Perda de dinheiro produzindo leite

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Na pecuária leiteira, leite é uma moeda importante para pagamento de custos e, de maneira geral, no mundo todo a renda proveniente da venda representa de 80 a 90% da receita da atividade, se a fazenda for de produção e não de venda de reprodutores. Em um exercício interessante de simulação, a antiga revista Glória Rural de dezembro 1999, publicou um artigo contendo uma estimativa de que se perdia no Brasil, principalmente fora da fazenda: cerca de 2,4 bilhões de litros anualmente, por causa de acidez, mastite, transporte inadequado, rendimento industrial e vida curta na prateleira. Os números certamente são maiores, pois algumas perdas não foram incluídas por dificuldades na estimativa.

Levantamentos criteriosos feitos em várias propriedades leiteiras, indicaram que de 13% a 28% do leite produzido dentro da fazenda não era vendido, caracterizando em alguns casos redução significativa de renda. Os valores representavam perdas mensuráveis como descarte por mastite, uso indevido na criação de bezerros, fabricação de produtos lácteos caseiros, acidentes com recipientes, doação etc. Raramente esse problema é detectado, equacionado e introduzido nas análises econômicas da atividade, mas certamente afeta e sobre tudo distorce o resultado final.

Nas fazendas brasileiras, por desconhecimento e falta de visão empresarial, as perdas "invisíveis" nunca são consideradas porque dizem respeito ao leite que deixa de ser produzido por administração ineficiente dos recursos produtivos. Este fato acontece porque não se conhece o potencial existente no modelo de produção adotado nem o conceito de rebanho estável e estruturado. Leite deixa de ser produzido por uma série de problemas relacionados com nutrição, saúde e estresse e nesses casos uma estimativa do que se deixa de produzir é difícil de ser realizada. Entretanto, existe possibilidade de se obter uma idéia da perda, utilizando um índice que engloba não só os problemas mencionados mas também outros igualmente importantes como deficiências de reprodução, estrutura inadequada do rebanho, uso pouco eficiente do solo etc. Ele engloba todo o rebanho, dando ênfase à vaca em lactação, que é a unidade capaz de gerar renda através da produção de leite e de crias. O cálculo do número de vacas em lactação por hectare/ano pode revelar o potencial da propriedade que, multiplicado pela produção média por vaca, indica quanto se obtém de renda por hectare no ano, já que no Brasil os alimentos volumosos são produzidos na fazenda. O exemplo da tabela 1 revela, com dados reais (números aproximados), que eficiência não está relacionada com modelo de produção e que média diária de vacas em lactação ou produção por área não indicam uso eficiente de recursos produtivos.


Os dados da tabela 2 mostram o que se considera rebanho desestruturado, já que a quantidade de animais improdutivos é bem maior que o de vacas em lactação. Além desses aspectos, a fazenda de confinamento mantinha somente 73% das vacas em lactação por ano, e na outra propriedade o índice era de 80%.


A simulação abaixo (tabela 3) estima o número potencial aproximado de vacas em lactação por hectare por ano, considerando estrutura de rebanho, a capacidade de uso efetivo do solo e a porcentagem de vacas em lactação por ano (depende da reprodução e persistência de produção). O cálculo do índice é feito mês a mês, e desconsidera as outras categorias do rebanho, que acompanham as vacas em lactação e permite saber se a produção está de acordo com o potencial estimado para o modelo, comparando os resultados da fazenda com os dados teóricos da tabela. Índices maiores, mais difíceis de serem obtidos (cerca de 4,5), podem ser caracterizados com lotações aumentadas por uso mais intensivo do solo ou compra de volumosos.


Quando a produção de leite é tocada sob o ponto de vista empresarial, procurando eficiência (número elevado de vacas em lactação por hectare ano e redução nas perdas mensuráveis) pode-se caracterizar o seu poder de competitividade. Essa concepção permite visualizar que não seria difícil considerar o leite como um negócio, como se faz com outras atividades agrícolas desenvolvidas no país.
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Material escrito por:

Vidal Pedroso de Faria

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RODOLFO
RODOLFO

MARÍLIA - SÃO PAULO - FRIGORÍFICOS

EM 18/11/2003

Gostaria de parabenizar o site MilkPoint pelos conhecimentos e informações oferecidas aos empresários do leite, estudantes e médicos veterinários. Estes conhecimentos são muito importantes e ajudam a alavancar a pecuária leiteira.

Um abraço.
Rodolfo.
Médico Veterinário.
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