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Forrageiras alternativas para vacas leiteiras: alfafa, cana-de-açúcar e sorgo

POR VINICIUS DUTRA

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 20/11/2020

11 MIN DE LEITURA

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Atualizado em 19/11/2020

A produção de leite mundial tem aumentado ao longo dos anos e um dos fatores que possibilita este crescimento é a seleção de animais cada vez mais produtivos. Proporcionalmente a essa melhoria em produtividade, a exigência deles também é elevada. Isso significa que as fazendas devem estar preparadas para fornecer ambientes adaptados, bem como dietas apropriadas com quantidades ideais dos nutrientes que esses animais necessitam para expressar completamente seu potencial.

Ao se pensar nos custos de manutenção de uma fazenda leiteira, o maior deles tende a ser a receita utilizada para compra de alimentos concentrados, seguido pelos gastos com a produção de volumosos. Sendo assim, o primeiro ponto a ser avaliado ao se analisar a rentabilidade de uma propriedade é a eficiência que ela possui em obter os alimentos de sua dieta e utilizá-los de maneira adequada, a fim de produzir mais leite. Um dos fatores que mais afeta essa eficiência é a qualidade dos volumosos fornecidos aos animais, visto que quanto maior a sua qualidade, menor o gasto com concentrados. Uma explicação simplificada para isso é de que forragem é a base da alimentação e os concentrados participam da dieta como um suplemento, deste modo, quanto mais nutrientes são fornecidos inicialmente na forragem, menos precisariam ser fornecidos por outros alimentos.

Dessa forma, fica evidente a importância dos volumosos na alimentação de vacas leiteiras. Na maioria dos sistemas de produção leiteiros brasileiros, a silagem de milho e forrageiras tropicais são mais amplamente utilizadas como base da dieta fornecida aos animais. Estas forragens possuem boas características bromatológicas se bem manejadas, porém, existem ainda outros alimentos que poderiam ser utilizados em complementariedade ou até mesmo para substituí-las. Como exemplo existem a cana-de-açúcar, a alfafa e a silagem de sorgo, cuja utilização será discutida em seguida.  

 

Alfafa

A alfafa (Mendicago sativa) é uma forrageira muito utilizada em vários países, principalmente Estados Unidos, Rússia, Canadá e Argentina. Assim sendo, é possível presumir que seja adaptada a climas frios a temperados, e deste modo, seria inviável a sua produção no Brasil. Entretanto, em um experimento realizado por Vinholis et al. em 2008, a fim de avaliar a viabilidade da utilização desse alimento para a produção de leite no país, foram obtidos 2300 kg/ha de matéria seca com cortes a cada trinta dias, valor que superou a produção de um estudo realizado na Argentina, no qual a produção foi de qual foi de 2254kg/há com cortes a cada 35 dias (BASIGALUP, 2007). Em ambos foi realizada irrigação, correção do solo e fertilização ao níveis de exigência da planta.

Portanto, é possível produzir alfafa no Brasil, sendo a produção mais comum na região sul do país e em algumas partes da região Sudeste. Essa pequena distribuição se dá em função da alta tecnificação envolvida em sua produção, visto que depende de irrigação e fertilização adequada, o que faz com que haja custos elevados nesse processo. Além de sua elevada exigência hídrica e de qualidade do solo e da pouca experiência no controle de pragas, há também pouca disponibilidade de sementes no mercado nacional, sendo algumas delas de baixa adaptabilidade ao clima brasileiro (VILELA et al., 2008).

Entretanto, seu uso pode ser rentável, como foi demostrado no experimento de Vinholis (2008). Neste experimento, além da dieta controle (animais confinados na época da seca com fornecimento de silagem e concentrado e durante as águas nno pastejo rotacionado de capim tropical e com concentrado), havia dois outros grupos no pastejo rotacionado de capim tropical com concentrado e acesso a uma pastagem de alfafa, de modo que ela representasse 20% da matéria seca da dieta de um dos grupos e 40% do outro. Na época da seca, estes grupos recebiam suplementação com silagem de milho. O resultado obtido mostrou que o uso de alfafa foi capaz de minimizar os custos da produção de leite em função da redução na utilização de silagem e de concentrados proteicos. 

Quanto ao uso propriamente dito desta leguminosa, ela é geralmente fornecida na forma de feno, no entanto o processo de enfenação aumenta seu custo de produção. Sendo assim, ela é também ofertada como forragem fresca picada no cocho ou por meio do pastejo e pode ser fornecida a animais de qualquer idade.

No experimento de Vinholis (2008) citado anteriormente, o melhor resultado obtido em relação a redução de custos ocorreu quando houve inclusão de alfafa representando 40% da MS da dieta, porém, isso poderia limitar a vida útil do pasto. Deste modo, o autor ressalva que a utilização como 20% da MS da dieta poderia ser mais indicado. Entretanto, é necessário  considerar que os animais em cada fase possuem exigências nutricionais diferentes e o fornecimento da alfafa em distintos pontos de corte pode auxiliar no atendimento dessas especificidades, como é visto na tabela a seguir:

Tabela 1. Qualidade mínima da alfafa recomendada para cada classe de animal leiteiro


Adaptado de: Higginbotham,2008 e Vinholis,2008)/Valores em % da MS.

Além das diferentes exigências nutricionais, outros fatores devem ser considerados em relação a escolha do ponto de corte. Um deles é a capacidade de ingestão de matéria seca, inerente ao animal, e o outro é a digestibilidade da forrageira, relacionada, entre outras coisas, com a quantidade de fibras no alimento. Dessa forma, animais mais jovens devem receber essa forrageira em um estágio de maturação mais precoce. Além disso, a alfafa é um alimento muito rico em minerais, dentre eles o potássio e o seu fornecimento a animais na fase de transição pode ser prejudicial. Isso se dá pelo fato desse mineral ter grande influência no balanço cation-aniônico da dieta (DCAD), podendo ser responsável por garantir um valor positivo, enquanto o recomendável para esse período é que fosse negativo. Com isso, o mecanismo de deslocamento de cálcio dos ossos fica reduzido e assim, os animais ficam com maior dificuldade de aumentar o nível desse mineral no sangue para ser consumido nos dias mais próximos ao parto, o que os predispõem a hipocalcemia.

 

Cana-de-açúcar

A cana-de-açúcar (Saccharum spp.) é um alimento extremamente versátil e adaptado às condições climáticas brasileiras. Apresenta grande produção de matéria seca por hectare e baixas exigências de adubação nitrogenada (VITTI et a., 2007). Além disso, sua capacidade de manter as características nutricionais no período de entressafra a torna muito conveniente para a suplementação em épocas com pouca disponibilidade de pasto.

Por outro lado, seu uso na produção animal é reduzido em função de sua composição nutricional, uma vez que se trata de uma forrageira com algumas características indesejáveis. Isso se dá pelo fato de, apesar de possuir carboidratos solúveis em grande quantidade, e, dessa forma, ser uma boa para fonte de energia, conta também com baixíssima digestibilidade de suas fibras e proteína bruta, sendo que aproximadamente 60% da FDN é indigestível (FERNANDES et al., 2003).

Dessa forma, o fornecimento de cana aos animais pode reduzir o consumo voluntário, o que limita sua utilização em vacas com maior potencial produtivo. No entanto, apresenta resultados favoráveis naquelas com até 20 litros por dia. Isso se dá caso haja a correta suplementação com concentrado, além da administração de ureia juntamente com a cana. Porém, o produtor deve ficar atento se o valor economizado produzindo uma forrageira mais barata é maior do que o gasto com o concentrado que será incrementado, visto quem para se ter resultados semelhantes a dietas baseadas em silagem de milho, se faz necessária uma maior participação do concentrado na alimentação. Dietas com cana de açúcar requerem uma proporção de volumoso:concentrado (V:C)  de 50:50 (MENDONÇA, S. de S. et al., 2001) ou até 40:60 (COSTA et al., 2005) para manter os mesmos níveis produtivos de uma dieta baseada em silagem de milho em proporções de 60:40.

A cana pode ser fornecida picada fresca ou na forma de silagem. Segundo Siqueira (2012), a primeira delas é a que mais preserva as características da forrageira, sendo assim há menor perda de seus carboidratos solúveis em comparação a silagem. Isso ocorre quando leveduras se instalam durante o processo de ensilagem e realizam fermentação alcoólica, dessa forma os carboidratos são perdidos na formação de CO2 e álcool. Sendo assim, a proporção de fibras é aumentada em relação a MS total da massa ensilada. Na tentativa de evitar esses microrganismos indesejados, inoculantes devem ser utilizados a fim de acelerar a instalação de bactérias ácido-láticas e assim reduzir o pH da silagem mais rapidamente, o que dificulta a proliferação de leveduras. O aspecto de maior interesse na utilização da silagem é a redução de manejo uma vez que evita o corte diário. 

Nesse sentido, outra estratégia utilizada é o corte e conservação por poucos dias a partir de tratamento químico com agentes alcalinos (cal virgem e cal hidratada) na dose de 0,5% (Domingues et al. 2011). Outra vantagem desse processo seria o aumento da solubilidade das fibras (Van Soest,1994). Por outro lado, esse processo leva a uma grande diluição dos carboidratos fibrosos, sendo assim, apesar do CMS ser favorecido, o animal não recebe efeitos positivos já que o alimento perde sua qualidade nutritiva (Siqueira, 2012). Além disso, deve-se considerar que a utilização de mão de obra para o corte é reduzida, mas ela é gasta para realizar a mistura do tratamento.

 

Sorgo

O sorgo apresenta diversos cultivares de diferentes perfis, sendo os mais utilizados para a produção animal os forrageiros, graníferos ou até híbridos com dupla aptidão. Assim como o milho, tem uma ampla gama de usos, seja na forma de silagem de planta inteira ou de grão, pastejo e até de feno. Além disso, apresenta menor exigência de nutrientes no solo e de irrigação, o que possibilita ser cultivado em épocas mais secas do ano e ainda garantir grande quantidade de massa verde anual: cerca de 100 t/ha (Miranda et al., 2007). E ainda, seu plantio representa menor investimento em comparação ao milho. No entanto, seu uso no Brasil é limitado pela falta de tradição inicial da lavoura, existência de poucos herbicidas seletivos para sorgo, sensibilidade ao frio, susceptibilidade ao ataque de pássaros e possibilidade de acamamento principalmente em cultivares de porte alto (MIRANDA et al., 2007).

Já existem diversos cultivares de sorgo forrageiro desenvolvidos pela EMBRAPA, cada um com características específicas que devem ser analisadas antes da escolha de sua implantação na propriedade. Entretanto, em um estudo de Silva et al. (2014), foi demonstrado que silagens confeccionadas com cultivares com maior produção de grãos tiveram resultados melhores para o desempenho animal, a ponto de ser  semelhante à silagem de milho. Dessa forma, foi visto que o sorgo tem a capacidade de ser utilizado como forragem única dos animais, principalmente daqueles com menores exigências nutricionais, como vacas com produção diária de até 15 litros de leite ou aqueles em fase de recria.

Um fator a se atentar ao produzir este alimento se trata da regulagem das máquinas e da relação entre tamanho de partículas e quebra de grãos, uma vez que a maioria dos maquinários para colheita de forragem no Brasil são adaptados ao milho e os grãos de sorgo apresentam menor tamanho, podendo não serem processados adequadamente pelas facas. Isso pode resultar em uma silagem com tamanho de partículas adequado, mas com poucos grãos quebrados, ou com quebra de grãos adequada mas com partículas pequenas. 

Tabela 2. Dados nutricionais de cultivares de sorgo forrageiro


Adaptado de: Albuquerque et al., 2010

 

 

Considerações finais

Uma visão mais ampla no momento de escolha dos alimentos da dieta pode ser interessante, seja com a intenção de maximizar o desempenho dos animais ao adicionar um alimento rico em nutrientes para complementar a dieta – como pode ser feito com a alfafa – ou, ainda, produzir forrageiras de custo mais baixo em relação a silagem de milho, como a cana-de-açúcar e o sorgo. Entretanto, é necessário levar em conta que o fornecimento destas pode não ser compensatório para animais com produção acima de 20 litros de leite por dia, sendo boas alternativas para vacas de baixa média produção ou para animais na fase de recria. Além disso, podem ser cultivadas no período da seca e, assim, ser fonte de alimento quando outros ingredientes estão em escassez.

 

Este artigo foi escrito por membros do UFLALEITE - Grupo de Apoio à Pecuária Leiteira. Para saber mais, acesse @uflaleite.

 

Referências

R. M. KAISER 1; D. K. COMBS. Utilization of Three Maturities of Alfalfa by Dairy Cows Fed Rations that Contain Similar Concentrations of Fiber. Journal of Dairy Science Vol. 72, No. 9, 1989. Disponível em: https://www.journalofdairyscience.org/article/S0022-0302(89)79361-9/pdf

VINHOLIS, M.M.B.; DE ZEN, S.; BEDUSCHI, G. et al. Análise econômica de utilização de alfafa em sistemas de produção de leite. In: FERREIRA, R.P.; RASSINI, J.B.; RODRIGUES, A.A. et al. (Eds). Cultivo e utilização da alfafa nos trópicos. Brasília: Embrapa Sede, 2008. p.395-420.

RASSINI, J., FERREIRA, R., MOREIRA, A., & VILELA, D. (2007). Avaliação de cultivares de alfafa na região de São Carlos, São Paulo. Boletim De Indústria Animal, 64(4), 289-293. Recuperado de http://www.iz.sp.gov.br/bia/index.php/bia/article/view/1217

D. Peres NettoI; A. de A. RodriguesII; F.S. WechslerIII; R.P. FerreiraII; F.C. MendonçaII; A.R.FreitasII. Desempenho de vacas leiteiras em pastagem de alfafa suplementada com silagem de milho e concentrado e viabilidade econômica do sistema. Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.63 no.2 Belo Horizonte Apr. 2011.

SIQUEIRA, G. R.; ROTH, M, T., P.; MORETTI, M., H.; BENATTI, J., M.; RESENDE, F., D. Uso da cana-de-açúcar na alimentação de ruminantes. Rev. bras. saúde prod. anim. vol.13 no.4 Salvador out./dez. 2012. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S1519-99402012000400011

FRANÇA, S. I. A importância do sorgo na pecuária bovina leiteira no Brasil. Nutritime Revista Eletrônica, Vol. 14, Nº 01, jan./ fev. de 2017ISSN: 1983-9006

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REINALDO

SÃO CARLOS - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 23/11/2020

Parabéns pelo artigo. Recentemente foi lançado o livro "Alfafa: do cultivo aos múltiplos usos". Podem acessar o livro utilizando o link: http://proxy.cppse.embrapa.br/pub/reinaldo/livro/Livro%20Alfafa%20MAPA.pdf
DUARTE VILELA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 23/11/2020

Caro Vinicius, tendo interesse em aprofundar um pouco mais seus conhecimentos e se atualizar com a cultura da alfafa, sugiro ler:
Alfafa : do cultivo aos múltiplos usos / Secretaria de
Inovação, Desenvolvimento Rural e Irrigação. - Brasília :
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. MAPA/AECS, 2020.
273 p. É gratuito!
THIAGO TOBATA

PARANAÍTA - MATO GROSSO

EM 20/11/2020

Parabéns Vinicius, excelente tema e texto.

Seria muito bom que assuntos como esse fossem debatidos mais vezes. Acredito que a situação climática atual seja um dos principais motivos para a retomada desse tipo de assunto.

Quando falamos em "alternativa" podemos inserir todos os alimentos, inclusive o milho. Todas são, alternativas que dispomos para nutrição animal. Não cabe de forma alguma comparar alimentos, pois suas características são realmente bem diferentes. Milho será sempre a cultura mais procurada e difundida, entretanto isso está muito mais atrelado a outros fatores do que propriamente sua possível viabilidade econômica frente a outros volumosos.

Essas avaliações financeiras, comparando tão somente uso de concentrados, é de certa forma incompleta. Se formos comparar o custo por tonelada de matéria seca do milho e da cana por exemplo, podemos chegar a valores de 5 vezes na relação. Ou seja, mesmo com maior demanda de concentrado, a cana pode sim ser um alimento economicamente viável frente ao milho pois o custo de volumoso é consideravelmente menor. Em confinamento de gado de corte, onde é analisado o custo da diária, esse número fica bem evidente.

Outro aspecto fundamental a ser analisado é com relação as características bromatológicas, levadas em consideração no artigo. Existem variedades de cana e respectivos manejos que contribuem efetivamente na melhoria da digestibilidade e consumo voluntário pelos animais. Dietas de vacas com pico de produção de mais de 54 litros já foram obtidas com uso exclusivo de cana como fonte volumosa.

Veja que não estou medindo forças entre as plantas, todas são alternativas e devem ser igualmente consideradas. Entretanto é preciso tratar todas as plantas como alternativas igualitárias, somente sendo necessário comparar condições de produção e cada uma delas. Nesse momento climático que a pecuária se encontra é que se observa a falta que faz uma boa e já consolidada "caninha". Isso porque não citei outras culturas tão quão possíveis, como a palma que é muito usada no Nordeste, entretanto o sulista, se a tivesse no hall de alternativas junto com a cana, não estaria passando as provações que atualmente estão.

Abraços e obrigado pelo espaço.
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