O que o futuro reserva para os nutricionistas de bovinos leiteiros?

A I.A. está por toda a parte. Nesse cenário, como fica a vida dos nutricionistas, especialmente aqueles que adoram um software de formulação? Irão se reinventar

Publicado em: - 5 minutos de leitura

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Recentemente fui convidado para apresentar duas palestras nas quais abordei temas relacionados a inovações surgidas nos últimos anos, aplicadas direta ou indiretamente na produção de leite. São inúmeras: produtos, equipamentos, softwares, técnicas, etc. Inegavelmente as novidades que têm mais impressionado são as que carregam elementos de inteligência artificial.

A famosa “I.A.” está em toda a parte, tomou conta das nossas vidas numa velocidade impressionante. Isso é muito bom, pois teremos cada vez mais ferramentas poderosas para nos ajudar a ser mais eficientes, mas não deixa de ser um pouco assustador. Por exemplo, hoje já é bem difícil identificar se uma imagem ou vídeo que recebemos pelo WhatsApp é real ou feita por I.A. Temos que ter muito discernimento e bom senso para separar o joio do trigo. De qualquer forma, é um movimento sem volta, gostemos ou não!

No que se refere à nutrição de bovinos leiteiros não tenho dúvidas de que em breve veremos muitas inovações interessantes que mudarão totalmente a forma como se trabalha atualmente. Quem me conhece, já leu artigos de minha autoria ou viu alguma apresentação, sabe que há tempos eu falo que a parte mais fácil do trabalho de um nutricionista de bovinos leiteiros é justamente formular as dietas. E digo isso com absoluta certeza, pois é “a minha praia”. Sei que muita gente vai torcer o nariz para o que vem a seguir, mas acreditem, formular dietas é moleza!

Os softwares que utilizamos – há um bom tempo – possuem otimizadores que rodam as formulações automaticamente. Basta entender como ajustar corretamente os parâmetros e restrições de alimentos e nutrientes, apertar um “botão” e pronto. Obviamente para entregar um bom trabalho é preciso conhecimento profundo dos conceitos de nutrição, tanto para definir os parâmetros a serem utilizados pelo software, como para avaliar se a solução proposta pelo sistema está adequada. Mas o trabalho de formulação em si já pode ser feito de maneira automática.

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E qual será a evolução desses softwares de formulação? Em minha opinião, em breve teremos ferramentas autônomas, baseadas em I.A. e “machine learning”, que não precisarão mais de nutricionistas para entregar boas soluções para os produtores de leite. Considerando o que muitas ferramentas baseadas em I.A. já fazem, é fácil imaginar que um sistema inteligente abastecido com os conceitos e equações de um modelo nutricional robusto, como o NASEM (2021), com informações detalhadas sobre os animais e sobre a composição dos alimentos disponíveis, terá tudo que precisa para rodar dietas eficientes, tranquilamente.

Hoje já existe pelo menos um sistema em funcionamento, rodando em fazendas comerciais na Europa, que a partir de dados informativos sobre animais, os alimentos e as formulações das dietas feitas pelos nutricionistas, faz sugestões de alterações nessas formulações e/ou no agrupamento dos animais para que o resultado financeiro seja melhorado. Sem nenhuma interferência humana, além do abastecimento das informações citadas anteriormente. Isso já é um grande avanço, então imaginem o que deve estar por vir!

Nesse cenário, como ficará a vida dos nutricionistas, especialmente aqueles que adoram um software de formulação? Terão que se reinventar. Atualmente, para prestar um bom serviço, os nutricionistas de bovinos leiteiros já precisam ir muito além da formulação, mas muitos ainda acreditam que essa é a chave para o sucesso. Meus cabelos brancos e/ou a escassez deles, e minha percepção da revolução que acontece à nossa volta me fazem acreditar que essa crença está bem longe da realidade. Não me entendam mal, não quero passar uma mensagem de que a nutrição deixará de ser relevante e os nutricionistas vão desaparecer. Eu sou nutricionista, estudo essa ciência maravilhosa há mais de 35 anos, e o conhecimento dos conceitos modernos de nutrição seguirá sendo fundamental, mas inegavelmente os profissionais que trabalham na área precisarão mudar bastante a forma de trabalhar.

Num cenário em que não haja mais necessidade de formular dietas, de que forma os nutricionistas seguirão sendo relevantes para seus clientes? Obviamente precisarão entender e dominar as novas ferramentas baseadas em I.A., isso será o mínimo. Como alguém já disse, “A I.A. não vai acabar com o trabalho das pessoas, apenas daquelas que não souberem dominar a I.A.” Além disso, mais do que nunca, precisarão “entender de vaca”.

Saber interpretar o comportamento dos animais e entender os sinais que nos mostram será mais importante ainda. Atualmente já existem diferentes sistemas para monitorar automaticamente diversos aspectos do comportamento dos animais, mas tenho plena convicção de que o “olhar clínico humano” sempre será necessário. Esses sistemas são excelentes auxiliares para a tomada de decisões e contribuem muito para que as fazendas sejam mais eficientes, mas para identificar alguns detalhes e interpretar adequadamente os dados, a experiência e conhecimento do humano são fundamentais.

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Existe um campo enorme a ser explorado na interface entre nutrição e bem-estar animal. Na verdade, a boa nutrição é um dos pilares do bem-estar. BEA não existe sem que os animais estejam adequadamente alimentados e nutridos. Assumindo que os nutricionistas terão cada vez menos responsabilidade pela formulação das dietas, eles têm a oportunidade de se dedicar ao entendimento das condições que podem, de alguma forma, prejudicar o consumo de água e alimentos.

Como eu também sempre falo, não adianta nada ter a melhor formulação de dieta do mundo, se as vacas não conseguem ingerir a quantidade adequada de alimentos por conta de problemas de falta de conforto. E nas fazendas há muitos aspectos que podem impactar negativamente o consumo. Falta de espaço, calor em excesso, competição excessiva nos lotes, acessos inadequados a bebedouros são alguns problemas que fazem com que os animais comam e bebam menos do que deveriam. Aí está uma grande oportunidade de fazer a diferença nas fazendas. E identificar esses problemas e propor soluções são coisas que a I.A. ainda não consegue fazer.

Outro ponto a considerar é que as ferramentas “automáticas” estarão cada vez mais presentes nas fazendas, os produtores terão cada vez mais dados à disposição, o que é muito bom. Mas dados não significam ter informação, e aí surge mais uma oportunidade, a demanda por profissionais que façam a correta interpretação desses dados para que possam ser, de fato, transformados em informações úteis. Ou seja, saber analisar e interpretar dados será um diferencial importante para os profissionais que não quiserem perder a guerra para a I.A. & cia. 

A velocidade com que as novas tecnologias avançam pode ser assustadora, mas entendo que a melhor alternativa é enxergar essas transformações como oportunidades e não como ameaças. Claro que para aproveitar essas oportunidades os profissionais terão que aprender novos truques e se adaptar a uma nova forma de trabalhar. Mesmo aqueles que, como eu, já estão “na lida” há muitas décadas. Essas novidades não são apenas para os jovens, os mais experientes também terão que se reinventar. E isso é muito bom!

 

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Material escrito por:

Alexandre M. Pedroso

Alexandre M. Pedroso

Doutor em Ciência Animal e Pastagens, CowSignals Expert, especialista em nutrição, manejo e bem-estar de bovinos leiteiros.

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William Heleno Mariano
WILLIAM HELENO MARIANO

VIÇOSA - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 06/12/2024

Excelente artigo! Certamente a mudança vem a galope. A nossa geração atual e as seguintes veremos mudanças muito mais rapidamente que as gerações anteriores, ao meu ver.

E além desse pontos, acrescentaria a mudança sobe o ponto de vista de um olhar ainda mais atento para as emissões de carbono equivalente. Concorda?
Alexandre M. Pedroso
ALEXANDRE M. PEDROSO

PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 09/12/2024

Muito obrigado pelo comentário William. Concordo totalmente, a questão das emissões de GEE nas fazendas leiteiras já é uma questão prioritária!
Qual a sua dúvida hoje?