Esse “elo invisível” pode influenciar diretamente a qualidade microbiológica do leite e até na transferência de substâncias do material para o alimento — algo especialmente relevante em um produto rico em gordura como o leite.
Nesse processo, dois riscos se destacam: biofilmes persistentes quando o material, o desenho e a rotina de limpeza não favorecem a remoção; e a migração de componentes — como plastificantes — quando a composição não é adequada para contato com alimento.
A literatura descreve ambos os mecanismos no ambiente lácteo, o que reforça a importância de especificar e validar corretamente os materiais do sistema de ordenha.
1) Migração de compostos: por que validar o produto final
A migração é o processo pelo qual componentes de um polímero (plastificantes e outros aditivos) podem passar para o alimento em condições de uso. Em equipamentos e mangueiras amplamente fabricados com PVC, alguns estudos em leite demonstraram a possibilidade de transferência de plastificantes:
-
Ruuska (1987) avaliou contaminantes migrantes em tubos e teteiras usados na produção de leite;
-
Castle (1990) mediu a migração de DEHP (ftalato) ao longo de etapas do processo de ordenha em campo, indicando que a interface “leite x tubo” pode ser uma fonte de transferência dependendo do material e das condições de contato.
Como o leite é um alimento aquoso contendo fase lipídica emulsificada, é mais sensível à migração de compostos lipofílicos quando há fontes de contato inadequadas. Por isso, em cadeias que buscam padrões mais rigorosos de segurança e rastreabilidade — como a do leite — o ponto central não é apenas conhecer a matéria-prima, mas validar o comportamento do produto final por meio de declarações de conformidade e ensaios pertinentes.
2) Biofilmes: o inimigo silencioso da CBT
Mesmo com lavagem e sanitização, biofilmes podem se estabelecer em superfícies em contato com leite.
Biofilmes são camadas de microrganismos que se fixam nas superfícies e formam uma espécie de “escudo”, tornando a remoção mais difícil mesmo com limpeza e sanitização.
Um estudo em fazendas mostrou biofilmes em mangueiras utilizadas para desviar colostro e leite, apontando potencial de atuarem como reservatórios microbianos quando rotinas de limpeza não são suficientes (Latorre et al., 2022).
Uma revisão recente sobre biofilmes na ordenha descreve que, apesar de procedimentos de limpeza e desinfecção, biofilmes em equipamentos de ordenha podem ser difíceis de remover e fonte relevante de contaminação (Desmousseaux et al., 2025).
Na prática, o risco aumenta com microdefeitos/rugosidade, zonas de baixa turbulência (curvas, conexões, pontos mortos), depósito de gordura/proteína e limpeza insatisfatória (concentração, tempo, temperatura e sequência).
Estudos de CIP em ambiente lácteo mostram que regimes “padrão” podem ter eficácia variável contra biofilmes e que ajustes em etapas cáusticas e ácidas, bem como parâmetros de processo, podem melhorar a remoção dos mesmos (Bremer et al., 2006).
Na prática, isso significa que mesmo sistemas aparentemente limpos podem manter focos de contaminação quando há desgaste das mangueiras, pontos de retenção de leite ou parâmetros de limpeza fora do ideal.
Qualidade do leite também se constrói na escolha dos componentes do sistema
A qualidade do leite é construída em cada etapa do processo — da saúde do rebanho ao resfriamento, passando pelos detalhes do sistema de ordenha. Componentes muitas vezes considerados secundários, como mangueiras e conexões, podem atuar como pontos críticos quando não são especificados corretamente.
Revisar os materiais em contato direto com o leite, verificar sua conformidade para uso alimentício e adotar critérios claros de inspeção e substituição são medidas simples que reduzem variabilidade, aumentam a eficiência do CIP e ajudam a proteger a qualidade microbiológica do produto.
Fale com os nossos consultores: Clique Aqui
Acesse nosso site e conheça a linha completa.
Referências
· Ruuska, R.M. (1987). Migration of contaminants from milk tubes and teat liners. Journal of Dairy Science.
· Castle, L. (1990). Migration of plasticizer from poly (vinyl chloride) milk tubing. Food Additives and Contaminants, 7(2).
· Latorre, A.A. et al. (2022). Biofilms in hoses utilized to divert colostrum and milk on dairy farms. Frontiers in Veterinary Science.
· Desmousseaux, C. et al. (2025). A Food Safety Concern—Biofilms in the milking machine. Journal of Dairy Science.
· Bremer, P.J. et al. (2006). CIP studies on removal of dairy biofilms. International Journal of Food Microbiology, 106(3), 254-262.