Os três princípios básicos da agricultura orgânica. Economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto são perfeitamente pertinentes e até mesmo imprescindíveis para o conceito mais falado atualmente: a sustentabilidade. Nós, também como não poderíamos deixar de ser, estamos preocupados com este aspecto da nossa produção de leite e concordamos com quase todos os preceitos da pecuária orgânica.
Estamos preocupados com a preservação ambiental. A temperatura da terra tem aumentado nos últimos 20 anos. Com relação a esse efeito, a Organização Meteorológica Mundial, ligada à ONU, confirmou que o ano de 2002 foi o segundo mais quente da história dos registros globais de temperatura. A temperatura média global foi de 14,65°C, inferior apenas àquela registrado em 1998, considerado o ano mais quente que se tem notícia pela Organização, com temperatura média de 14,69°C. Os pesquisadores atribuem como os maiores vilões, responsáveis por este efeito, os gases emitidos pelo uso de combustíveis fósseis e pelas queimadas em áreas tropicais.
No que diz respeito, às queimadas, sabemos que temos que ser muito criteriosos para expandir nossa fronteira agrícola sem destruir ainda mais ecossitemas tão ameaçados como a Mata Atlântica e a biodiversidade do Cerrado, Caatinga e da Amazônia, dentre outros. Além do mais, temos que nos prevenir contra os efeitos da erosão hídrica, que vem, a cada ano, se agravando, comprometendo os recursos naturais e pondo em risco a produção econômica, além de degradar o seu mais importante recurso: o solo.
Felizmente, existe uma alternativa bastante promissora para re-integrar áreas degradadas no processo produtivo da propriedade, a partir de uma alternativa, ambientalmente correta, que consiste na implantação de sistemas silvipastoris (SSPs). O SSP é uma modalidade de agrofloresta, que integra na mesma área física, árvores, pastagens e animais, onde as árvores contribuem com sombra e biomassa para o sistema. Vários autores têm postulado que os SSPs podem contribuir, parcialmente, para reduzir os problemas decorrentes do desmatamento e da degradação de diferentes ecossistemas. Ademais, estes sistemas têm potencial para controlar a erosão, melhorar a fertilidade do solo, o aproveitamento da água das chuvas e para o incremento da biodiversidade. Por meio deles é realizado um melhor aproveitamento dos diferentes estratos da vegetação, obtendo-se, com isso, melhor diversificação da produção de forragem favorecendo a produção animal.
Estamos preocupados com o socialmente justo. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o índice ideal de consumo per capita de leite é de 150 litros/ano. Se este nível de consumo for atingido no Brasil, podemos estimar que precisaremos aumentar a produção em aproximadamente dois bilhões de litros, somente para atender a demanda interna. Os resultados imediatos vão além das questões nutricionais. Poderão ser abertos mais postos de trabalho numa cadeia produtiva que já gera, atualmente, cerca de 3,6 milhões de empregos. Este é um setor sensível a novos investimentos e ao aumento da demanda, que responde rapidamente com novos empregos. A geração de trabalho diminui o êxodo rural e a desigualdade social na periferia das grandes cidades.
A preocupação com o economicamente viável é fundamental. Como técnicos somos orientados para incentivar a produção animal em bases econômicas. Este conceito não é uma particularidade da pecuária orgânica e deve ser observado em qualquer empreendimento.
Entretanto, apesar de toda minha simpatia pelo movimento e de trabalhar para incentivar a produção, existem algumas peculiaridades sugeridas pelas normas da agricultura orgânica, que fogem à minha percepção de bom senso. Fico apreensivo com restrições que podem coibir um aumento da produção, diminuindo as possibilidades de ganhos na sustentabilidade, tão coerentes com as propostas da agricultura orgânica.
Há preceitos rígidos, provenientes de ecologias importadas que são como dogmas para os mais rigorosos. Somos proibidos de usar mínimas quantidades de uréia ou misturas proteinadas para assegurar o crescimento dos nossos novilhos ou a adição do composto à cana de açúcar para manter a nossa produção de leite, no auge da estação seca, em plena escassez de forragem.
No entanto, há certas discrepâncias que precisam ser melhor discutidas. Recentemente participei de um evento iberoamericano. O objetivo do encontro era tentar estabelecer a padronização de normas para os países envolvidos no que diz respeito à agricultura orgânica. Surpreendeu-me o relato sobre a produção de banana "orgânica", obviamente subsidiada, das Ilhas Canárias. O arquipélago é repleto de escarpas onde não há solo. Este tem que ser transportado para o local de plantio. As ilhas são secas e ventosas, conseqüentemente, além da irrigação a cultura tem que ser praticada em estufas. A banana produzida é "orgânica" porque a cobertura da estufa, em vez de ser plástica é fabricada com um outro material biodegradável.
Onde está o ambientalmente correto, o socialmente justo e o economicamente viável? Como diria meu colega Madalena, professor da UFMG, "será que nossos eco-fanáticos são mais fanáticos do que os deles?" Convenhamos!!!
Ser ou não ser orgânico: eis a questão
Publicado por: Luiz Januário Magalhães Aroeira
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Luiz Januário Magalhães Aroeira
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