Essas perguntas passam pelos meus pensamentos todas as vezes que vejo a difusão de conceitos e falsas verdades por profissionais respeitados quando o assunto é o de sistemas de produção de Leite. Que o Brasil é enorme. Que cada propriedade é uma realidade. Que o que serve para um, muitas vezes não serve para outro. Escutamos repetidamente estes chavões, para inviabilizar a comparação quando se fala de CASES no Leite, como se o que valesse verdadeiramente para o sucesso de alguém não tivesse valor para mais ninguém.
Um dos grandes assuntos em discussão nos próprios fórums do MilkPoint (o mais democrático espaço de troca de informações do setor) e mesmo no setor de Cartas do Leitor é o que envolve Sistemas de Produção, pois é a partir daí que se determina a raça a trabalhar, como produzir alimentos e todas as demais implicações envolvidas em cada tipo de exploração.
Apesar dos exemplos de sucesso, o planejamento de uma exploração geralmente é fortemente influenciado pela opção pessoal do produtor, pois é ele quem assumirá o risco financeiro da atividade, e aí entram em conjunto diversos fatores como carga cultural, meio, acesso a informações, capacidade de investimento, visão da atividade, etc...Geralmente a chegada do técnico, quando ocorre, tem como objetivo tentar alinhar as idéias que o produtor já possui. Raros são os empreendimentos em que a elaboração de todo o planejamento conta com a participação do técnico desde o primeiro momento.
Dentro deste cenário, um fator que tem tomado corpo, principalmente quando pensamos em Resultado Financeiro, Custos Totais de produção de cada sistema é a utilização e mesmo a publicação de dados que não contemplam todos os fatores envolvidos em um custo de produção verdadeiro. Este engodo não seria preocupante se o mesmo não fosse alardeado constantemente como uma vantagem competitiva, o que, por ser inverídico, pode levar muitos produtores a enveredar por caminhos de muitos dissabores.


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Por ter um suposto engessamento maior, devido a necessidade de maiores controles, o sistema de produção de leite em confinamento não permite muitos enganos, apesar de constantemente ler, ouvir e ver produtores falando de seus Custos de Leite apenas baseados no Fluxo de Caixa ou Custo Operacional Efetivo (Quanto recebi menos o que gastei) e esquecendo-se que Custos Totais incluem Pró-labore, Depreciação de Benfeitorias, máquinas e equipamentos e principalmente Remuneração sobre capital, incluso Terra. A não utilização dO RSC (Retorno sobre o Capital) leva a obtenção de um custo distorcido quando pensamos em Sistemas de Confinamento e completamente irreais em sistemas mais extensivos.
Geralmente escutamos o argumento que a terra já existia, então a mesma não é custo. Ora a Terra é um fator de produção igual aos animais, as benfeitorias, os maquinários e equipamentos e como tal deve ser considerada. Assim como as instalações e equipamentos tambem devem ser considerados quando se considera o Retorno sobre Capital. Ao olharmos os gráficos abaixo, o primeiro com resultados imcompletos e o segundo com dados completos, o produtor baseado na primeira informação pode adotar atitudes que levem a atividade para a insolvência, aumentando seu endividamento quando da realização de investimentos sem considerar reservas, ou "economizando" aonde não deve.







O sistema de produção em semi-confinamento, que muitos técnicos resolveram batizar de Leite a pasto, criando uma grife, com objetivo mais mercadológico do que técnico, pois o mesmo envolve suplementações diárias de concentrado durante todo o ano e suplementações de volumosos durante o período da seca, pode ter diversos níveis de intensificação, com explorações com resultados por hectare semelhantes aos do sistema de confinamento total ou muito próximos do extrativista, conforme a visão que o produtor tem da atividade. Como o universo do semi-confinamento é extremamente variável, os fatores citados acima para o confinamento terão grande importância ora pendendo para a depreciação, ora para a RSC. Em sistemas intensificados como os brilhantemente desenvolvidos pela EMBRAPA Sudeste onde a maximização de produção envolve sistemas de irrigação, e fornecimento de volumosos no período de seca, a depreciação de máquinas e equipamentos assim como sua manutenção possuem grande impacto no Custo Real de produção. Já para os produtores que trabalham em semi-confinamento mas com média ou baixa produtividade por hectare o fator Remuneração sobre capital, principalmente no quesito Terra terá um forte impacto em seu custo real de produção. Um exemplo pode ser obtido verificando o impacto do fator Terra em áreas de forte presença de Cana de Açucar e qual a participação basal deste item no custo de produção real da exploração. Os números são baseados em um grande player e apenas o custo da terra representa aproximadamente 15 % do faturamento em Leite da fazenda.

Já no sistema extensivo, ou na acepção correta de Leite a pasto, o impacto da Remuneração sobre capital terá um efeito quase que dramático no Custo real de produção, pois por utilizar baixas lotações e obter também baixas produtividades por hectare, o valor da remuneração sobre capital pode muitas vezes aproximar-se da metade do custo real de produção. Apenas em alguns clusters isolados com climas que permitam produção de volumosos de elevado valor essa situação não ocorre. Quando se opta por sistemas de produção a pasto sob pivô de irrigação, o valor da depreciação e da manutencão tendem a ter um peso maior na obtenção do Custo final. O exemplo abaixo leva em consideração valores de terra existentes na Zona da Mata e Vale do Jequitinhonha de Minas Gerais, Norte do Rio de Janeiro e Região Sul da Bahia e respectiva produtividade em explorações extrativistas. Se incorporarmos um custo mínimo de manutenção de pastagens o valor extrapola em muito os obtidos com custo de alimentação nos sistemas semi-confinados e de confinamento total.

Acredito estar passado da hora de enxergarmos as informações provenientes de pesquisadores da área de Economia Rural como o Professor Sebastião da UFV ou o Dr Hernâni da Emater Paraná, com olhos críticos para análise, porém despidos de paixões ou direcionamentos pessoais. Para os produtores e principalmente para os técnicos que acabam por influenciar diversas outras pessoas a verdade deve sempre ser cristalina e clara, pois senão é apenas meia verdade.