Pérolas

Um dos grandes assuntos em discussão nos próprios fórums do MilkPoint (o mais democrático espaço de troca de informações do setor) e mesmo no setor de Cartas do Leitor é o que envolve Sistemas de Produção, pois é a partir daí que se determina a raça a trabalhar, como produzir alimentos e todas as demais implicações envolvidas em cada tipo de exploração.

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A quem interessaria a desinformação? Quem pode lucrar com o engano? Será que uma mentira falada repetidamente pode transformar-se em verdade?

Essas perguntas passam pelos meus pensamentos todas as vezes que vejo a difusão de conceitos e falsas verdades por profissionais respeitados quando o assunto é o de sistemas de produção de Leite. Que o Brasil é enorme. Que cada propriedade é uma realidade. Que o que serve para um, muitas vezes não serve para outro. Escutamos repetidamente estes chavões, para inviabilizar a comparação quando se fala de CASES no Leite, como se o que valesse verdadeiramente para o sucesso de alguém não tivesse valor para mais ninguém.

Um dos grandes assuntos em discussão nos próprios fórums do MilkPoint (o mais democrático espaço de troca de informações do setor) e mesmo no setor de Cartas do Leitor é o que envolve Sistemas de Produção, pois é a partir daí que se determina a raça a trabalhar, como produzir alimentos e todas as demais implicações envolvidas em cada tipo de exploração.

Apesar dos exemplos de sucesso, o planejamento de uma exploração geralmente é fortemente influenciado pela opção pessoal do produtor, pois é ele quem assumirá o risco financeiro da atividade, e aí entram em conjunto diversos fatores como carga cultural, meio, acesso a informações, capacidade de investimento, visão da atividade, etc...Geralmente a chegada do técnico, quando ocorre, tem como objetivo tentar alinhar as idéias que o produtor já possui. Raros são os empreendimentos em que a elaboração de todo o planejamento conta com a participação do técnico desde o primeiro momento.

Dentro deste cenário, um fator que tem tomado corpo, principalmente quando pensamos em Resultado Financeiro, Custos Totais de produção de cada sistema é a utilização e mesmo a publicação de dados que não contemplam todos os fatores envolvidos em um custo de produção verdadeiro. Este engodo não seria preocupante se o mesmo não fosse alardeado constantemente como uma vantagem competitiva, o que, por ser inverídico, pode levar muitos produtores a enveredar por caminhos de muitos dissabores.

Figura 1

Figura 2
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Por ter um suposto engessamento maior, devido a necessidade de maiores controles, o sistema de produção de leite em confinamento não permite muitos enganos, apesar de constantemente ler, ouvir e ver produtores falando de seus Custos de Leite apenas baseados no Fluxo de Caixa ou Custo Operacional Efetivo (Quanto recebi menos o que gastei) e esquecendo-se que Custos Totais incluem Pró-labore, Depreciação de Benfeitorias, máquinas e equipamentos e principalmente Remuneração sobre capital, incluso Terra. A não utilização dO RSC (Retorno sobre o Capital) leva a obtenção de um custo distorcido quando pensamos em Sistemas de Confinamento e completamente irreais em sistemas mais extensivos.

Geralmente escutamos o argumento que a terra já existia, então a mesma não é custo. Ora a Terra é um fator de produção igual aos animais, as benfeitorias, os maquinários e equipamentos e como tal deve ser considerada. Assim como as instalações e equipamentos tambem devem ser considerados quando se considera o Retorno sobre Capital. Ao olharmos os gráficos abaixo, o primeiro com resultados imcompletos e o segundo com dados completos, o produtor baseado na primeira informação pode adotar atitudes que levem a atividade para a insolvência, aumentando seu endividamento quando da realização de investimentos sem considerar reservas, ou "economizando" aonde não deve.

Figura 3
Figura 4

Figura 5
Figura 6

Figura 7

Figura 8

Figura 9

O sistema de produção em semi-confinamento, que muitos técnicos resolveram batizar de Leite a pasto, criando uma grife, com objetivo mais mercadológico do que técnico, pois o mesmo envolve suplementações diárias de concentrado durante todo o ano e suplementações de volumosos durante o período da seca, pode ter diversos níveis de intensificação, com explorações com resultados por hectare semelhantes aos do sistema de confinamento total ou muito próximos do extrativista, conforme a visão que o produtor tem da atividade. Como o universo do semi-confinamento é extremamente variável, os fatores citados acima para o confinamento terão grande importância ora pendendo para a depreciação, ora para a RSC. Em sistemas intensificados como os brilhantemente desenvolvidos pela EMBRAPA Sudeste onde a maximização de produção envolve sistemas de irrigação, e fornecimento de volumosos no período de seca, a depreciação de máquinas e equipamentos assim como sua manutenção possuem grande impacto no Custo Real de produção. Já para os produtores que trabalham em semi-confinamento mas com média ou baixa produtividade por hectare o fator Remuneração sobre capital, principalmente no quesito Terra terá um forte impacto em seu custo real de produção. Um exemplo pode ser obtido verificando o impacto do fator Terra em áreas de forte presença de Cana de Açucar e qual a participação basal deste item no custo de produção real da exploração. Os números são baseados em um grande player e apenas o custo da terra representa aproximadamente 15 % do faturamento em Leite da fazenda.

Figura 10

Já no sistema extensivo, ou na acepção correta de Leite a pasto, o impacto da Remuneração sobre capital terá um efeito quase que dramático no Custo real de produção, pois por utilizar baixas lotações e obter também baixas produtividades por hectare, o valor da remuneração sobre capital pode muitas vezes aproximar-se da metade do custo real de produção. Apenas em alguns clusters isolados com climas que permitam produção de volumosos de elevado valor essa situação não ocorre. Quando se opta por sistemas de produção a pasto sob pivô de irrigação, o valor da depreciação e da manutencão tendem a ter um peso maior na obtenção do Custo final. O exemplo abaixo leva em consideração valores de terra existentes na Zona da Mata e Vale do Jequitinhonha de Minas Gerais, Norte do Rio de Janeiro e Região Sul da Bahia e respectiva produtividade em explorações extrativistas. Se incorporarmos um custo mínimo de manutenção de pastagens o valor extrapola em muito os obtidos com custo de alimentação nos sistemas semi-confinados e de confinamento total.

Figura 11

Acredito estar passado da hora de enxergarmos as informações provenientes de pesquisadores da área de Economia Rural como o Professor Sebastião da UFV ou o Dr Hernâni da Emater Paraná, com olhos críticos para análise, porém despidos de paixões ou direcionamentos pessoais. Para os produtores e principalmente para os técnicos que acabam por influenciar diversas outras pessoas a verdade deve sempre ser cristalina e clara, pois senão é apenas meia verdade.
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Mario Sérgio Zoni*

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Guilherme Alves de Mello Franco
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 19/04/2007

Prezado Dr. Mário:

Mas o senhor não acha que, se toda a vez que formos fazer um balanço sobre nossa atividade, levarmos em conta o valor de nossas benfeitorias e terras, nós estaremos fadados ao desânimo? Explico: No meu caso, tenho que remunerar um capital de 936 alqueires de terra, herdadas de meu avô, distribuídas em três fazendas e de benfeitorias de concreto (estábulos, sala de máquinas, bezerreiros, galpões de ração, dois silos de concreto com mais de quinze metros de altura, granja de criação de porcos com quinhentos e vinte e cinco metros de área construída, sala de ordenha, usina hidrelétrica e moinho de fubá).

Muitas delas, eu não construiria, hoje. Se colocar no papel o "quantum" mercadológico das mesmas, fecho minhas portas e desisto, já que leite não remunera cimento, como diz um amigo meu, com muita propriedade, infelizmente. Lado outro, como já tive oportunidade de elucidar em outras ocasiões, tenho lucro com a atividade, produzindo 1300 litros de leite/dia, com vinte e oito vacas em lactação. Isto não é a realidade? Meu sistema não é lucrativo? Como pensar minha fazenda, ante estes dados?

Um abraço,

GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

<b>Resposta do autor:</b>

Prezado Guilherme

A depreciação e principalmente o RSC é calculado apenas e tão somente nas instalações e áreas utilizadas para a produção, pois como o Sr. bem falou, a fazenda é utilizada para muitas outras atividades. Sendo assim, a grosso modo, entraria na conta a área destinada a produção de alimentos para as vacas de leite, as instalações e benfeitorias utilizadas para o processo de produção e as casas dos funcionários envolvidos na produção de leite.

Quanto à lucratividade, difícil animais com produções tão elevadas baseadas em produção própria de volumosos não serem lucrativos.

Abraços,

Mário Sérgio Ferreira Zoni
Guilherme Alves de Mello Franco
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/04/2007

Prezado Dr. Mário Sérgio,

Parabéns pelo estudo. Eu sou um dos que prega a não incidência do valor da terra e benfeitorias no cálculo da produção, como o senhor bem sabe, já externada esta minha posição anteriormente. Ainda não consigo entender esta inclusão, já que, seu eu for plantar cana, a terra será a mesma, se eu for criar gado de corte, a terra será a mesma, se eu for criar cabritos, a terra será a mesma, se eu fizer tudo ao mesmo tempo, a terra será a mesma, se eu não fizer nada, a terra será a mesma.

E, com certeza, não derrubarei as benfeitorias por mudar de atividade. Eu sou criador de gado nelore tabapuã, de simental, de gado de corte comercial, de gado holandês e, agora, de gado jersey. Planto eucaliptos, cana, milho e crio porcos em regime profissional (granja). Parece óbvio que o valor da terra e das benfeitorias não atinge só a produção do leite. Assim, não pode ser colocada como seu custo, a não ser que eu tenha que adquirí-la para tal mister.

Lado outro, o mais certo, então, seria dividir este valor pelo número de anos e atividades em que a mesma vem sendo utilizada, para que se tenha uma visão mais acertada do contexto e, não, simplesmente, aderi-la às planilhas. Por outro lado, como é que se lida com a valorização (contrário da depreciação) da propriedade, consubstanciada em face do maior interesse pela plantação da cana-de-açúcar (num contexto bem atual).

Neste caso, a produção do leite ficará mais barata ou mais cara? Ou vamos divagar ainda mais: se eu achar petróleo em minhas terras e elas forem muito valorizadas por isso, o leite produzido vai baratear, ou mesmo, encarecer? É claro que não. Por isso, não entendo a interferência que estes valores podem ter na produção de leite.

Para mim, o gasto e o ganho têm que ser reais para que se tenha uma visão correta da viabilidade da produção e, não, ficar especulando sobre valores que nada trazem em ambos aspectos (receita e despesa). Não sendo assim, todo o modelo de produção é inviável, desestimulante, dá prejuízo, o que não é verdade. Nós bem o sabemos.

Um grande abraço, meu mais sincero respeito e muito obrigado pelas sempre válidas lições. Sinto-me honrado em ser seu discípulo.

GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO

<b>Resposta do autor:</b>

Prezado Dr Guilherme

A obtenção de diversos índices de custo dentro da atividade tem funções diversas. A obtenção do Custo Operacional Efetivo ou como muitos preferem chamar "Fluxo de Caixa" atende ao que o Sr colocou, ou seja, servem para evidenciar se estou sendo eficiente ou não na condução da atividade em um cenário de curto prazo, se terei condição financeira de saldar compromissos de curto e médio prazo.

O custo Operacional Total, como bem colocou o Rene no forum de Gerenciamento ao embutir o pro labore, fornece um fluxo de caixa já com a remuneração do empreendedor, pois ninguem trabalha de graça.

O custo total de produção ao considerar depreciação e RSC tem uma função diversa, enquanto o COT tem como foco o curto e médio prazo imediato, o Custo Total tem como foco avaliar a capacidade que o empreendimento tem de permanacer viável em um cenário de médio e longo prazo.

A necessidade de considerar a depreciação e a remuneração dos bens envolvidos com e somente com a atividade, servem para evidenciar se com dinheiro gerado pela atividade terei condição de atender o crescimento anual, repor os bens depreciados e prover lucratividade acima do que rende por exemplo a caderneta de poupança. é este custo total e principalmente o Lucro depois da RSC que evidencia a saúde financeira de qualquer empreendimento.

Quanto às suposições sobre possíveis valorizações patrimoniais, as mesmas devem ser consideradas sim, assim como se considera o crescimento do rebanho como uma valorização patrimonial. deve-se lembrar apenas que as possíveis valorizações de terras incidem no primeiro momento como um ganho financeiro ( já que a valorização patrimonial é um dos componentes do lucro ), mas a partir daí aumentar o valor calculado anualmente da RSC.

De uma forma simplista, pois apesar de ser Médico Veterinário, preciso enxergar a administração de uma propriedade leiteira como qualquer outro negócio, o Custo Operacional serve como um indicativo de eficiência momentânea, já o Custo Total me demonstra se independentemente das paixões, a atividade é viável e vai interessar a qualquer um que for o seu condutor.

Um grande abraço

Mário Sérgio Ferreira Zoni
LUIS GUSTAVO AZEVEDO AMARAL
LUIS GUSTAVO AZEVEDO AMARAL

SÃO FIDÉLIS - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE GADO DE CORTE

EM 16/04/2007

Dr. Mário, excepcional o artigo, muito esclarecedor. Mas qual o sistema o senhor defende?

Abraços,

Luis Gustavo Azevedo Amaral

<b>Resposta do autor:</b>

Prezado Luiz Gustavo,

Penso que não importa o sistema e sim a visão da exploração. Prefiro pensar em sistemas extensivos (nos quais não vejo nenhuma viabilidade econômica) e em sistemas intensivos de produção, seja em confinamento ou em semi confinamento.

Com produções como as idealizadas por você, em que a média de produção por hectare/ano é superior a 20.000 litros de leite, onde você produz o seu volumoso e mesmo parte do concentrado, difícil não ganhar dinheiro com leite, a não ser em situações de mercado extremamente desfavoráveis, com preço médio ao longo do ano inferiores a R$ 0,35.

Como dizem por aqui, o único lugar onde lucro vem antes do trabalho é no dicionário, e é assim que vejo a atividade.

Boa sorte na empreitada.

Mário Sérgio Ferreira Zoni
Renato Palma Nogueira
RENATO PALMA NOGUEIRA

CASA BRANCA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 16/04/2007

Mário, parabéns. Concordo com o artigo.

Abraços,

Renato Palma Nogueira
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