Nutrição de precisão exige acertar toda a trajetória da bezerra

A criação de bezerras deixou de ser uma fase cujo sucesso pode ser avaliado apenas pela sobrevivência até o desaleitamento.

Publicado em: - 9 minutos de leitura

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A criação de bezerras deve ser vista como um processo contínuo, onde fatores como colostragem, saúde e dieta líquida impactam o futuro produtivo da vaca. O investimento nutricional nas primeiras semanas influencia a idade ao primeiro parto e a produção futura. A qualidade da dieta líquida é crucial, e a transição para dieta sólida deve ser gradual. A nutrição de precisão, que abrange todas as fases de crescimento, é essencial para garantir o potencial produtivo das novilhas.
A criação de bezerras deixou de ser uma fase cujo sucesso pode ser avaliado apenas pela sobrevivência até o desaleitamento. Hoje, colostragem, saúde, crescimento, qualidade da dieta líquida, plano alimentar, estratégia de desaleitamento, entrada na reprodução e depois na sala de ordenha precisam ser vistos como partes de uma mesma trajetória. O investimento nutricional realizado nas primeiras semanas pode repercutir sobre idade ao primeiro parto, produção futura e permanência da vaca no rebanho — mas esses benefícios dependem de consistência entre as fases.

A bezerra de hoje é a vaca de amanhã

A frase é conhecida e suas implicações práticas são cada vez mais claras. Indicadores de desempenho na criação de bezerras não devem se limitar à mortalidade ou à ocorrência de doenças. A eficiência da transferência de imunidade passiva, a morbidade, o crescimento e a eficiência alimentar fazem parte de um conjunto de indicadores que ajuda a explicar não apenas o resultado imediato, mas também o potencial produtivo futuro.

A colostragem é o primeiro passo. Protocolos eficientes precisam garantir volume, qualidade e rapidez no fornecimento. Além de reduzir morbidade e mortalidade, a excelente transferência de imunidade passiva tem sido associada a melhores resultados produtivos. Da mesma forma, episódios de diarreia e doença respiratória durante a fase de aleitamento não representam apenas custos de tratamento e perda momentânea de desempenho. Dados de literatura mostram forte associação entre dias de ocorrência doença e a redução da produção de leite na primeira lactação.

O ganho de peso também precisa ser interpretado como investimento. Dados de Abuelo et al (2021) mostram diferença de aproximadamente 130 g/d no ganho durante a criação em função do fornecimento da segunda refeição de colostro. Este aumento diário, muito em função da redução na ocorrência de doenças, representou 10,4 kg adicionais em 80 dias de aleitamento e foi associada a quase 1.000 kg a mais de leite na primeira lactação. 

Dois trabalhos muito interessantes mostram resultados de animais do nascimento até o final da terceira lactação alimentados com diferentes planos nutricionais (Leal et al., 2021 e Leal et al., 2025). Os resultados mostram maiores consumo de energia metabolizável, ganho de peso e peso corporal, além de modulação benéfica no metabolismo durante a fase o aleitamento quando o fornecimento de dieta líquida foi mais intensivo. Na fase seguinte, animais que foram aleitados com maiores volumes de dieta líquida apresentaram maior produção de leite corrigido, tiveram menor escore de condição corporal e ainda apresentaram menor risco de descarte até o terceiro parto.

A mensagem não é que exista uma relação simples e automática entre cada grama de ganho e a produção futura, mas que o desempenho na fase jovem não deve ser tratado como um indicador isolado ou sem consequência econômica.

Mais leite não basta: qualidade da dieta líquida é decisiva

Se a maior parte do desempenho nas primeiras semanas é explicada pela dieta líquida, aumentar o aporte de nutrientes parece uma estratégia óbvia. Mas, protocolos avançados de aleitamento não significam simplesmente aumentar o volume de leite ou sucedâneo. O resultado depende da quantidade de matéria seca ingerida, da concentração energética, da qualidade das fontes de proteína e gordura, da digestibilidade dos ingredientes e da consistência do fornecimento.

Essa discussão é particularmente importante quando se utiliza leite não comercializável. Embora ele possa reduzir o custo aparente do aleitamento, sua composição nutricional é variável e a carga bacteriana pode ser elevada. Acidificação e pasteurização são ferramentas de manejo, mas não transformam uma matéria-prima de baixa qualidade em uma dieta de alto valor nutricional. Em outras palavras, processamento não corrige todos os problemas de origem.

O mesmo raciocínio vale para sucedâneos. Produtos com teores semelhantes de proteína bruta, gordura e lactose podem apresentar qualidade nutricional distinta em função das fontes utilizadas. A proteína láctea continua sendo referência para animais jovens, enquanto a inclusão de proteínas vegetais precisa considerar processamento, digestibilidade e idade da bezerra. Portanto, comparar sucedâneos apenas pela garantia de composição do rótulo pode levar a decisões equivocadas.

O teor de sólidos é outro ponto importante. Aumentar o teor de sólidos da dieta líquida pode elevar a ingestão de nutrientes sem necessariamente aumentar o volume fornecido, mas a resposta depende da formulação e do manejo. Volume e teor de sólidos são ferramentas diferentes e precisam ser utilizados de forma estratégica, considerando as características de cada dieta líquida adotada, assim como do sistema de produção da fazenda.

Aleitamento intensivo: qual é o objetivo?

Sistemas de aleitamento intensivo ganharam espaço porque bezerras jovens apresentam elevada exigência de mantença em relação ao peso corporal e grande potencial de crescimento. Na classificação apresentada pelo NASEM (2021), sistemas de alta taxa de alimentação fornecem mais de 900 g de matéria seca por dia via dieta líquida — mais de 7,2 L/d quando se considera uma dieta com 12,5% de sólidos.

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As justificativas incluem maior ganho de peso, melhor eficiência de ganho, melhor desempenho na transição e potencial efeito sobre a produção futura. Trabalhos clássicos relacionaram maior crescimento no período de aleitamento à maior produção na primeira lactação, e estudos mais recentes continuam investigando a persistência desses efeitos.

Uma meta prática frequentemente utilizada é dobrar o peso ao nascer durante o período de aleitamento. Para uma bezerra de 40 kg atingir 80 kg aos 60 dias, por exemplo, seria necessário ganho médio diário próximo de 670 g. Com ganho de 500 g/d, a mesma meta seria alcançada apenas por volta de 80 dias. Essas metas são muito fáceis de se atender, desde que a colostragem e a qualidade da dieta líquida sejam adequadas. Atualmente, já se discute inclusive a meta de triplicar o peso ao nascer durante o período de aleitamento. Isso mostra por que a definição do plano alimentar não pode ser dissociada da idade pretendida ao desaleitamento e das metas de crescimento. 

O que acontece com a glândula mamária?

Uma das razões para o interesse no crescimento acelerado no período de aleitamento é que esse período coincide com intensa formação de tecidos e órgãos. A glândula mamária também está em desenvolvimento: ocorre formação inicial dos ductos e do tecido que servirá de base para o crescimento posterior. Dados muito interessantes de Laporta e Guenther (2025) mostram que diferentes tecidos apresentam taxas de crescimento distintas entre o nascimento e o desaleitamento, reforçando que esse é um período biologicamente ativo, e não apenas uma fase de espera até que a bezerra se torne ruminante. 

Durante muitos anos, o receio de crescimento acelerado esteve associado à possibilidade de deposição excessiva de tecido adiposo na glândula mamária e comprometimento do parênquima. A interpretação atual precisa ser mais cuidadosa. Do nascimento ao desaleitamento, em situações em que o peso corporal dobra, ocorre também um aumento no pelo da glândula mamária e de seu tecido adiposo em duas vezes, mas há também um aumento de 25 vezes no peso do parênquima mamário. Os problemas de maior deposição de gordura na glândula mamária ocorrem no período chamado de peribuberdade (entre 4 meses e a puberdade). Assim, os efeitos dependem da idade, composição do ganho e qualidade do plano nutricional. 

 

 

O investimento pode ser perdido depois do desaleitamento

Talvez este seja o ponto mais importante quando se pensa em protocolos avançados: acertar o aleitamento não garante, por si só, o resultado futuro. Estudos que combinaram planos alimentares pré e pós-desaleitamento mostram que os efeitos das duas fases podem ser independentes. Isso significa que um bom programa antes do desaleitamento não necessariamente compensa uma nutrição inadequada depois dele; da mesma forma, tentar recuperar posteriormente uma oportunidade de crescimento perdida nas primeiras semanas pode não produzir o mesmo resultado.

Essa ideia muda a forma de interpretar o retorno do investimento nutricional. Há pelo menos quatro trajetórias possíveis:

  1. Um bom início seguido de manejo inadequado pode significar investimento inicial parcialmente perdido. 

  2. Um início restritivo seguido de boa nutrição representa uma oportunidade inicial que talvez não seja totalmente recuperada. 

  3. Restrição persistente limita continuamente a expressão do potencial. 

  4. A combinação de bons planos pré e pós-desaleitamento oferece a maior oportunidade para que a novilha expresse seu potencial de crescimento e produção.

Portanto, reduzir a idade ao primeiro parto não deve ser perseguido simplesmente acelerando o ganho em uma única fase. A eficiência na criação de novilhas de reposição é consequência de uma trajetória de crescimento consistente, capaz de permitir que a novilha alcance peso e desenvolvimento adequados para reprodução mais cedo, sem comprometer saúde ou desempenho futuro.

Desaleitamento: o elo entre duas fases

O desaleitamento é um dos pontos em que essa consistência é mais frequentemente quebrada. Até então, a maior parte da energia consumida pela bezerra vem da dieta líquida; após sua retirada, a dieta sólida precisa assumir rapidamente essa função. A transição envolve, portanto, não apenas mudança de dieta, mas também a transição de um animal predominantemente pré-ruminante para um ruminante funcional.

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Estratégias graduais, como protocolos step-down, estimulam o aumento do consumo de concentrado antes da retirada completa do leite. Vários estudos mostram que o desaleitamento gradual pode favorecer o consumo de dieta sólida e reduzir a queda na ingestão de energia metabolizável observada quando a retirada da dieta líquida é abrupta. O resultado é uma transição nutricional mais suave e menor risco de perda de peso ou desaceleração do crescimento.

Por isso, a idade de desaleitamento, isoladamente, diz pouco sobre como será o desempenho da bezerra no pós-desaleitamento imediato. É preciso considerar consumo de dieta sólida, desenvolvimento ruminal, ganho de peso e a capacidade de manter ingestão de energia após a retirada da dieta líquida. 

Nutrição de precisão é acertar toda a trajetória

O avanço na criação de bezerras não virá de uma única recomendação de litros de leite, teor de sólidos da dieta líquida ou idade ao desaleitamento. A nutrição de precisão nessa fase exige decisões conectadas: colostragem eficiente, prevenção de doenças, dieta líquida de alta qualidade, quantidade adequada de nutrientes, metas claras de crescimento, transição gradual para a dieta sólida e continuidade do plano nutricional após o desaleitamento.

Isso também muda a análise econômica. Dietas de maior qualidade ou maior aporte nutricional podem aumentar o custo diário, mas custo diário não é sinônimo de custo por unidade de ganho — e muito menos de retorno sobre o investimento. Quando o melhor desempenho contribui para reduzir a idade ao primeiro parto, aumentar a produção futura ou melhorar a permanência no rebanho, a conta precisa considerar todo o ciclo produtivo.

A bezerra de hoje é, de fato, a vaca de amanhã. Mas transformar potencial em resultado exige consistência. Nutrição de precisão não é acertar uma fase: é acertar toda a trajetória.

Referências citadas: 

Abuelo A., Cullens F., Hanes A., Brester, J.L. 2021. Impact of 2 Versus 1 Colostrum Meals on Failure of Transfer of Passive Immunity, Pre-Weaning Morbidity and Mortality, and Performance of Dairy Calves in a Large Dairy Herd. Animals (Basel). 11(3):782. doi: 10.3390/ani11030782. 

Heinrichs, A.J.& Heinrichs, B.S. 2011 A prospective study of calf factors affecting first-lactation and lifetime milk production and age of cows when removed from the herd. Journal of Dairy Science, 94(1): 336-341. https://doi.org/10.3168/jds.2010-3170.

Laporta, J. & Guenther, M.C. 2025. Making future udders: Mammary development and perinatal programming of dairy cattle. JDS Communications, 6: S42-S46, https://doi.org/10.3168/jdsc.2025-0828. 

Leal, L.N., Doelman,J., Keppler, B. R., Steele, M. A.,  Martín-Tereso, J. 2021. Preweaning nutrient supply alters serum metabolomics profiles related to protein and energy metabolism and hepatic function in Holstein heifer calves. Journal of Dairy Science, 104: 7711-7724. https://doi.org/10.3168/jds.2020-19867

Leal, L.N., Doelman,J., Keppler, B. R., Steele, M. A.,  Martín-Tereso, J. 2025. Effects of preweaning milk allowance on long-term metabolism in Holstein heifers. Journal of Dairy Science, 108:4988–4999. https://doi.org/10.3168/jds.2024-26005

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Material escrito por:

Carla Maris Machado Bittar

Carla Maris Machado Bittar

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

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