Houve um tempo na década passada que algumas expertises em leite traçaram cenários para a produção de leite no Brasil numa visão de 10 anos à frente. Esses estudos foram publicados com projeções para a produção de leite nacional em 2024 e 2025. Interessante é que nenhum dos estudos acertou. Alguns chegaram a prever uma produção de leite em 2024 e 2025 entre 40,2 e 46,9 bilhões de litros, muito além dos 35,7 bilhões produzidos em 2024 (IBGE, 2025).
Um estudo mais elaborado, também com projeções para 2024, construíram dois cenários, um provável e o outro desejável. Na primeira alternativa, todas variáveis continuariam dentro da normalidade daquele ano, ou seja, 2014, projetando-se uma produção de 45,4 bilhões de litros. No outro cenário, o desejável, todos os fatores que poderiam interferir nos índices de produção e produtividade caminhariam muito bem, sem imprevistos de clima, preços de insumos, importações, entre outros, projetando-se uma produção de 54,8 bilhões de litros.
Outro estudo já nesta década, projetou-se para 2030 com base nos dados de 2020, uma produção de 47,6 bilhões e um consumo de 51,6 bilhões. Será que estarão corretos? Provavelmente não. Essas projeções nos levam a refletir sobre os prováveis erros nas deduções para tantas projeções equivocadas. Será pelo fato de reproduzir o que vemos hoje, considerando que o futuro 5 a 10 anos à frente, seria uma extensão do presente? ou frente às perspectivas de mudanças drásticas (clima, importações, política, etc), deduzir que tudo vai mudar rapidamente seja verdadeiro? Difícil saber, de qualquer forma é importante refletir e verificar o porquê de tantos erros.
Apesar da análise de cenários não buscar prever o futuro com precisão, mas sim explorar e preparar para múltiplos futuros possíveis, ajudando na tomada de decisões estratégicas e na redução de incertezas, há de se aprimorar as métricas para errar menos.
Atualmente surgiram novas ferramentas que podem apoiar melhor nas deduções dos cenários, como a Inteligência Artificial – IA. Será que novamente as expertises entrarão em cena para auxiliar nas projeções do leite para 2030/2035? Difícil saber. Contudo, sabemos do potencial da IA na pecuária leiteira e com o advento da Pecuária 5.0, uma revolução tecnológica que busca harmonizar o uso de tecnologias avançadas que leva a uma maior produtividade, eficiência, lucratividade e competitividade para as fazendas leiteiras. Nela, a conectividade 5G e o avanço das tecnologias de coleta de dados permitem a gestão em tempo real e em larga escala com apoio de computador quântico.
A IA já tem sido utilizada em vários setores para otimizar processos, aumentando a produtividade e diminuindo custos. Pode monitorar a saúde e bem-estar do rebanho; melhorar a nutrição; automação e gestão de ordenha; previsão de produção de leite; modelos de IA preveem a produção leiteira ao considerar variáveis como clima, nutrição, genética e saúde do rebanho. Isso ajuda os produtores a planejar a logística, a comercialização e a gestão de estoques com maior precisão.
Outra incrível utilidade da IA é a ferramenta denominada NotebookLM utilizada para obter conclusões assertivas (briefing) de grande volume de documentos com fatos e relatos, como os publicados recentemente pela OECD-FAO Agricultural Outlook/Projeções de Longo Prazo a 2029/30 do MAPA para o agronegócio/ entre outros, obtendo de forma resumida e conclusiva uma visão abrangente do setor agroalimentar global no futuro próximo. Compartilham temas centrais e oferecem uma perspectiva consistente sobre os desafios e oportunidades que o setor enfrentará na próxima década.
Figura 1. Exemplo de construção de cenários através de IA
Vejamos algumas projeções para 2030 a 2034 da análise realizada pela IA com base nesses documentos:
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Melhorias de Rendimento: "87% do crescimento projetado da produção global de grãos deverá vir de melhorias nos rendimentos, 7% de aumento da intensidade de cultivo e apenas 6% da expansão das terras cultivadas".
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Investimento Essencial: Essas melhorias de produtividade não ocorrerão "sem investimentos contínuos em infraestrutura e P&D e uma importante aceleração em inovações em digitalização, tecnologia, melhores dados e capital humano".
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Desequilíbrios Regionais: Os relatórios projetam que a "diferenciação entre regiões exportadoras líquidas e importadoras líquidas deverá se intensificar." Regiões como a América Latina e o Caribe aumentarão seus superávits comerciais, enquanto a África Subsaariana e o Oriente Médio e Norte da África verão seus déficits comerciais se aprofundarem.
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Emissões de GEE: As emissões diretas de GEE da agricultura deverão "aumentar 4% nos próximos dez anos, com a pecuária respondendo por mais de 80% desse aumento", apesar de todos os esforços de alguns países que provavelmente serão protagonistas na COP-30 - Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025. O Outlook OCDE/FAO 2025 atualiza essa projeção para 5% de aumento até 2034.
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Impacto no Setor Pecuário: A pecuária é um foco chave para a redução de emissões. Priorizar "regiões de baixa produtividade para esforços de redução de emissões no setor agrícola poderia trazer benefícios substanciais" (Outlook 2025).
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Riscos Climáticos: Eventos climáticos extremos, pragas e doenças, e a acidificação dos oceanos são "ameaças significativas à produção, comércio e consumo globais".
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Consumo de Proteína: Países de alta renda verão o consumo de proteína animal se estabilizar, com uma mudança de carnes vermelhas para aves e lácteos, impulsionada por "preocupações crescentes com a saúde e o meio ambiente". Países de média renda mostrarão preferência por produtos pecuários e peixes.
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Proteínas Alternativas: O interesse em "fontes alternativas de proteína, como proteínas à base de plantas (soja, ervilha), novas fontes animais (insetos) ou inovações biotecnológicas (carne cultivada ou proteína fúngica)" é crescente, especialmente em países de alta renda, diferentemente da tendência para os países em desenvolvimento.
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Impacto dos Custos de Insumos: Os altos custos dos insumos, especialmente a energia e os fertilizantes sintéticos, têm "elevado os preços dos alimentos, exacerbando as preocupações com a segurança alimentar global" (Outlook 2025).
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População: O crescimento populacional global está desacelerando para 0,9% a 0,8 a.a. em 2030 e 2034, mas continuará a ser o principal impulsionador da demanda, especialmente nos países em desenvolvimento.
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China: A China "permanecerá um motor chave da demanda por várias commodities, incluindo peixe, carne" (Outlook 2025), com destaque para queijos importados da América do Sul, inclusive do Brasil, que deve ter grande impacto nesse mercado (MAPA 2020).
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Índia: O crescimento da renda na Índia "apoiará a crescente demanda por lácteos frescos" (50% da demanda global adicional).
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Países de alta renda: "Devido às crescentes preocupações com a saúde e o meio ambiente, não se espera que o consumo per capita de carne aumente e os consumidores substituirão cada vez mais a carne vermelha por aves e produtos lácteos".
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Laticínios: A produção de leite deverá crescer 1,7% a.a. (Projeções OCDE/FAO 2025), aquém dos 1,9 e 2,8% projetados pelo MAPA até 2030, porém, crescimento mais rápido do que a maioria das commodities agrícolas. A produção mundial de leite caminha para a casa de 1 trilhão de litros impulsionada principalmente por melhor gestão das fazendas e ganhos na produtividade dos animais e menos pelo aumento no número de vacas em lactação. Contudo, em países com baixos rendimentos, como Índia e Paquistão, que "responderão por mais de 30% da produção mundial de leite até 2030", o aumento na produção virá pelo crescimento do rebanho leiteiro.
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Exportadores Dominantes: A América Latina e o Caribe "reforçará sua posição como o principal fornecedor mundial de commodities agrícolas", com um aumento projetado de 19% nas exportações líquidas até 2030.
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Fertilizantes Sintéticos: As condições dos mercados de fertilizantes sintéticos, que são "altamente concentradas e estreitamente ligadas aos mercados de energia, tornando-os muito suscetíveis a choques e interrupções no fornecimento" (Outlook 2025), com impactos de longo alcance nos sistemas alimentares.
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Biocombustíveis: A demanda por biocombustíveis deverá aumentar nos países em desenvolvimento devido à demanda por combustíveis para transporte, segurança energética e metas fiscais, enquanto nos países desenvolvidos, "a expansão dos biocombustíveis será limitada devido à pressão sobre a demanda por combustíveis fósseis e à redução dos incentivos políticos" (Outlook 2025).
Os relatórios enfatizam várias fontes de riscos e incertezas que podem desviar as projeções:
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Eventos Climáticos Extremos: "Eventos climáticos extremos acentuados pelas mudanças climáticas podem causar maior volatilidade nos rendimentos dos grãos, afetando assim a oferta e os preços globais".
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Políticas Governamentais: Mudanças nas políticas de comércio, subsídios agrícolas, biocombustíveis e regulamentações ambientais podem ter um impacto significativo nos mercados. A não ratificação de acordos comerciais importantes, como o EU-Mercosul, adiciona incerteza.
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Inovação e Adoção Tecnológica: Embora as inovações tecnológicas sejam cruciais, a velocidade e a extensão de sua implementação, especialmente em países de baixa e média renda, permanecem incertas.
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Conflitos Geopolíticos: O relatório de 2025 destaca que "incertezas geopolíticas mais amplas que afetam o comércio global e os mercados de commodities" podem impactar o setor.
Em conclusão, o setor agroalimentar global está em uma encruzilhada. Enfrenta a tarefa de alimentar uma população crescente de forma sustentável, ao mesmo tempo em que lida com os impactos das mudanças climáticas, pressões ambientais e desafios econômicos. O foco na produtividade, na sustentabilidade e na resiliência comercial será fundamental para navegar nesta década de transformações.
Uma coisa é certa, deve-se ter ciência das implicações da concentração da produção devido à grande evasão de produtores para o desenvolvimento rural e a sustentabilidade da pecuária leiteira no longo prazo. Os produtores que continuarem a produzir leite no futuro, independentemente se familiar ou empresarial, devem acompanhar as mudanças para serem competitivos e a lucratividade será a chave para se manterem na atividade. As fazendas de leite deverão continuar a aumentar em escala de produção para otimizar a eficiência e reduzir o custo de produção. O aumento dos custos dos insumos e a escassez de mão de obra são preocupações que não só tiram o sono dos produtores, mas também são preocupações reais que afetam as fazendas leiteiras.