Um dos exemplos mais emblemáticos está na manteiga. Em 2010, os Estados Unidos importaram cerca de 10 milhões de libras do produto. Onze anos depois, o volume havia chegado a aproximadamente 100 milhões de libras. Em 2024, as importações atingiram o pico de 176 milhões de libras, com a marca irlandesa Kerrygold respondendo por cerca de 65% desse mercado.
Em 2025, porém, o cenário mudou de forma expressiva. A produção americana de manteiga foi suficiente para transformar o país de um grande importador em exportador do produto. E o movimento ganhou força principalmente na segunda metade do ano: cerca de 80% das exportações ocorreram depois de agosto.
Para Corey Geiger, economista especializado no setor lácteo da CoBank, não se trata de uma oscilação pontual, mas de uma mudança estrutural. O motivo está em um elemento cada vez mais importante para a indústria americana: a quantidade de gordura produzida pelo rebanho leiteiro. E, por trás dessa transformação, existe uma mudança ainda mais profunda acontecendo dentro das próprias fazendas.
Quando o bezerro de corte passou a fazer parte da conta
A valorização dos bezerros de corte nascidos de vacas leiteiras criou uma nova fonte de receita para os produtores americanos. A inseminação de vacas leiteiras com sêmen de raças de corte tornou-se uma estratégia cada vez mais comum, especialmente para animais que não têm potencial genético para permanecer no rebanho. O resultado aparece no crescimento dos chamados animais mestiços de corte.
Segundo Geiger, o crescimento do rebanho leiteiro americano não está sendo explicado apenas pelo retorno obtido com a produção de leite. O valor dos bezerros de corte passou a exercer um papel relevante nessa decisão econômica.
A mudança também alterou o perfil dos animais enviados aos frigoríficos. Desde o Dia do Trabalho de 2023, os produtores de leite dos Estados Unidos enviaram para abate cerca de 457 mil vacas a menos, enquanto aumentou a participação de animais mestiços de corte no fluxo destinado à produção de carne bovina. O fenômeno é particularmente significativo porque aproxima duas cadeias que tradicionalmente eram analisadas de maneira mais separada: leite e carne bovina. A vaca leiteira passou a gerar valor não apenas pelo leite produzido durante sua vida produtiva, mas também pela genética escolhida para seus descendentes.
A genômica mudou a pergunta feita pelo produtor
Essa nova lógica não seria possível na mesma escala sem o avanço dos testes genômicos. A tecnologia começou a ganhar espaço na pecuária leiteira americana ainda no final dos anos 2000, inicialmente como ferramenta para identificar animais geneticamente superiores. Com o tempo, passou a ser utilizada também para decidir quais bezerras deveriam permanecer no rebanho.
Hoje, estima-se que entre 20% e 25% dos bezerros nascidos em rebanhos leiteiros dos Estados Unidos tenham amostras coletadas para avaliação genômica. Na prática, a informação genética ajuda o produtor a tomar uma decisão cada vez mais importante: quais animais merecem investimento para construir a próxima geração do rebanho e quais podem seguir outro caminho?
Se uma bezerra apresenta alto potencial para produção de leite e características desejáveis, ela pode permanecer no sistema. Caso contrário, pode ser destinada a uma estratégia de cruzamento ou seguir para a cadeia da carne. É uma mudança silenciosa, mas com efeitos em várias frentes ao mesmo tempo. A genética influencia a composição do rebanho, as decisões de reprodução, o volume e a composição do leite produzido e até o tipo de animal que deixa a propriedade com destino aos frigoríficos.
O avanço dos cruzamentos também ajuda a explicar uma mudança nas vendas de sêmen. A participação da raça Jersey, que chegou a representar cerca de 15% do mercado há cinco anos, caiu para aproximadamente 10%. Quando o destino econômico do bezerro deixa de ser exclusivamente a produção leiteira, características como tamanho e conformação corporal ganham peso na escolha genética.
De produtor de leite a potência exportadora
As mudanças dentro das fazendas coincidem com uma transformação na posição dos Estados Unidos no comércio internacional de lácteos. Quando o U.S. Dairy Export Council foi criado, em 1995, os Estados Unidos exportavam apenas cerca de 2% a 3% de sua produção de leite. Atualmente, esse percentual chega a aproximadamente 17%, enquanto a produção nacional cresceu 44% no mesmo período.
O queijo é um dos principais símbolos dessa expansão. Em maio de 2025, os Estados Unidos exportaram, pela primeira vez, mais de 110 milhões de libras de queijo em um único mês. Desde então, os embarques mensais permaneceram acima desse nível, chegando a superar 140 milhões de libras em alguns meses.
A competitividade também passa pelo preço. Entre Estados Unidos, União Europeia e Nova Zelândia — os três grandes exportadores globais de lácteos — os produtos americanos apresentam preços de queijo particularmente competitivos. O resultado é uma indústria que deixou de olhar apenas para o consumidor doméstico e passou a depender cada vez mais do mercado internacional para absorver sua produção.
O consumidor americano também está mudando
Ao mesmo tempo em que os Estados Unidos aumentam sua presença nos mercados externos, o consumo doméstico passa por uma transformação. A renda das famílias ajuda a explicar parte desse movimento. Segundo a análise apresentada por Geiger, os 20% mais ricos dos lares americanos, com renda anual superior a US$ 250 mil, destinam cerca de 8,1% de sua renda à alimentação, enquanto os 20% de menor renda comprometem aproximadamente um terço do orçamento com comida.
Essa diferença aparece no comportamento de compra. Enquanto consumidores de menor renda enfrentam maior pressão sobre o orçamento e reduzem gastos com restaurantes, consumidores de maior renda mantêm espaço para produtos premium.
O mercado também começa a sentir os efeitos da popularização dos medicamentos para perda de peso à base de GLP-1. Um estudo realizado por pesquisadores da Kansas State University e da Arizona State University apontou que consumidores que utilizam esses medicamentos apresentam maior disposição a pagar por carne bovina premium. A lógica é simples: quando o volume total de alimentos consumidos diminui, a disposição a pagar por produtos percebidos como mais saborosos ou de maior qualidade pode aumentar.
Para a cadeia de lácteos e carnes, isso abre uma discussão importante sobre valor por unidade consumida, e não apenas sobre volume.
A próxima fronteira pode ser a água
Se genética, carne e comércio exterior estão remodelando a indústria, existe um fator que pode limitar sua expansão: a água. A disponibilidade hídrica começa a exercer influência cada vez maior sobre a localização do crescimento da pecuária leiteira e das plantas de processamento.
Idaho e Texas, por exemplo, adicionaram mais de 70 mil vacas leiteiras cada um e permanecem entre os estados de maior expansão. Ao mesmo tempo, outras regiões, como a dos Grandes Lagos, também vêm ganhando importância justamente por apresentarem maior disponibilidade de água.
A geografia da produção americana pode, portanto, mudar nos próximos anos. Não basta haver terra, infraestrutura ou mercado consumidor. A expansão da pecuária leiteira exige água para as vacas, para as lavouras que produzem sua alimentação e para as próprias unidades de processamento. Esse fator também evidencia um desequilíbrio regional. O Sudeste americano concentra aproximadamente 26% da população do país, mas possui apenas 9% do rebanho leiteiro nacional. A distância entre onde estão os consumidores e onde está o leite produzido tende a ganhar importância estratégica.
Uma nova lógica para a fazenda leiteira
O que está acontecendo nos Estados Unidos revela uma mudança importante na forma de enxergar a atividade leiteira. A fazenda deixa de ser avaliada exclusivamente pela quantidade de leite produzida. Genética, sólidos, gordura, valor do bezerro, eficiência produtiva e acesso aos mercados passam a fazer parte de uma mesma equação econômica.
O cruzamento com raças de corte transformou o bezerro em uma fonte relevante de receita. A genômica tornou mais precisa a decisão sobre quais animais permanecem no rebanho. O aumento da produção de gordura fortaleceu produtos como manteiga. E a competitividade do queijo ampliou a presença americana no comércio internacional.
Ao mesmo tempo, água, renda e mudanças no comportamento do consumidor começam a definir onde e como a próxima expansão acontecerá. É uma transformação que conecta o que acontece dentro da vaca, dentro do tanque, dentro do curral e dentro dos mercados internacionais.
E talvez essa seja a principal mensagem do movimento observado nos Estados Unidos: a próxima geração da pecuária leiteira não será definida apenas por quanto leite uma vaca produz, mas pelo valor total que sua genética e sua produção conseguem gerar ao longo da cadeia.
As informações são do Dairy Herd, escritas por Karen Bohnert, traduzidas pela Equipe MilkPoint.
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