Vários índices são utilizados para caracterizar a situação técnica ou econômica das propriedades leiteiras. No entanto, o monitoramento de muitos parâmetros, embora possibilite uma avaliação mais precisa da situação, pode acarretar em acúmulo de trabalho e aumento dos custos, sendo sempre interessante localizar um meio termo entre a qualidade/quantidade da informação e o custo/trabalho para obtê-las.
Alguns índices têm a característica de representar aspectos importantes da atividade e não são difíceis ou caros de se obter. Estes índices devem ser os acompanhados preferencialmente nas fazendas. Dentro desta linha, a Receita Menos o Custo de Alimentação - a partir de agora denominado RMCA - espelha com boa precisão a situação econômica da fazenda e reflete vários itens de custo e desempenho.
Mas o que é a RMCA ? Nada mais é do que o resultado da receita diária obtida da venda do leite, por vaca em lactação, menos os gastos de alimentação do rebanho, também expressos por vaca em lactação. Supondo por exemplo um rebanho com média de 30 kg/vaca/dia e preço de leite de R$ 0,35/litro, a receita por vaca/dia é R$ 10,50. Se subtraírmos os custos médios de alimentação das vacas, teremos a RMCA relativa à alimentação das vacas. Vamos supor que o custo de alimentação esteja na casa de R$ 3,80/vaca/dia. O resultado é R$ 6,70.
Ainda, podemos descontar deste valor o gasto com alimentação de novilhas e vacas secas, expressos por vaca em lactação/dia, calculando então a RMCA final do rebanho. Vamos supor que este rebanho gaste mais R$ 1,00/vaca em lactação/dia para alimentar estas categorias. Logo, a RMCA final seria de R$ 5,70/vaca/dia.
E porque este índice deve ser monitorado ? Analisando o resultado, o valor acima de R$ 5,70 seria a quantia de dinheiro que sobra de cada vaca em lactação, a cada dia, para pagar as demais despesas e obter lucro. Como os custos de alimentação são os mais variáveis e maiores e como os demais custos pouco variam em termos proporcionais ao custo total, é quase certeza afirmar que se a RMCA subir de um mês ao outro, possivelmente a situação econômica da fazenda estará melhorando.
A RMCA é o resultado de vários aspectos técnicos e econômicos da atividade. Quanto maior a produção de leite (para um mesmo custo de alimentação ou mesmo sistema de produção), maior será a RMCA, quanto maior o preço do leite, maior será a RMCA; quanto maior a porcentagem de vacas em lactação, maior a RMCA; quanto menor a % de novilhas, maior a RMCA; quanto menor o custo dos alimentos, maior a RMCA.
Monitorando os dados mensalmente e colocando em um gráfico ou tabela, a fazenda poderá avaliar o que está ocorrendo com o desempenho da fazenda. O gráfico 1 representa uma situação de uma propriedade avaliada em diferentes épocas. A linha vermelha mostra a tendência linear de aumento, ou seja, esta fazenda vem tendo cada vez mais dinheiro para pagar os custos, já descontadas as despesas com alimentação do rebanho. A não ser que em determinado momento tenha havido aumento anormal no custo de mão-de-obra, juros, medicamentos ou outro item, o gráfico deve espelhar a situação da fazenda.
Com este tipo de informação sendo monitorada, pode-se inclusive comparar a RMCA com a variação de aspectos como o preço do milho, do farelo de soja, a produção de leite, a % de vacas em lactação, o preço do leite, etc. Esta comparação pode ser visual ou, tendo-se um número suficiente de dados, através de avaliações estatísticas. O gráfico 2 mostra a comparação entre a produção de leite e a RMCA do rebanho. Não é preciso muito para perceber que se trata de uma variável importante, mas fazendo uma regressão linear, chega-se à informação mais precisa de que a cada litro de aumento na média, a RMCA se eleva em R$ 0,55/vaca/dia. Já o gráfico 3 traz a relação entre RMCA e preço pago pelo leite. A relação é semelhante, sendo que a cada centavo de aumento no preço do leite, a RMCA se eleva em R$ 0,45/vaca/dia.

Aconselha-se a trabalhar as informações em planilhas eletrônicas automatizadas, de forma que seja possível inclusive simular o efeito das variáveis envolvidas. Por exemplo: o que aconteceria com o custo de produção por litro, ou a RMCA, caso o farelo de soja subisse de R$ 400/tonelada ? O que aconteceria se o preço caísse abaixo de R$ 0,32/litro ? A fazenda pode inclusive estabelecer um determinado valor de RMCA abaixo do qual fica no vermelho. São inúmeras as aplicações da análise.
A tabela 1 traz para uma determinada situação do rebanho, qual seria a RMCA de acordo com vários preços do farelo de soja, ao passo que a tabela 2 traz a mesma análise supondo a variação nos preços do milho. Nota-se que, para cada incremento de R$ 50/tonelada, o farelo tem um impacto levemente maior na RMCA do que o milho, pelo menos para um rebanho recebendo a dieta simulada. Para cada R$ 50 de aumento na tonelada da soja, a RMCA cai cerca de R$ 0,26/vaca/dia ao passo que, para o milho, a queda é de R$ 0,22. Pode não parecer muito, mas se você possui 200 vacas em lactação, no caso da soja isto significa R$ 1320/mês a menos no seu bolso !



fonte: MilkPoint