A existência de variação genética entre bovinos, na sua resistência ao carrapato Riphicephalus (antes Boophilus) microplus, foi relatada há mais de 70 anos pelo Prof. Barisson Villares (1941), mas foram os australianos os primeiros em implementar programas de seleção para desenvolver linhagens mais resistentes, na década seguinte, tanto em gado de corte como de leite. Eles adotaram o esquema de infestações artificiais, com uma quantidade conhecida de larvas de carrapatos, seguindo protocolos estabelecidos após amplas pesquisas, definindo a idade dos animais, os níveis de infestação prévia necessários para se atingir o desenvolvimento da resistência (que é principalmente devida á imunidade), a época do ano para a infestação, e outros detalhes necessários para padronizar o desafio. Um exemplo da efetividade da seleção em aumentar a resistência, pode ser visto na Figura 1, que mostra o número de fêmeas ingurgitadas, sobreviventes à infestação artificial com 20 mil larvas, em tourinhos do projeto Australina Milking Zebu, de seleção para produção de leite, resistência ao carrapatos e tolerância ao calor. Esse projeto demonstrou ser possível melhorar simultaneamente aquelas três características.
A filosofia australiana de utilizar a variação genética para resistência ao carrapato no melhoramento dos bovinos foi adotada com bastante ênfase nas pesquisas desenvolvidas por nosso grupo, inclusive com visitas a Austrália de membros da equipe e de consultores daquele país no Brasil. O Dr. Klaus Utech, um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento dos protocolos australianos para avaliação da resistência sob infestação artificial, nos orientou na adaptação destes protocolos às nossas condições aqui, e o Dr. R. W Hewetson, responsável pelo projeto Australian Milking Zebu, orientou em diversos outros aspectos das pesquisas.
Um resultado importante destes estudos foi a verificação de uma relação exponencial entre a carga de carrapatos por animal e o grau de sangue Holandês, em cruzamentos de Holandês/Guzerá, como se ilustra na Figura 2, que não tinha sido relatada antes na literatura. Cada ponto na Fig. 2 corresponde a contagens em 60 novilhas, realizadas imediatamente antes dos banhos carrapaticidas.
Teodoro et al (1994) não acharam diferenças estatisticamente significativas na carga de carrapatos entre as raças Holandesa, Jersey e Pardo Suíço, em cruzamentos com vacas Holandês/Gir.
Um resultado um pouco surpreendente foi a verificação de variação genética entre reprodutores da raça Holandesa, em cruzamentos com zebu, sendo a herdabilidade encontrada de h2 = 0,20 (Madalena et al 1985). Neste último estudo verificou-se também que o descarte das novilhas mais infestadas por carrapatos teria uma eficácia apenas moderada. Por exemplo, descarte do 10% das novilhas mais infestadas eliminaria 18% da população de carrapatos em novilhas Holandesas e 26% em novilhas 1/4 Holandês, sendo a resposta intermediária entre estas duas nos outros graus de sangue.
Para avaliar o efeito dos carrapatos, Teodoro et al (1998) compararam a produção de leite de vacas adultas infestadas artificialmente com carrapatos com a produção de vacas mantidas livres do parasita, através de banhos, e obtiveram um resultado intrigante: enquanto em vacas Holandesas as infestadas produziam 26% menos leite que as banhadas, em vacas F1 e 5/8 as diferenças entre ambos os grupos não foram estatisticamente significativas. Este resultado, também inédito, tem grande importância prática, e deveria ser verificado em outras pesquisas semelhantes.
Avaliações da resistência de tourinhos, sob infestação artificial, foram realizadas no projeto Desenvolvimento do Mestiço Leiteiro Brasileiro (MLB), um projeto de pesquisa e desenvolvimento visando obter informações para o delineamento de programas de seleção de gado mestiço (Madalena, 1999). Este foi o primeiro programa de teste de progênie de gado de leite no Brasil, sendo os tourinhos avaliados para resistência antes do início das coletas de sêmen, na hoje EMBRAPA - Pecuária Sudeste, em São Carlos-SP (Teodoro et al 1984). As progênies foram avaliadas para produção de leite, gordura e proteína, em fazendas participantes do programa, e em parte delas também foram realizadas contagens da carga de carrapatos em condições de infestação natural e artificial. Conceição Jr. (1997), na sua tese de doutorado na UFMG, analisou os dados de 1075 contagens de carrapatos de filhas de 25 touros mestiços, num banco de dados que incluía 2321 lactações de progênies de 136 touros. Neste trabalho houve indícios de que as cargas de carrapatos sob infestação artificial e natural representavam a mesma característica. As herdabilidades estimadas podem ser vistas na Tabela 1, estando dentro do esperado na literatura. Note-se que a herdabilidade da carga de carrapatos (0,49) é relativamente alta, possibilitando resposta rápida à seleção para resistência, como mostrado na Figura 1 acima. As correlações genéticas foram bastante baixas, indicando que os genes que influenciam a produção são diferentes dos que influenciam a carga de carrapatos, e, portanto, a seleção para uma destas características não terá maiores consequências na outra. Em outras palavras, não se espera que a seleção para resistência ao carrapatos altere maiormente a produção, nem que a seleção para produção altere a resistência. As correlações genéticas mostradas na Tab. 1 também são inéditas na literatura.
Em conclusão, parece claro que há importantes vantagens na exploração da variação genética dos bovinos na sua resistência aos carrapatos, tanto nos cruzamentos quanto na seleção de reprodutores. Este é mais um método de enfrentar o parasita, que logicamente deve ser integrado com outros, como os banhos estratégicos, a rotação das pastagens, vacinas e descarte dos animais mais infestados do rebanho. No Brasil, o gado de corte largou na frente na aplicação prática da seleção para resistência, pois há vários anos existem sumários que apresentam DEPs para a carga de carrapatos em infestação natural. A avaliação genômica é mais uma ferramenta hoje disponível para aumentar a eficiência da seleção. Entretanto, a simples avaliação fenotípica dos reprodutores, sob infestação artificial, como descrito acima, constitui um método simples, prático e eficaz, especialmente em programas em que o número de touros não é muito alto, como, por exemplo, nos programas de baseados na inseminação artificial.
Referências
Os trabalhos citados podem ser acessados livremente no site do autor www.fernandomadalena.com
