São sempre discutidos os efeitos do estresse térmico em vacas leiteiras no fim do período de gestação. Esta é uma discussão muito importante, pois diversas pesquisas destacam as consequências negativas do estresse térmico, impactando na redução da ingestão de matéria seca e na lactação seguinte, e ocasionando em redução na produção de leite.
Esses efeitos resultam em um período de transição (pré e pós-parto) mais difícil, com maior risco da vaca apresentar doenças que vão comprometer sua saúde e desempenho.
Porém, esses efeitos não são restritos as vacas adultas do rebanho. As novilhas (nulíparas) prenhas que são submetidas ao estresse térmico também sofrem prejuízos durante a primeira lactação.
Além do mais, um ponto de extrema relevância é que o estresse térmico das vacas e novilhas durante a gestação, vai resultar em efeitos intrauterinos, ou seja, vai afetar a longo prazo a bezerra que ainda vai nascer. Trabalhos atuais mostram o impacto desse estresse térmico intrauterino em diversas características de saúde e desempenho das bezerras, como: crescimento, função imunológica, termotolerância, entre outros.
E como saber se a vaca ou novilha está sofrendo por estresse térmico?
O estresse térmico ocorre quando a vaca sai de sua zona de conforto térmico. Ou seja, quando a taxa de ganho de calor ultrapassa a taxa de perda de calor do animal. Isso causa diversas alterações fisiológicas e comportamentais. Além de perdas produtivas, como redução na ingestão de alimento e produção de leite e impacto no desempenho reprodutivo das vacas.
Quais os impactos para a bezerra?
Estudos realizados pelo professor Geoffrey Dahl na Universidade da Flórida, demonstram diversas consequências do estresse térmico pré-natal, ou seja, antes do nascimento, no estabelecimento da saúde da bezerra.
Uma das principais consequências do estresse térmico no final da gestação para a bezerra em desenvolvimento, é a redução do peso ao nascimento. Esse impacto no crescimento intrauterino da bezerra, pode ser relacionado a redução do fluxo sanguíneo uterino e menor oferta de nutrientes para a placenta.
Além dessa redução do peso ao nascimento, o estresse térmico influencia de forma direta a transferência de imunidade passiva para a bezerra, pela colostragem.
Bezerras recém-nascidas, provenientes de vacas submetidas ao estresse térmico e que receberam colostro das próprias progenitoras, apresentam comprometimento da absorção de IgG do colostro. Quando comparadas as bezerras nascidas de vacas que foram mantidas em ambientes resfriados durante a gestação.
Outro ponto destacado, é que essa redução no peso ao nascimento das bezerras expostas ao estresse térmico intrauterino, foi acompanhada por uma diminuição no tamanho dos órgãos imunológicos, como o timo e o baço. E em casos severos, também pode afetar o tamanho do fígado, considerado um órgão metabólico.
Isso significa que a resposta imunológica dessas bezerras vai estar comprometida. Com isso, vai aumentar o risco desses animais apresentarem doenças comuns da fase de criação inicial, e aumenta os custos com tratamento de doenças. Além do crescimento e desenvolvimento da bezerra ficar comprometido pela redução na ingestão de concentrado, e impactando diretamente na produtividade e sucesso da fazenda.
E por fim, outra característica cada vez mais estudada, são efeitos do estresse térmico intrauterino a longo prazo, neste caso, na produção de leite futura dessa bezerra. Estes pesquisadores destacaram que quando essas bezerras que passam por estresse térmico durante a vida fetal, se tornam adultas, há uma redução na produção de leite.
Após o parto, essas vacas podem ter redução de aproximadamente 5kg leite/dia durante as primeiras 35 semanas de lactação. Isso ocorre mesmo que no momento do parto, essas novilhas estejam em condições de saúde e escore de condição corporal semelhante as novilhas que não passaram pelo estresse térmico intrauterino.
Destacando a importância do resfriamento adequado das vacas durante todo o período gestacional, e as perdas produtivas e econômicas que podem ocorrer devido as alterações de manejo da fazenda. Como por exemplo, o desafio de superlotação nas instalações das vacas em lactação e necessidade de manter o lote de vacas secas, e as vezes, até as vacas próximas ao parto, do lado de fora das instalações com resfriamento.
Destacando a importância do planejamento e gestão da propriedade leiteira!
Referências bibliográficas
Dahl, G. E.; Tao, S.; Monteiro, A. P. A. Effects of late-gestation heat stress on immunity and performance of calves. Journal of Dairy Science, 99(4), 3193–3198 2016. https://doi.org/10.3168/jds.2015-9990
Dahl, G. E.; Tao, S.; Laporta, J. Heat Stress Impacts Immune Status in Cows Across the Life Cycle. Frontiers in Veterinary Science, 7, 116. 2020. https://doi.org/10.3389/fvets.2020.00116