCS aumentou, os escores de bem-estar diminuíram. Essa associação foi observada em praticamente todos os domínios avaliados e foi mais forte no domínio da saúde. Também foram encontradas associações relevantes com nutrição e ambiente.

Essa tendência pode ser visualizada nos gráficos da figura 1. Cada eixo representa um dos cinco domínios avaliados pelo BEA Score. Quanto maior a área preenchida, melhor o desempenho médio das propriedades. A contração progressiva dessa área, entre as quatro faixas de CCS, mostra que a redução não se limita a um único aspecto do bem-estar.

Figura 1. Perfis médios dos cinco domínios do BEA Score nas quatro faixas de contagem de células somáticas. Quanto maior a área preenchida, melhor o desempenho médio das propriedades. EMEN: estado mental; COMP: comportamento; AMBI: ambiente; SAUD: saúde; NUTR: nutrição. Fonte: ESGpec, com base no estudo apresentado na ADSA Annual Meeting 2026.

Figura 1

Isso amplia a utilidade de uma informação já acompanhada pelo setor. A CCS pode funcionar como um indicador sentinela, ou seja, como sinal inicial de atenção que ajuda a identificar propriedades nas quais uma avaliação mais aprofundada de bem-estar animal pode ser necessária.

Essa interpretação exige cuidado. A associação observada não demonstra, por si só, uma relação de causa e efeito. A CCS também não substitui uma avaliação abrangente das condições vividas pelos animais. Analisada em conjunto com outros indicadores, ela pode ajudar produtores, técnicos e indústrias a direcionar melhor sua atenção.

Para produtores e técnicos, uma aplicação possível é integrar melhor as informações disponíveis. Uma CCS elevada pode motivar uma investigação mais ampla, orientada pela avaliação das condições da propriedade e pela observação dos animais. O indicador ajuda a formular perguntas; o diagnóstico permite compreender o que precisa ser feito. Essa passagem do número para a orientação prática é decisiva. Ao receber uma avaliação, o produtor precisa conseguir identificar quais aspectos merecem atenção, quais medidas são prioritárias e como acompanhar seus resultados.

Uma pontuação global ajuda a organizar a leitura, mas seus componentes são essenciais para construir o plano de ação. Duas propriedades com resultados semelhantes podem apresentar necessidades distintas. Uma pode demandar maior atenção ao ambiente; outra, às práticas de manejo. A recomendação precisa considerar essas diferenças e as possibilidades de execução em cada fazenda.

Para técnicos e laticínios, a análise de uma rede de fornecedores também pode apoiar o planejamento de capacitações e visitas. Problemas recorrentes podem orientar ações coletivas, enquanto necessidades específicas pedem acompanhamento individual. O objetivo é fazer com que o esforço de avaliação se traduza em prioridades compreensíveis e executáveis.

O trabalho com a Alvoar avançou também na comunicação. A empresa compartilhou a abrangência do diagnóstico e conteúdos educativos sobre bem-estar animal, aproximando os aprendizados do projeto de produtores de leite e das demais pessoas envolvidas na cadeia.

Essa devolutiva faz parte da construção de valor. Quem participa de uma avaliação precisa compreender sua finalidade e reconhecer como as informações podem contribuir para o próprio trabalho. Ao compartilhar conhecimento de forma acessível, a cadeia cria condições para ampliar o envolvimento com as melhorias propostas.

O acompanhamento posterior completa esse processo. O diagnóstico registra o ponto de partida; as ações procuram responder às necessidades identificadas; a reavaliação permite verificar mudanças e ajustar o planejamento. Comunicar a evolução exige preservar essa ligação entre o que foi avaliado, o que foi realizado e o que efetivamente mudou.

Os resultados apresentados na reunião ADSA mostram como dados gerados no campo podem alimentar perguntas científicas e produzir conhecimento que retorna à atividade. Produtores, equipes técnicas, indústria, empresa de tecnologia e pesquisadores participam, assim, de uma mesma construção.

No projeto com a Alvoar, a iniciativa corporativa organizou a avaliação de uma rede de fornecedores. O Despertar Regenerativo amplia o acesso às ferramentas da ESGpec por meio da participação individual do produtor. Com o BEA Score, o produtor pode conhecer o diagnóstico de bem-estar animal da própria fazenda e utilizá-lo para discutir oportunidades de evolução com sua assistência técnica.

São formas complementares de aproximar a sustentabilidade da gestão. A experiência de uma cadeia produtiva gera aprendizados que podem alcançar outras propriedades, enquanto o acesso às ferramentas permite que mais produtores de leite comecem a construir seus próprios diagnósticos. É essa conexão que buscamos fortalecer nesta coluna: ciência que ajuda a interpretar a realidade, tecnologia que facilita a avaliação e conhecimento que apoia decisões dentro da porteira.

Como participar do Despertar Regenerativo

Produtores de leite podem participar gratuitamente do projeto e acessar o BEA Score, para o diagnóstico de bem-estar animal, além das ferramentas de avaliação da pegada de carbono e do desempenho ESG de suas fazendas.

A iniciativa é realizada pela ESGpec em parceria com o MilkPoint e oferece acesso a ferramentas digitais que ajudam produtores e técnicos a compreender e aprimorar a sustentabilidade dos sistemas de produção.

Para participar, basta acessar despertarregenerativo.com.br e realizar o cadastro.

O acesso é individual, válido por 12 meses, e inclui suporte por e-mail durante todo o período.

Conheça os indicadores ESG da sua fazenda, saiba como evoluir e comece hoje o seu despertar regenerativo.

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