Em experimento realizado no nordeste nos EUA (latitude 39º), 34 vacas holandesas foram alocadas sob 2 regimes de luminosidade, durante os 60 dias que antecederam ao parto (período seco): 16 horas de luz/8 horas de escuro (dia longo - DL) e 8 horas de luz/16 horas de escuro (dia curto - DC). Após o parto, todas as vacas entraram no manejo normal do rebanho (situação de luminosidade intermediária entre os tratamentos) e foi avaliada a produção e composição do leite por 16 semanas, além do peso, altura e comprimento do bezerro no parto. As vacas foram distribuídas nos 2 grupos considerando produção Equivalente Adulto igual na lactação anterior. O controle de luminosidade foi feito com lâmpadas fluorescentes fornecendo 350 Lx a 1,25 m de altura.
A concentração de prolactina no pré-parto foi 11,7 ng/ml (78,5%) maior nas vacas que ficaram sob o regime de alta luminosidade, mas as vacas que permaneceram mais tempo no escuro durante o período seco produziram 3,2 kg a mais de leite (P = 0,05, ver figura abaixo) do que as vacas em regime de alta luminosidade (34,9 kg x 38,1 kg/dia, ou 9,2%). O resultado de certa forma foi surpreendente, pois o aumento da concentração de prolactina no pré-parto é tido como necessário para a lactogênese e para o estabelecimento da lactação. Neste caso, ocorreu o oposto.
Os autores postularam que a mudança de um regime de curto fotoperíodo durante o período seco para regime de longo fotoperíodo durante a lactação é uma forma efetiva de elevar a produção de leite, superando os efeitos das diferenças na concentração de prolactina no pré-parto. Esta mudança atuaria como um sinal positivo, estimulando a produção. Talvez, se a mudança fosse ainda mais drástica, o resultado seria ainda mais significativo.

Há que se considerar que o consumo de MS foi significativamente maior para as vacas do grupo DC (11,9 kg de MS x 10,6 kg de MS, P = 0,04) durante o período seco. Quanto maior o consumo, maior a deposição de energia corporal necessária para suportar a lactação seguinte e este aspecto pode ter influenciado também o resultado.
Não houve efeito no peso, comprimento e altura do bezerro, nem na concentração de IGF-1, na composição do leite e na contagem de células somáticas entre vacas dos 2 grupos. Trabalhos anteriores demonstraram que com aumento do fotoperíodo, espera-se aumento nas concentrações de IGF-1 e que, em vacas em lactação, este fator seria responsável pelo aumento da produção de leite. Os autores sugeriram que, em função de dificuldade das vacas em se adaptar aos comedouros e do alto teor de forragem da dieta, o consumo de MS e de energia talvez não tenha sido otimizado, sendo este fator o que restringiu a elevação de IGF-1.
IMPLICAÇÕES PRÁTICAS: devemos colocar as vacas secas no escuro durante 16 horas diárias ? Ainda não, pois há poucos dados, mas é algo que devemos ficar atentos, pois trata-se de uma ferramenta de manejo não invasiva, compreendendo poucos animais por vez na fazenda (o lote seco) e que pode ser implantada na prática caso outros trabalhos demonstrem a viabilidade técnica.
O trabalho acima apresenta dados um pouco contraditórios, mas o fato é que a diferença em produção foi alta: 9,2%. Se isto de fato foi devido ao regime de luz, podemos fazer algumas contas:
- supondo uma vaca de 20 kg/dia, seriam quase 2 kg de leite a mais/dia, durante 16 semanas (pelo menos)
- com leite a R$ 0,35/litro, são R$ 78,40 por vaca neste período (2 kg x 0,35 x 16 x 7 dias)
- supondo que para cada kg de aumento na produção haja a necessidade de 0,5 kg a mais de ingestão de matéria seca e que esta custe R$ 0,20/kg, são: 0,5 kg de MS x 2,0 kg de leite x 0,20 x 16 x 7 = R$ 22,40 por vaca de aumento de custo
- aumento líquido da receita: 78,40 - 22,40 = R$ 56/vaca/16 semanas
É evidente que é necessário calcular o investimento necessário bem como os efeitos no manejo e outras variáveis (ex: deixar as vacas secas no escuro durante 16 horas diárias maximiza problemas de stress térmico, sanitários, ventilação, dificulta pastejo, etc).
Em artigo futuro, discutiremos as implicações da manipulação do fotoperíodo para vacas em lactação.
fonte: Journal of Dairy Science, 83: 962-967, 2000